Ttulo: Uma Famlia Perfeita.

Autor: Penny Jordan

Dados da Edio: Harlequin, Madrid, 2004.
Coleco Narrativa Internacional: N 73 - 1. 12. 04
Ttulo original: A Perfect Family.
Gnero: Romance.
Classificao: Literatura Canadiana, Sculo XX.
Digitalizao e Correco: Dores Cunha.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
este ficheiro no pode ser distribudo para outros fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.
Editado por Harlequin Ibrica, S. A. Hermosi la, 21 28001 Madrid
 1997 Penny Jordan Todos os direitos reservados.
Uma Famlia Perfeita,
Coleco Narrativa Internacional: N 73 - 1. 12. 04
Ttulo original: A Perfect Family
Publicada originalmente por Mira Books, Ontario, Canad.
Todos os direitos, incluindo os de reproduo total ou parcial, so reservados. Esta edio foi publicada com a autorizao de Harlequin Enterprises II BV.
Todas as personagens deste livro so fictcias. Qualquer semelhana com alguma pessoa, viva ou morta,  pura coincidncia.
I. s. b. n. 84-671-2150-5
Depsito Legal: B-42299-2004
Fotocomposio M. Color & Diseno, S. l. Las Rozas. Madrid. Impresso: Litografia Ross, S. a. Gav (Barcelona) Distribuidor Exclusivo Para Portugal: M. i. d. e. s.
Rua Da Repblica Da Coreia, 34 Ranholas - 2710 Sintra - Portugal

Prlogo
1917
A Primavera tinha sido fria e hmida e j durante o Vero a chuva torrencial arruinara a colheita.
Josiah Crighton estava a limpar a janela completamente suja da carruagem em que viajava, de forma a conseguir contemplar a paisagem, mas fez uma pequena pausa para 
contemplar o rosto plido e terno da jovem que se encontrava sentada ao seu lado.
Ajovem era sua esposa e dentro de pouco tempo, seria tambm a me do seu filho. Cerrou os dentes ao recordar a fria do seu pai quando descobriu o que acontecera.
- Por amor de Deus, se querias fazer uma estupidez to grande, porque raios no o fizeste longe de casa? Em Oxford. Em Londres, no escritrio. Certamente que l 
tiveste imensas oportunidades para. - o seu pai deixou a frase em suspenso e comeou a tocar ritmadamente com os dedos na mesa, enquanto o olhava de uma forma fulminante. 
- Bem, a verdade  que j no h remdio. Temos de encontrar um marido adequado para esta jovem. Em relao a ti.
- Ela j tem um marido - contraps Josiah, calmamente.
O alvio afastou a impacincia e a raiva do seu pai, que suspirou:
- Ela j  casada? Porque  que no me disseste isto antes?

Mas voltou a enrugar a testa quando Josiah continuou a olh-lo, imperturbvel, e lhe explicou:
- Ns casmo-nos, pai. Bethany e eu.
Josiah no ficou surpreendido com o alvoroo com que a notcia foi acolhida nem com o consequente exlio para ambos e para as respectivas famlias. A famlia de 
Bethany tambm no tinha ficado propriamente feliz com a novidade. Bethany era filha de um fazendeiro que trabalhara na manso de lorde Haver. Josiah conheceu-a 
num dia em que o seu pai a encarregou de levar alguns papis ao seu cliente. Reconheceram-se de imediato j que tinham passado algumas frias de Vero juntos quando 
eram crianas e imediatamente recordaram-se tambm dos jogos proibidos que partilharam nas margens do rio Dee.
Uma coisa levou  outra e, finalmente, o inevitvel aconteceu. Quando Bethany Lhe deu a notcia, plida e assustada, Josiah fez a nica coisa que lhe parecia ser 
honrada, sem se preocupar com o facto de a sua famlia esperar que ele consolidasse os laos familiares, casando-se com uma prima. Bethany tambm j tinha um casamento 
previsto com um parente afastado, um vivo dono de ricas terras de cultivo e com dois filhos de tenra idade, que precisavam dos mimos de uma me.
Sem puderem contar com o apoio familiar e sem o cargo que lhe estava destinado no escritrio de 
4
advogados da familia, Josiah no teve outra hiptese seno encontrar outra forma de sustentar a sua mulher e o filho que estava a caminho. Assim, alugou uma casa 
modesta na pequena cidade mercantil de Haslewich, com esperana de que os negcios dos habitantes e da comunidade rural fossem suficientes para sustentar a sua recm-criada 
familia.
- Tens a certeza de que me amas, Josiah? - perguntou Bethany, chorosa e angustiada, no dia do seu repentino casamento secreto.
Josiah abraou-a com fora, sem ser capaz de responder-Lhe com sinceridade e com receio de mentir-lhe. O passado, repleto de comodidade e estabilidade, ficara para 
trs. O futuro apresentava-se to obscuro e to pouco animador como a paisagem devorada pela chuva. Enquanto voltava a olhar pela janela da carruagem, tentou comparar 
a vida que deixara com aquela que iria agora comear.
Naquela altura, em Chester, a secretria do seu pai devia estar a servir o ch do meio da tarde. O fogo estaria a arder na lareira do escritrio, revestido a madeira, 
propagando o seu calor. Como scio mais antigo do escritrio de advogados mais prestigiado de Chester, o pai de Josiah era um homem muito estimado pelos empregados 
e, em particular, pela menina Berry, que protegia a sua intimidade como se fosse um co de guarda, ao ponto de nunca perder de vista os irmos mais velhos de Josiah, 
que tambm eram scios da empresa familiar.
A magnfica chaleira de prata em que o seu pai tomava o ch era um presente de um cliente rico, enquanto o belssimo e original servio de porcelana de Svres tinha 
sido concebido justamente para ele.
Nos quartos vazios que Josiah conseguira alugar, e que seriam simultaneamente a sua casa e escritrio, teria sorte se conseguisse alguma vez desfrutar de um ch 
a meio da tarde, apesar de no ter nenhuma chaleira de prata para servi-lo nem um servio de porcelana para beb-lo.

Enquanto contemplava a paisagem, o seu semblante foi ficando mais carregado. Como o mais jovem dos seus trs irmos, sabia que o seu pai o tinha renegado porque 
ele era o seu bem menos precioso. Com dois filhos mais velhos, Edwards e Williams, j integrados no negcio familiar, um irmo, uma irm e uma infinidade de outros 
familiares, o seu pai podia prescindir facilmente de um filho desobediente. que desonrara a famlia.
Josiah jamais trataria o seu filho como o seu pai o tinha tratado a ele, decidiu naquele momento, fervorosamente. Queria assegurar que o seu filho tivesse uma herana 
familiar to valorizada e respeitada como aquela da qual ele tinha sido expulso. alis, at queria mais. Enquanto observava o rosto adormecido da sua mulher, Josiah 
props-se a fundar uma dinastia que algum dia iria rivalizar com a do seu pai e com a dos seus irmos.
Iria rivalizar e super-la.
1969
David Crighton viajava rumo ao norte no descapotvel encarnado que o seu pai lhe oferecera, como recompensa por ter concludo a sua licenciatura. Apesar de no ter 
sido o melhor aluno da turma, pelo menos tinha conseguido terminar os estudos. Girou 6
a cabea para contemplar a jovem que estava sentada ao seu lado e experimentou uma sensao de imensa alegria.
Tinha-a tirado; quase raptado, a um dos seus amigos, outro membro do grupo de msica pop que ele e outros trs companheiros tinham formado durante o ltimo ano do 
curso. Durante vrios meses desfrutaram de um sucesso impressionante: um homem gordo e baixo, com uma lustrosa careca e um fato ainda mais lustroso, dirigiu-se aos 
bastidores depois de uma actuao e ofereceu-se para os ajudar a conseguir um contrato com um dos principais estdios de msica.
Era a poca em que jovens desconhecidos se tornavam milionrios da noite para o dia, enquanto milhares de jovens admiradoras sussurravam os seus nomes e lanavam 
gritos histricos, por isso David e os amigos pensaram que lhes podia acontecer o mesmo. S que o homem gordo e baixo acabou por ser mais esperto do que parecia 
e, enquanto eles tentavam coordenar o grupo, ele metia ao bolso grande parte dos lucros.
A nica coisa que lhes deixou foi as cpias que sobraram de um disco que no tinha conseguido chegar  lista dos cinquenta mais vendidos e uma factura quase infinita 
de impostos para pagar.
O seu av, Josiah, saldou a sua parte da dvida e disse-lhe, furioso, que apenas o fazia para que a famlia no ficasse desonrada. David no queria saber qual era 
a razo. Sorrindo de orelha a orelha para o velho senhor, e com uma boa disposio dada pela marijuana, limitou-se a prestar ateno ao sermo do seu av e depressa 
voltou para Londres, para perto
7
dos seus amigos e do estilo de vida de que tanto gostava.
Isto acontecera h j mais de dois anos. Naquela altura, gozou com o seu irmo gmeo por este no desejar mais nada alm de criar razes em Cheshire e ocupar um 
lugar nos negcios da famlia. mas as coisas tinham mudado.

Voltou a olhar para a jovem que dormia suavemente ao seu lado. Tinham-se casado em Londres h trs dias. Na cerimnia, ela vestira o vestido mais curto que alguma 
vez existiu, deixando visvel uma imensido de pernas bem torneadas, enquanto sorria com os seus olhos de Bambi emoldurados por um cabelo loiro, liso e brilhante. 
Tinha dezoito anos, feitos recentemente, e era modelo, a mais conhecida, desejada e famosa de Londres. E, finalmente, era s sua. Tambm estava grvida.
- Mas, como  possvel? - questionou quando o mdico lhe comunicou o resultado. - Eu estou a tomar a plula.
-  evidente que a plula no faz efeito quando fazes amor com um homem to sensual como eu - disse- lhe David, sorrindo.
Ela recusava-se a partilhar da sua alegria e recordou-lhe que tinha imensos compromissos como mo delo.
Desta forma, eles casaram- se e comearam uma nova vida em Cheshire, mas no apenas porque Tiggy estava grvida. David franziu a testa, mas no fazia sentido continuar 
a pensar no outro infeliz acontecimento. Cometera um erro e descobriram, mas, como ele prprio dissera ao seu pai em jeito de justificao, outros advogados faziam 
o mesmo e no
lhes acontecia nada. No tinha culpa de que o scio mais antigo do seu escritrio fosse to rgido. Afinal de contas, no fizera nada de ilegal.
1996
- Fala-me novamente da tua famlia e do aniversrio que vamos celebrar - pediu Caspar Johnson.
Mesmo depois de estarem juntos h seis meses, o seu sotaque ritmado do outro lado do Atlntico tinha quase o mesmo poder para transtornar os seus sentidos tal como 
a sua figura corpulenta e mscula de um metro e oitenta e cinco centmetros de altura, pensou Olivia enquanto lhe devolvia o sorriso.
- Continua atenta  estrada - advertiu Caspar. - E no me olhes dessa forma - acrescentou suavemente.
- Ou j sabes que.
A forma como expressava o seu desejo sexual por ela, de uma forma aberta e frequente, era uma das coisas que o distinguia dos outros homens que Olivia conhecera, 
pensou, enquanto voltava a centrar a sua ateno no intenso trfego que se fazia sentir na auto-estrada e respondia  primeira pergunta.
- O aniversrio - recordou. - J te contei mil vezes.
- Eu sei - reconheceu Caspar. - Mas gosto de ouvir-te cont-lo, e gosto ainda mais de ver a tua cara quando falas da tua familia. Ainda bem que abandonaste a ideia 
de te dedicares  magistratura - brincou.
- Os teus olhos iriam trair-te em todas as sentenas. Eles podem ser muito eloquentes.
Olivia Crighton fez uma careta, apesar de reconhecer que Caspar tinha razo. Tinham-se conhecido enquanto ela fazia uma ps-graduao sobre Direito
9
dos Estados Unidos da Amrica. Caspar tinha sido seu professor e, como ela, era filho de advogados e optara por no se juntar ao escritrio familiar e seguir o seu 
prprio caminho. Optara. Talvez Caspar ti vesse tido escolha, mas ela.

Existiam outras razes para que fossem um casal perfeito, apressou a tranquilizar-se, enquanto abandonava aquela perigosa linha de pensamento: iam visitar a famlia, 
no desenterrar velhos problemas. E o que os unia no era uma tradio familiar ligada  advocacia, mas sim algo muito mais ntimo. Automati camente, apertou os 
dedos dos ps, contraiu os msculos da barriga e corou um pouco. a paixo que partilharam na noite anterior tinha sido fantstica.
J tinham passado dois meses desde que Caspar e ela decidiram ir viver juntos e nenhum dos dois lamentava essa deciso, bem pelo contrrio. Mas Olivia no tinha 
contado  famlia os seus planos para o futuro com Caspar nem a sua deciso de ir viver para os Estados Unidos com ele. Claro que no esperava que colocassem alguma 
objeco; como mulher que era, no havia grande problema em prescindirem dela, j que no precisavam dela no escritrio da familia, tal como acontecia com os filhos 
vares.
Caspar passou da alegria  surpresa quando ouviu pela primeira vez a histria da familia de Olivia, incapaz de acreditar que eles continuassem a ser regidos por 
tradies to antigas. Ele recebera uma educao muito diferente da dela. Os seus pais divorciaram-se quando Caspar tinha apenas seis anos e Olivia acreditava que 
ele tinha alguns traumas a nvel sentimental e, por isso, valorizava tanto o facto de ele expressar o desejo sexual que sentia por ela sem tabus.
10
Sabia que ele a amava tanto como ela a ele, mas os dois estavam marcados pelas experincias ocorridas na sua infncia e, por isso mesmo, ambos se mostravam cautelosos 
quanto  intensidade das suas emoes. Olivia suspeitava que os dois temiam apaixonar-se mas, apesar de ser ainda muito jovem, j tinha aprendido que era uma tolice 
reprimir aquilo que sentia. As recordaes dolorosas, como os estalos e os pontaps, curavam-se melhor na solido.
No tinham feito planos a longo prazo, alm de que ela o acompanharia at Filadlfia quando Caspar regressasse ao seu pas natal. No que dizia respeito  sua profisso, 
teria de dar um passo atrs j que teria de voltar a revalidar o seu ttulo, mas Caspar e ela concordavam que o que sentiam um pelo outro era demasiado importante 
para que no Lhe dessem uma oportunidade. Mas uma oportunidade para qu? Para que o seu amor se consolidasse ou para que se extinguisse?
Olivia no sabia qual das duas possibilidades preferia e acreditava que Caspar tambm no. Naquele momento, a maior promessa que podiam fazer um ao outro era o desejo 
de estarem juntos e o facto de que a sua relao era muito importante para ambos.
- Fala-me da tua familia - pediu Caspar, sentado no lugar do pendura do pequeno e robusto Ford de Olivia, que fora um presente do seu av quando fizera vinte e um 
anos. Lembrou-se que quando Max, o seu primo mais prximo em relao  idade, atingira a maioridade, o av tinha-lhe oferecido um luxuoso carro desportivo.
A famlia. Por onde poderia comear? Pelos seus pais? Pelos seus avs? Ou pelo princpio, pelo seu bisav Josiah que fundara o escritrio da famlia
11
e se desligara da sua prpria famlia, que vivia em Chester, tendo comeado uma nova vida ao lado da mulher que a sua familia tinha desprezado?
- Quantas pessoas vo estar na festa? - a pergunta de Caspar interrompeu os seus pensamentos.

- No sei dizer-te. Vai depender de quantos primos direitos e primos mais afastados foram convidados. Oh, a famlia mais directa estar l: o av, os meus pais, 
o tio Jon e a tia Jenny, Max, o meu primo, e a minha tia-av Ruth. E talvez alguns da parte de Chester - olhou para o sinal da auto-estrada. - J s faltam duas 
sadas - disse. - Daqui a pouco estaremos em casa.
Enquanto se concentrava no trnsito, Olivia no se apercebeu da ligeira careta que Caspar fez ao ouvi-la dizer casa. Para ele, a sua casa era onde vivia em cada 
momento, mas para ela.
Olivia, aquela bonita e inteligente mulher inglesa, comeava a significar muito para ele. Em muitos aspectos, parecia muito mais jovem que as suas conterrneas americanas 
e, noutros aspectos, muito mais madura. Ao contrrio das outras mulheres, Olivia colocava a sua relao com ele acima de tudo e isso era muito importante para Caspar, 
que passara toda a sua infncia a sentir-se como uma batata quente que os seus pais atiravam de um para o outro.
As famlias. sentia um receio instintivo mas, por sorte, seria uma visita breve e logo em seguida Olivia e ele viajariam para os Estados Unidos e comeariam uma 
nova vida juntos. os dois sozinhos.
12
Um
- Achas que se vai manter o bom tempo? Seria terrvel se chovesse, j que vamos montar uma tenda no jardim.
Jenny Crighton tirou os olhos da lista de convidados que estava a rever para sorrir para a sua cunhada.
- Se tivermos sorte, o bom tempo vai manter-se, Tiggy - tranquilizou- a. - E mesmo que assim no seja, teremos aquecimento na tenda e.
- Sim, mas os convidados tm de atravessar o jardim e se no estiver coberto.
- Quando montarem a tenda, vamos pedir para inclurem um corredor at  porta de casa. Assim estar coberto e ningum ficar molhado - prometeu-lhe pacientemente, 
como se ainda no tivessem falado daquele assunto milhares de vezes.
No tinha sido nenhuma surpresa descobrir que, apesar de Tiggy ter passado bastante tempo ao telefone a falar sobre o quo complicado estava a ser organizar a festa 
conjunta do quinquagsimo aniversrio dos seus maridos, era ela, Jenny, quem fizera todo o trabalho. Mas, claro, era assim a sua relao, pensou ironicamente. Tiggy 
sempre fora a mulher atraente e ela, a trabalhadora.
13
Todas as pessoas desculpavam as fraquezas de
Tiggy; a mulher de David deslumbrava todos os homens, inclusivamente naquela altura em que ambas j tinham passado dos quarenta, e Tiggy, porque era Tiggy, nunca 
conseguia resistir  tentao de aproveitar toda aquela admirao. Mas fazia-o sem qualquer malcia, claro. Adorava David, todos sabiam disso, e era bvio que o 
sentimento era mtuo.
Jenny ainda se recordava do olhar de orgulho e admirao de David no Vero em que levou Tiggy  casa da sua famlia e a apresentou como sendo a sua mulher. Todos 
adoravam David: a sua me, os clientes, os amigos, as crianas, toda a gente, mas ningum o adorava com tanta fora nem de forma to incondicional como o seu marido, 
Jonathon, o irmo gmeo de David.

Tinha sido ideia de Jonathon celebrarem juntos o aniversrio e organizar uma imensa reunio familiar.
- O pai vai adorar a ideia. J sabes o quanto a famlia significa para ele - disse a Jenny, ao contar-lhe a sua ideia.
- Pode ser que ele goste, mas ir refilar por causa do dinheiro que gastar - preveniu-o Jenny, com uma certa ironia. - Vai ser caro, se quisermos fazer uma coisa 
como deve ser.
-  claro que o faremos como deve ser e o pai no se vai importar. como  para David, no faz mal.
- No - admitiu Jenny, mas teve de virar o rosto para que Jonathon no visse a sua expresso.
Jenny sabia, sem dvida, porque  que todos tinham tanta considerao por David e porque  que o seu sogro se empenhava tanto para que os gmeos permanecessem unidos 
e se apoiassem um ao outro
14
ou, melhor dizendo, para que Jonathon apoiasse o seu irmo.
Ben tambm tinha um irmo gmeo, mas este morrera  nascena e esse facto marcara-o para toda a vida. Jonathon cresceu sabendo que, aos olhos do seu pai, devia considerar-se 
bastante sortudo por ter o seu irmo gmeo junto a ele.
S numa ocasio Jenny presenciara o orgulho visvel de Ben a transformar-se em decepo, e tal aconteceu quando David abandonou o escritrio de advogados, abandonando 
assim a trajectria que estava traada para ele desde que nasceu.
- Bem, espero que estejas certa em relao ao tempo - disse Tiggy, consternada. - Os meus sapatos ainda no chegaram, mas eles prometeram- me que os receberia a 
tempo da reunio. J  muito tarde para encomendar outros e.
- Vo chegar a tempo. Ainda faltam alguns dias - tranquilizou-a Jenny.
Tiggy tinha sido modelo nos anos sessenta e ainda exibia a mesma beleza de outrora, apesar da mania pelas dietas e a obsesso pela magreza a terem deixado demasiado 
esqueltica, na opinio de Jenny. O seu ar de mulher abandonada, que numa jovem se tornava bastante atraente, quase que se tornava chocante tendo em conta que ela 
j era uma mulher de quarenta e cinco anos.
Claro que Jenny jamais diria a sua opinio. Tinha conscincia do que os outros pensavam acerca da sua relao com Tiggy e sabia que, da mesma forma que achavam que 
Jonathon tinha inveja do seu irmo, diriam que ela tambm invejava a sua cunhada.
Os olhos castanhos de Jenny, normalmente doces,
15
reflectiram a dor que sentia, antes que pudesse voltar a concentrar a sua ateno no enorme jardim que se encontrava diante delas. Tinham sido necessrias verdadeiras 
negociaes diplomticas para convencer o seu sogro, Ben, a permitir que a reunio familiar se realizasse ali.
Ele tinha refilado, tal como Jenny previra, acerca das despesas e do transtorno, mas, certamente, quando chegasse o grande dia, ele iria comportar-se como um anfitrio 
alegre e paternal e aceitaria os elogios e a admirao dos seus convidados sem qualquer remorso.

Tinham travado autnticas batalhas em absolutamente todas as etapas dos preparativos para o fim- de-semana, mas o mais irnico naquilo tudo  que Ben seria o primeiro 
a protestar caso o mais nfimo pormenor no correspondesse s suas expectativas. algo sobre o qual o velho senhor era to consciente como ela. Mesmo assim, em algumas 
ocasies, Jenny viu-se obrigada a jogar sujo, relembrando-o de que tinha de impressionar os parentes de Chester, que ele prprio insistira em convidar.
Claro que Jenny no se importava; pelo contrrio, at gostava de enfrentar o seu extraordinrio sogro. Apesar de tudo sabia que, apesar de todos pensarem que Ben 
gostava mais de Tiggy pela sua beleza, no fundo era ela quem tinha ganho o seu respeito.
Sim, os homens respeitavam-na, confiavam nela, recorriam a Jenny em busca de conselhos e mimos, mas no a namoriscavam nem a consideravam uma mulher desejvel. Esta 
situao fazia-a sorrir naquela altura, mas na sua juventude no tinha sido bem assim.
16
Jenny ainda se recordava do que sentira ao conhecer Tiggy. Jon e ela estavam casados h quatro ou cinco anos e j h dois que tentavam ter um filho, mas sem xito. 
Ao ver Tiggy radiante de felicidade; orgulhosa do amor de David e da sua visvel gravidez, Jenny sentiu simultaneamente dor e pena de si mesma. Custara-lhe imenso 
olhar para os olhos de Jon e, quando o fez, viu a expresso distante que ele tinha ao observar a barriga saliente de Tiggy. Nesse instante, Jenny mordeu os lbios, 
sentindo uma mistura de culpa e desespero.
A alma de Jenny tinha-lhe cado aos ps quando Ben lhes telefonou a convid-los para irem at Queensmead, para conhecerem oficialmente a mu lher de David. Tal aconteceu 
num quente e pegajoso dia de Vero, naqueles em que parece que o ar j no tem oxignio.
O escritrio estava a passar por uma fase menos boa e Jon aceitara, sem ripostar, a deciso do seu pai de reduzir-Lhe o salrio. O abandono de David diminura consideravelmente 
os lucros do negcio, mas Jenny sabia que Jon no se importava muito com isso. Por sorte, Jenny era uma dona de casa organizada, que poupava dinheiro sempre que 
podia, no comprando roupa para ela. Por isso sabia que no tinha nenhum vestido minimamente apropriado para a festa nem fora ao copo-de-gua tardios que Ben insistira 
em organizar para os recm-casados. Contudo, depois de rejeitar obstinadamente a sugesto algo hesitante de Jon para utilizar parte das suas poupanas para comprr 
um vestido novo, Jenny acabou por decidir costurar ela o seu prprio vestido.
- Compra um vestido muito bonito - tentou 
17
convenc-la Jon, mas ela fez um gesto negativo com a cabea e contraiu os lbios, gesto que ele interpretou como sendo de contrariedade mas, na verdade, era a forma 
que Jenny encontrara para reprimir as suas l grimas, suscitadas pela mensagem escondida nas palavras de Jon: que ela era to pouco atraente que precisava de vestir 
algo muito bonito para chamar a ateno e, pior ainda, que Jon se envergonhava pela sua falta de beleza.

Sentia que o decepcionava no apenas pelo seu aspecto pouco agradvel mas tambm por no ter sido capaz de Lhe dar outro filho. E, pelo contrrio, David conseguira 
logo ter um filho. mas isso era algo que ela no queria reconhecer, nem sequer no seu foro mais ntimo e muito menos diante de Jon. Como poderia faz-lo? Iria parecer 
que estava a comparar os dois irmos e que Jon saa sempre a perder. No era preciso ser muito inteligente para saber que, aos olhos da familia e de quase todo o 
mundo, David e Tiggy eram o casal perfeito e Jon e ela, o casal fracassado.
O prprio Ben j dissera maravilhas acerca da excepcional beleza de Tiggy, por isso o nervosismo e uma dor de cabea provocada pela tenso e pelo horrvel vestido, 
que ela fizera com um pedao de vestido que comprara no mercado, conspiraram contra ela naquele dia em que fez um sorriso pouco convincente e tentou simular indiferena 
quando finalmente teve de enfrentar a beleza arrebatadora, elegante e esbelta de Tiggy.
At mesmo Tiggy no pde deixar de reparar, como Jenny previra, na humilhante reaco de todas as pessoas quando se apercebessem do quo diferentes
18
elas eram e abriu os olhos de surpresa um instante antes de os baixar, sentindo-se incmoda e incapaz de encarar Jenny enquanto David as apresentava.
David tambm evitou olh-la nos olhos. Era evidente que se sentia inchado de orgulho pela admirao que Tiggy despertava nos homens. Todos giravam entusiasmados 
 volta dela, de forma que David apenas teve tempo de a cumprimentar, porque Tiggy agarrou-o depressa pelo brao e exigiu ser apresentada a todos aqueles homens 
que se mostravam to ansiosos por falar com ela.
Ao voltar-se para David, Tiggy elevou o rosto at ele, sorrindo. As suas madeixas loiras reflectiam com a luz do sol e os seus ombros, realados pelo decote aberto 
do vestido curto de algodo, pareciam to frgeis e delicados como os de um passarinho: Jenny contemplou-a, inundada de tristeza, enquanto comparava o seu rosto 
corado e sem graa com as mas do rosto salientes e a extica beleza de Tiggy.
Todos os detalhes sobre a mulher de David, desde as suas unhas pintadas at s pestanas postias que, ao contrrio dela, Tiggy nem sequer necessitava, mostravam 
que ela era uma mulher consciente do facto de ser amada e desejada. E porque no o deveria ser? David estava enfeitiado, loucamente apaixonado; nem sequer conseguia 
soltar-lhe a mo e, muito menos, afastar-se dela.
Jenny sentiu os seus olhos a inundarem-se de lgrimas, ao sentir pena de si mesma. At mesmo Jon, geralmente tmido e calado, contemplava Tiggy com um sorriso de 
admirao, ele que quase sempre ostentava uma expresso sria.
- Jenny, queres ajudar-me com a comida?
19
Jenny desviou o olhar do grupo de entusiastas que rodeavam Tiggy e voltou-se para a tia de Jon, Ruth.
- Sim, claro - respondeu imediatamente. - A Tiggy  muito bonita, no ? - comentou com um tom de voz baixo, enquanto atravessavam juntas o jardim. Jon nem sequer 
se apercebera que ela j no estava perto dele. Estava em p, junto a David, apesar de um pouco mais atrs, como se fosse literalmente a sombra de David. Estaria 
ele a desejar ter-se casado com uma mulher bonita e alegre, como fizera David, e ser motivo de inveja de todos os outros homens? - David e ela so. o casal perfeito 
- acrescentou, com a garganta quase fechada. - E nota-se que esto muito apaixonados.

- Sim, esto - afirmou Ruth, mas com um tom mais de ironia do que propriamente de afecto, para grande surpresa de Jenny. - David e Tiggy esto enamorados - explicou 
a Jenny, ao ver a confuso estampada no seu rosto. - Mas mais por si mesmos do que por qualquer outra pessoa. Pode ser que esteja enganada. Espero sinceramente estar.
Jenny e Jon no demoraram muito a ir embora de Queensmead, a manso da famlia, e voltar para casa. Ela ficou ligeiramente indisposta por causa do calor e sentiu-se 
terrivelmente mal por privar Jon da festa, principalmente quando viu o olhar de pena que Tiggy lhes dirigiu ao despedir-se.
Enquanto se afastavam, ouviu o comentrio que Tiggy proferiu a David:
- No consigo acreditar que Jon e tu sejam gmeos. Ele parece muito mais velho do que tu. Deve ser por culpa da mulher dele, que  um horror.
Um horror. Tiggy no tinha tido inteno de ser
20
grosseira, claro; nem sequer se tinha apercebido de que Jenny a tinha ouvido.
- Penso que  melhor voltar a ligar-lhes, s para certificar-me de que me enviaro os sapatos. Seria terrvel que no chegassem a tempo.
- O qu? - murmurou Jenny, enquanto voltava  realidade.
- Os meus sapatos, Jenny - repetiu Tiggy, irritada. Cus, Jenny conseguia por vezes ser to lenta e enfadonha. Ainda nem sequer falara sobre o que iria vestir na 
festa. Tiggy oferecera-se para ir s compras com ela, de forma a ajud-la a escolher algo apropriado mas, como era de esperar, Jenny tinha negado com a cabea e 
dito que estava demasiado atarefada. e que encontraria alguma coisa.
Tiggy tinha esperana de que esse alguma coisa, fosse o que fosse, no chegasse a ser demasiado feio. Ela ia usar um vestido de sonho, desenhado por um dos seus 
estilistas favoritos. David ficara um pouco zangado ao ouvir o preo, mas ela convenceu-o rapidamente. Afinal, tinham convidado a fina-flor da sociedade de Cheshire. 
Os familiares de Chester tinham excelentes contactos, para no falar de alguns antigos clientes.
Era uma pena que a casa no tivesse um salo de baile. A ideia da tenda era boa, mas. Ficara um pouco chateada quando Jenny se ops  sua ideia de que todos vestissem 
branco e preto, pois a Tiggy parecia- lhe que seria muito elegante. Alm de realar o seu tom de pele, o preto favorecia sempre as loiras.
-  muito limitado, muito restrito, Tiggy - protestou Jenny, com a sua voz suave e serena. - Nem todas as pessoas vo querer vestir branco ou preto. Temos de ser 
prticas.
21
Era mesmo prprio de Jenny uma afirmao daquele gnero. Alis, prtica, deveria ser o seu segundo nome. Era um anjo, claro, muito cumpridora e afvel e, por estranho 
que pudesse parecer, estava mais atraente agora que j era uma mulher madura do que quando era jovem. Conseguira manter a figura, apesar de vestir mais dois tamanhos 
do que ela, e continuava a ter o cabelo castanho, brilhante e encaracolado, se bem que no lhe fazia nada mal ter um corte mais moderno.

Tiggy apercebia-se como Jonathon olhava para elas algumas vezes, sem dvida a comparar a sua elegncia com a falta de gosto de Jenny. Jenny deveria ter mais cuidado 
com o seu aspecto. Jonathon era um homem bastante atraente, apesar de no ser to deslumbrante e ofuscante como David. O cabelo loiro de David era mais bonito do 
que o de Jonathon, cujo cabelo era de um tom mais acastanhado. Apesar disso, os gmeos tinham a mesma corpulncia e estatura imponente. Curiosamente, era o fsico 
um pouco menos forte de Jonathon que aguentava mais o peso da idade; David comeara a ganhar um pouco de barriga, apesar de o negar e de se recusar a ouvir qualquer 
comentrio acerca da sua condio fsica.
- Ah, ests aqui.
Jenny sorriu ao ver o seu sogro aproximar-se. Tinha mais de setenta anos, era vivo e coxeava ligeiramente, uma sequela de uma queda ocorrida h cerca de trs anos, 
quando deslocou a bacia e partiu a perna.
- Queria falar com as duas - anunciou, ao chegar junto a elas.
22
- Pai, est com um aspecto magnfico - disse Tiggy, que se apressou a levantar-se para lhe dr um rpido abrao e dar-lhe um leve beijo no rosto. Nem sequer podia 
resistir ao impulso de namoriscar com o seu sogro, pensou Jenny.
No, no era namoriscar, corrigiu. O que Tiggy fazia, o que queria, era garantir que continuava a ser uma mulher desejvel. Coitada. Jenny tentou imaginar como se 
sentiria se colocasse toda a sua auto estima na instvel qualidade que era a beleza. No era portanto de estranhar que Tiggy estivesse por vezes to tensa, to insegura.
- Tania, queria.
- Meu querido, tenho de ir. Tenho tantas coisas para fazer.
O seu sogro era uma das poucas pessoas que chamava Tiggy pelo seu verdadeiro nome e Jenny disfarou outro sorriso irnico quando viu Tiggy a afastar-se. Sabia porque 
Tiggy queria evitar a qualquer preo que Ben a interrogasse.
- Ela trabalha muito - comentou Ben, enquanto observava Tiggy a dar a volta  casa, em direco ao seu automvel. - Nunca foi muito forte. Ellie disse-me que vm 
instalar a tenda amanh.
- Sim - confirmou Jenny. Ellie era a governanta de Ben. - Vm por volta da hora de almoo e vo deixar tudo pronto antes que anoitea.
- Sim. Tudo bem, vamos acreditar que eles no vo destruir a relva. Ruth disse-me que vai ser ela a encarregar-se das flores - acrescentou, referindo-se  sua irm 
solteira. - No deverias ter deixado esse assunto nas mos de um profissional?
- A tia Ruth  melhor do que qualquer profissional
23
- disse Jenny, calmamente. - Quando faz os arranjos para a igreja.
- Os arranjos para a igreja - disse, com desprezo. mas acabou por abanar a cabea ao verificar que Jenny no iria permitir qualquer alterao e que estava a limitar-se 
a ouvi-lo.
Era esse o problema de Jenny: por vezes era demasiado serena e desagradavelmente despreocupada.
- Disseram-me que Olivia vir, acompanhada de um americano.

-  claro que vir - confirmou Jenny. - Afinal de contas,  filha de David. e de Tiggy - mas tinha sido Jenny, a sua tia, a quem tinha telefonado para confirmar 
que decidira ir viver com Caspar, e a Jenny quem tinha pedido conselhos quando pensou em casar com ele.
- E quem  exactamente esse americano? - perguntou Ben, mudando de estratgia, ao ver que Jenny no picara o anzol e sairia sempre em defesa de Olivia. O Vero estava 
a ser muito quente e, desde o acidente, o calor fazia-lhe mal. Penetrava nos seus ossos partidos e doloridos e deixava-o mais irritado.
-  o namorado de Livvy - respondeu Jenny.
- Namorado - Ben arqueou as suas sobrancelhas grisalhas. Como os seus filhos, ele tambm tinha muito cabelo, apesar de, no seu caso, j o ter completamente branco. 
- Segundo David, ele j tem mais de trinta anos. no  nenhum rapaz.  alguma coisa sria? - perguntou, lanando ao mesmo tempo um olhar penetrante em direco a 
Jenny.
- Isso tem de perguntar a Livvy - respondeu Jenny.
Sem dvida, era um relacionamento bastante srio,
24
j que Olivia confessara  sua me que iam partilhar a mesma casa, apesar de David se ter recusado a aceitar.
- David tem razo, claro - tinha dito Tiggy a Jenny, enquanto lhe contava a conversa que tinha tido com a sua filha. - De certeza que Ben no aprovar e ir chatear-nos 
por termos consentido que ele venha, mas como sero apenas alguns dias.
- Pois. mas naquela idade, alguns dias podem ser uma eternidade. Que disse Livvy?
- No lhe contmos nada. David achou melhor no o fazermos at c chegarem. J sabes como ela . s vezes  to obstinada. - Tiggy fez uma expresso de desagrado. 
- Lembras-te quando ela decidiu que queria estudar Direito? Todos sabemos que ela apenas o fez porque David e o av queriam que ela tirasse essa ideia da cabea 
at porque, afinal de con tas, ela .
- Uma mulher - concluiu Jenny, ironicamente.
Pessoalmente, as ideias dos homens da famlia Crighton pareciam-lhe muito antiquadas e j era hora de algum as mudar. Talvez Olivia fosse a primeira mulher a faz-lo, 
mas no era a nica.
Jenny sabia que a sua prpria Katie, com a tenra idade de dezasseis anos, j tinha ideias bastante claras em relao ao seu futuro. Era a advocacia ou nada, disse 
aos seus pais com veemncia. Louise, a sua gmea, era menos decidida; apesar disso, no tinha renunciado completamente ao sonho de ser estrela de cinema. Por no 
ser possvel, l tinha de se contentar com o Direito, dissera sensatamente.
- Mas no gostaria de ficar aqui - disse aos seus pais.
25
- Nem eu - concordou Katie. Costumava ser sempre ela a tomar a iniciativa e Louise, como o seu pai diante do seu irmo, era feliz ao satisfaz-la.
No entanto, quando nasceram, Jenny props-se a no favorecer nenhuma das duas e por isso ambas cresceram a saber que receberiam o mesmo amor e considerao.
- J sei - disse a sua irm Louise. - Vamos para Estrasburgo.  l que se tomam tdas as decises legais mais importantes sobre os Direitos do Homem.
- O teu pai j sabe disso? - murmurou Jenny ao seu marido. - Por vezes penso que ele tem dificuldades em reconhecer que at Chester tem mais peso no mundo do Direito 
do que Haslewich.

- Sim. O pai tem muito orgulho na sua terra - reconheceu Jonathon. - Herdou-a do seu prprio pai. A tia Ruth conta que o av Josiah nunca superou o facto de ter 
sido repudiado pela familia e que nunca deixou de sentir rancor por eles.
- O teu pai gosta muito de manter as antigas rivalidades. - disse Jenny. - At fiquei surpreendida por ter convidado os familiares de Chester para o teu aniversrio.
- Ah, s fez isso para os impressionar e.
- Da mesma forma que Max quer impressionar o av e o tio David - interrompeu Katie, mordaz; atirando a cabea para trs, como sinal de desprezo para com o seu irmo 
mais velho.
Jenny olhou cautelosamente para o seu marido. No era segredo para ningum que Max era o brao direito do av e do seu tio David.
- Esse rapaz devia ser filho de David e no teu - comentou Ben de forma hostil numa ocasio, durante outra reunio familiar.
26
Jenny nunca esquecera aquele comentrio. Infelizmente, ao que parecia, Max tambm no o conseguira esquecer.
Apesar de Lhe custar reconhecer, a verdade  que o seu filho era muito vaidoso e essa era uma fraqueza que tinha sido exacerbada por sempre ter sido o preferido 
do seu av.
- Max nunca entrar na faculdade de Direito - disse Katie, com um toque mordaz, no dia em que Max cumpriu vinte e um anos e Ben anunciou as as piraes profissionais 
do seu neto, enquanto lhe dava as chaves do Porsche Carrera que tanto Jonathon como Jenny tinham pedido para que ele no oferecesse.
Mas tinha acabado o curso na faculdade de Direito no ano anterior, com vinte e trs anos de idade, porm no quis ser scio de nenhum dos escritrios londrinos.
Sem qualquer dvida, recairia no seu filho mais novo a responsabilidade de ocupar o lugar do seu pai no negcio familiar, tal como o seu primo Jack ocuparia o lugar 
de David, mas ainda faltava muito para que tal acontecesse. Jack tinha apenas dez anos e Joss, oito anos.
Enquanto caminhava pelo relvado na companhia do seu sogro, Jenny admirou a fachada da casa.
Como quinta que fora nas suas origens, tinha a estrutura tradicional de um corpo central e duas alas, uma de cada lado. A fachada traseira, aquela que contemplavam 
naquele momento, era a mais antiga e contava com enormes vigas de carvalho; a principal, mais moderna, tinha sido feita com pedra de cor clara, extrada da pedreira 
local.
27
Alguns no encararam com agrado quando o pai de Ben se mudou para a espaosa quinta, perguntando- se como seria ele capaz de pagar uma propriedade to valiosa. Valiosa 
no tanto pela casa, mas mais pelas terras frteis que a rodeavam. E tudo aquilo pertencera a uma viva solitria.
Um dia, obedecendo s normas de sucesso que Ben pretendia cumprir literalmente, David, pelo simples facto de ter nascido dez minutos antes de Jon, iria herdar Queensmead, 
mas Jenny no o invejava. Estava muito feliz com a sua casa, muito mais pequena, localizada no outro lado da cidade. De origem georgiana, tinha anteriormente pertencido 
 Igreja e Jenny adorava o seu jardim delimitado com muralhas e a sua proximidade com o rio, que flua para as pradarias vizinhas.
Talvez no invejasse David e Tiggy por Queensmead estar destinada a eles, mas no havia dvida de que era o cenrio perfeito para uma reunio familiar.

No total, estariam presentes mais de duzentas e cinquenta pessoas e mais de cem estavam, de uma forma ou de outra, ligados a eles por laos familiares. Os restantes 
eram amigos, colegas, clientes ou, em alguns casos, as trs coisas. Jenny demorara mais de duas semanas a decidir qual o lugar que cada um ocuparia nas muitas mesas.
Por sorte, Guy Cooke, o seu scio, tinha sido bastante compreensivo e flexvel.
O seu trabalho continuava a ser um motivo de discrdia entre Jenny e o seu sogro. Ela ficou furiosa quando, em vez de falar com ela, Ben tenha ido falar com Jonathon, 
dizendo-Lhe que no considerava prprio para a famlia que a sua mulher gerisse um negcio na cidade.
28
Era verdade que, em termos econmicos, no precisava de ganhar dinheiro para sobreviver, mas o trabalho dera-Lhe algo primordial: auto estima. Precisava de ser algo 
mais do que a esposa de Jonathon, a horrorosa.
A horrorosa. Como aquelas palavras a tinham magoado. E continuariam a magoar?
No, j no. Na verdade, estava agradecida por ter ouvido aquela frase, j que a obrigaram a superar-se, a olhar para dentro de si, a encontrar algo a que se pudesse 
agarrar e que a fizesse ficar mais valorizada.
Olhou para o relgio. Jon estava no escritrio e Joss ia lanchar a casa de um amigo depois de sair do colgio. Katie e Louise tinham aula de tnis depois das aulas. 
Tinha algumas horas livres e j h alguns dias que sentia remorsos em relao ao seu negcio.
Ser scia de uma loja de antiguidades e restauro no era suficiente para ter a aprovao de Ben, mas ela adorava. O que mais a encantava era a parte de restauro, 
j que at mesmo Guy reconhecera o seu talento para aquela arte.
Ao sair para a rua principal, virou para a direita em vez de virar para a esquerda, ou seja, seguiu em direco a Haslewich em lugar de ir para a sua casa. Guy dissera-lhe 
que tinha comprado uma pea em prata e queria que ela desse uma vista de olhos.
Tiggy suspirou aliviada ao verificar que o ptio frontal de Dower House estava vazio. No entanto, David ainda no tinha voltado a casa. Estava a passar mais tempo 
em Chester do que estava planeado. Cheia de remorsos, abriu o porta-bagagens do carro
29
para tirar as brilhantes malas de plstico e fez uma careta ao pisar a relva, j que sujou com terra os seus sapatos de salto alto de cor plida e delicada.
Tinha preferido asfaltar o ptio, mas como Dower House era propriedade de Sir Richard Furness e o velho senhor se opunha veementemente a qualquer tipo de mudana, 
Tiggy sabia que tinha pouqussimas hipteses de conseguir fazer desaparecer a maldita relva.
Ao princpio, quando tinham acabado de casar e David anunciou que iriam viver em Dower House, Tiggy pensou que ele estava a brincar.
- Mas, porqu, se vamos voltar a Londres? - protestou.

David, sentindo-se incomodado e ofendido, disse-lhe que j no tinha condies para viver em Londres e que teriam de ficar em Chester, onde ele poderia trabalhar 
no escritrio da famlia. O ordenado generoso que passaria a receber seria suficiente para conseguir pagar o arrendamento de Dower House.
Naquele dia, Tiggy no tinha dado grande importncia ao assunto. Era uma recm-casada, jovem e bonita, e todas as pessoas se desfaziam em atenes para com ela. 
Passou algum tempo at que comeou a sentir-se asfixiada, aborrecida com a vida de mulher de um advogado local, at que esse aborrecimento se transformou em raiva.
Abriu rapidamente a porta principal e foi refugiar-se na sua casa de banho do segundo piso. Estre meceu e os dedos tremiam ligeiramente enquanto desapertava a saia 
de seda, que enfiou no cesto da roupa suja juntamente com as cuequinhas e o suti de seda que tambm trazia vestido.
30
A saia tinha de ser lavada a seco e fez uma expresso de desagrado ao ver a pequena mancha no tecido de cor creme. O creme era uma das suas cores favoritas; costumava 
us-lo muito. Favorecia-a, pois realava tanto o seu fsico frgil como o seu cabelo claro.
Entrou no duche. Preferia desfrutar de um banho de espuma, mas naquele dia no tinha tempo. David e ela iam sair para jantar e tinha de lavar o cabelo e pintar as 
unhas. Para alm do mais, tinha partido uma. No conseguia perceber como  que Jenny conseguia viver sem pintar as suas unhas.
Quando saiu do duche e agarrou numa toalha, Tiggy observou o seu reflexo nos espelhos de corpo inteiro que tinha na casa de banho. Era verdade que os seus seios 
continuavam to firmes como sempre, o ventre liso, a pele sedosa, mas at quando? J tinha quarenta e cinco anos e comeava a notar uma certa flacidez traioeira 
no rosto e algumas rugas  volta dos olhos. J fizera um pequeno e discreto lifiing na zona dos olhos ao chegar aos quarenta, mas o resultado no iria durar eternamente.
Tiggy temia ficar velha e deixar de ser bonita e desejvel. David costumava gozar com ela mas, claro, ele no a entendia. Como poderia entend-la? Embrulhada numa 
toalha, entrou no quarto. Sobre a cama estava o ltimo nmero da revista vogue. Agarrou-a e observou a modelo da capa.
Tinha sido uma idiota por ter abandonado a sua carreira, mas David parecera-lhe to interessante, to divertido, to sensual. to diferente dos homens barrigudos 
de meia-idade que a agncia lhe apresen tava. Homens que a olhavam com um olhar ardente
31
e malicioso e queriam toc-la com mos ainda mais ardentes e maliciosas.
Saber o quanto David a desejava, o muito que a amava, tinha-a iludido, mas a iluso no durou muito. Nunca mais.

Questionou a si mesma a que horas chegaria Olivia e como seria o seu namorado. Tinha esperana de que no fosse muito americano ou ento Ben no iria gostar dele. 
Dada a pouca diferena de idades entre elas, era estranho que no fossem mais unidas. As pessoas costumavam comentar que pareciam irms em vez de me e filha. Tiggy 
ficara espantadssima quando Olivia lhe disse que queria estudar Direito. Esperava que ela seguisse os seus passos e se tornasse modelo ou alguma coisa parecida 
mas, em muitos aspectos, Olivia era uma jovem diferente das outras. Tiggy sempre achara que Olivia passava de masiado tempo com Jenny.
Jack tambm chegaria a casa no dia seguinte. Tiggy sabia que Ben no aprovara a ideia de o terem enviado para um colgio interno. Jack, como o seu pai e todos os 
vares da familia Crighton, estudava em King's School, em Chester. Mas, ao contrrio dos outros, Jack ficava l a dormir durante a semana.
Jenny no se importou de levar primeiro Max ao colgio e depois Joss, e inclusivamente oferecera- se para trazer Jack e lev-lo a casa, mas Tiggy tinha as suas prprias 
razes para preferir no ter o seu filho por perto durante a semana.
Olhou para as unhas, impacientemente. No dia seguinte, tinha marcado hora na manicura no exclusivo salo de beleza do clube de campo prximo de Chester, do qual 
ela e David se tinham tornado scios logo
32
aps a inaugurao. David no costumava usufruir frequentemente das instalaes; preferia jogar golfe no mesmo clube do seu pai e irmo.
Bem, que podia vestir naquela noite? Os Bucketon pertenciam a uma antiga familia de Cheshire e tinham excelentes contactos; viviam nos arredores de Chester, numa 
enorme casa vitoriana com aborrecidas correntes de ar. Alm de ser cliente de David, Ann Bucketon era juza na cidade. Tiggy suspeitava que Ann no gostava muito 
dela, que teria preferido a companhia de Jenny, mas David era o scio mais importante do escritrio e, como tal, era ele quem tinha a obrigao de fazer o convite.
Jenny deixou o carro no enorme estacionamento municipal dos arredores da cidade. A cidade era bastante antiga; os romanos tinham extrado sal da zona, o mesmo que 
fizeram outros povos antes e depois deles.
A prpria cidade estava construda sobre sal e temia-se que esse facto pudesse produzir aluimentos em algumas zonas, por causa das inmeras minas abandonadas existentes 
um pouco por todo o lado.
Para Jenny, Haslewich era tudo o que uma pequena cidade inglesa devia ser: uma mistura harmoniosa e ordenada de edifcios construdos, em algumas ocasies, por cima 
de outros; estranhas construes georgianas e bonitas casas de pedra, que competiam naquele espao com outras j feitas com tijolo.
A loja de antiguidades localizava-se numa rua estreita que saa de uma praa, num bonito edifcio da
33
poca georgiana com fachada dupla. Quando entrou, Guy Cooke estava a organizar algumas delicadas esttuas Staffordshire. Levantou os olhos e, ao v-la, deixou o 
que estava a fazer para se aproximar e saud-la com um sorriso afectuoso.
Era pelo menos quinze anos mais novo do que Jonathon e era dono de um fsico completamente diferente. Enquanto Jon era alto e loiro, com pernas e braos largos, 
Guy era mais baixo, mais largo, tinha o cabelo negro e a pele morena.
Numa ocasio, contou a Jenny que, segundo se dizia, a sua familia tinha sangue cigano e bastava olhar para ele para que Jenny acreditasse nessa suspeita. H sete 
anos que eram scios, mas j eram amigos h muito mais tempo.

Guy sempre tivera gosto artstico", como ele prprio se descrevia, ironicamente. No entanto, os seus pais sempre fizeram o possvel para reprimir aquele gosto indesejado, 
que j tinha sido uma desgraa com outra filha, mas sendo com um filho homem era totalmente inaceitvel. Os Cooke como cl eram completamente machistas; os seus 
vares fortes de cabelo negro e aspecto viril conheciam a posio que ocupavam na sociedade e o que significava ser homem e, mais importante ainda, ser um Cooke.
Mas, no caso de Guy, no era bem assim. Ele queria algo diferente da vida; ele era diferente.
- Lamento no ter aparecido muitas vezes ultimamente - desculpou-se Jenny, movendo a cabea com um sinal negativo quando Guy lhe ofereceu uma chvena de ch.
- Como vo as coisas? - perguntou.
- Bem. acho - disse Jenny, rindo. - Tiggy e eu
34
estivemos esta manh em Queensmead, para acertarmos os ltimos detalhes.
- Queres dizer que tu estiveste a acertar os ltimos pormenores - corrigiu Guy.
Jenny arqueou as sobrancelhas. No era segredo para ningum que Guy no gostava da sua cunhada, apesar de ser um pouco estranho, j que Guy era facilmente impressionvel 
por tudo o que era belo, e Tiggy certamente que o era.
Tiggy tambm no gostava dele. Na verdade, algumas vezes fizeram comentrios pouco agradveis devido ao facto de ele ser solteiro.
Jenny ria s gargalhadas quando ouvia essas insinuaes. Havia alguns homens mais masculinos que Guy e, apesar da sua preferncia sexual no ter a mnima importncia, 
a nica razo pela qual no se casara foi por nunca ter tido vontade de ficar limitado a uma s mulher. Ao menos em relao  sua sexualidade era muito parecido 
com o cl Cooke e no Lhe faltavam mulheres  sua volta.
- Onde est a pea de prata que me querias mostrar? - perguntou.
- Ah,  verdade. Creio que  da poca da rainha Ana, mas tu  que s especialista em prata. Tenho-a no cofre.
J tinha passado mais de uma hora quando Jenny saiu da loja. Tal como Guy, estava convencida de que a pea era genuna apesar de, como tinha referido, a ausncia 
de marcas identificadoras pudesse significar que fora roubada em algum momento da Histria.
Depois de sair da loja, atravessou a praa. Restava-lhe tempo suficiente para visitar Ruth. A tia do seu marido vivia numa pequena e elegante casa georgiana,
35
prxima da igreja. Para l chegar, Jenny passou pelo cemitrio e parou diante das campas dos Crighton. Inclinou-se at uma pequena campa, com anjos sorridentes, 
com ar traquina. O epitfio dizia: Harry Crighton, 19 de Junho de 1965 - 20 de Junho de 1965".
O seu primeiro filho apenas vivera um dia, mas ela sempre chorara a sua morte e iria continuar a faz-lo. O tempo suavizara a dor, mas jamais conseguiria esquecer 
o seu beb nem queria faz-lo. Antes de ir embora, tocou na lpide, quase como se estivesse a acarici-la, e pronunciou o seu nome.
Ruth j estava  sua espera  porta, quando ela se aproximou.

- Vi-te no cemitrio - disse a Jenny. - Teria completado trinta e um anos se estivesse vivo.
- Eu sei - durante um instante, as duas mulheres ficaram caladas. Se ter Ben como sogro era muitas vezes um inconveniente, contar com Ruth na familia era, sem dvida, 
a maior e melhor compensao.
- Tens tempo para um ch? - perguntou Ruth.
- No - respondeu Jenny, com ar pesado. - Mas adorava tomar uma chvena.
- Ento, entra - convidou Ruth e, enquanto Jenny a seguia pelo bonito salo da parte frontal da casa, aproveitou para observar as flores que enfeitavam a lareira 
vazia.
Ruth tinha um dom especial no apenas para fazer arranjos de flores, mas tambm para cultiv-las.
- Pieter ir trazer as flores no prprio dia da festa - disse a Jenny, ao aperceber-se da direco do seu olhar. - Vai chegar no primeiro barco da manh. As flores 
sero frescas e ele j sabe aquilo que queremos.
36
Ruth comprava as flores a um comerciante dinamarqus cujo filho atravessava o Mar do Norte at Hull uma vez por semana para entregar as encomendas de flores aos 
seus clientes mas, para a festa daquele fim-de- semana, Pieter tinha concordado em fazer uma viagem excepcional para levar a Ruth as flores que ela pedira justamente 
para a ocasio.
- Ben est a deixar-te louca, no est? - perguntou a Jenny.
- S um bocadinho - admitiu Jenny. - Tem dores na bacia, apesar de no o admitir.
Meia hora depois, quando Jenny se foi embora, Ruth observou como ela voltava a atravessar o cemitrio e parava novamente em frente  campa do seu primeiro filho.
Sabia o que Jenny sentia. Havia feridas que no se curavam nunca, coisas que era impossvel esquecer e nem sempre era verdade que o tempo curava tudo.
37
DOIS
- Jon, tens um minuto?
Jonathon levantou os olhos da mesa quando o seu irmo gmeo entrou no seu escritrio, e franziu a testa ao ver que David esfregava o ombro.
- Aconteceu-te alguma coisa? - perguntou.
- No, di-me um pouco, nada mais. Fiz um estiramento no domingo a jogar golfe. Escuta, hoje vou sair mais cedo. Temos de jantar com os Buckletone. no h nada urgente 
aqui.
No, seguramente no havia nada urgente, alm dos dois testamentos que tinha de voltar a escrever, a transmisso de propriedade da quinta Hawkins e um sem-nmero 
de complicados e trabalhosos problemas que ultimamente acabavam sempre na mesa de Jon porque o seu irmo nunca tinha tempo para eles.
Nunca esteve previsto que os dois acabassem por trabalhar no escritrio da famlia. David sempre estivera destinado a alcanar um cargo muito mais elevado na sua 
profisso, como ser advogado de um tribunal superior e, muito antes dos dois terminarem a faculdade, o seu pai j comeara a falar do dia em que David seria conselheiro 
da rainha.
38

Tudo isso mudou, porm, no Vero em que David regressou a Haslewich com Tiggy para anunciar que os dois se tinham casado e que Tiggy estava  espera de um filho 
seu. Ningum comentou que David tinha defraudado as esperanas do seu pai ao no continuar na faculdade de Direito, da mesma forma que ningum falou das dvidas 
que David acumulou em Londres durante a sua estada na cidade nem do revelador odor que encheu o quarto onde David e Tiggy ficaram em Queensmead at encontrarem uma 
casa.
Imediatamente tudo foi preparado para que David se juntasse ao escritrio, apesar de no o fazer como advogado em exerccio, j que no o era. Jon pensava que j 
ningum se lembrava disto, depois de tanto tempo. Como filho preferido, logo em seguida se deu como certo que David seria o scio mais importante do escritrio e 
Jonathon, porque era Jonathon, nunca fizera nada para destronar o seu irmo. O mesmo aconteceu com David, porque era David, j que ele nunca fez nada para fazer 
justia ao trabalho de Jon.
Enquanto olhava para o seu irmo gmeo, naquele momento apercebeu-se dos sinais que o peso dos anos estava a deixar no seu aspecto fsico, a pele spera do seu rosto, 
que antes era bronzeada e lisa, a sua incapacidade de fixar o olhar, a flacidez de um corpo que costumava ser to musculado como aquele que Jon ainda ostentava. 
Mas todas aquelas fraquezas apenas serviam para que Jon gostasse ainda mais do seu irmo. Era um amor intenso e protector que, por vezes, at lhe doa. Jamais sonharia 
em dizer ao seu irmo gmeo ou a qualquer outra pessoa aquilo que sentia, e instintivamente sabia que David no Lhe correspondia com uma emoo igualmente intensa 
e profunda.
39
- Parece que o bom tempo vai manter-se at ao fim-de-semana - comentou David, enquanto se dirigia para a porta. - As raparigas vo ficar contentes. Ah,  verdade, 
Max ligou-me outro dia. Disse-me que amanh vir de carro desde Londres.
- Sim - concordou Jon. Max era seu filho, mas era a David quem tratava como pai. Segundo as suspeitas de Jon, David tambm gostaria de o ter como filho. Max herdara 
a mesma personalidade extrovertida e quase escandalosa de David, as suas necessidades, a mesma vontade de possuir e alcanar a fama, os mesmos dotes. e as mesmas 
fraquezas. Jon comeou a franzir a testa.
- Livvy vai chegar esta noite - continuou David e, nesse momento, tambm ele estava a franzir a testa. Vem com um americano. No sei se. Bem,  melhor ir-me embora 
- apressou-se a dizer a Jon quando o telefone comeou a tocar. - Prometi a Tiggy que no chegaria tarde e ela j est um pouco nervosa por causa de uns sapatos que 
comprou para sbado e que ainda no chegaram. J sabes que isso  o suficiente para ela ficar alterada.
Desde a janela do seu escritrio, Jon podia ver a pequena praa da cidade, com o seu jardim bem tratado. Podia ver Jenny, a sua mulher, a atravessar a praa de regresso 
ao seu carro. Parou para falar com David. Era evidente que David tambm a tinha visto, porque apressou o passo para alcan-la. Jon viu como ela sorriu ao saudar 
o seu irmo, enquanto o sol da tarde fazia reflectir o seu cabelo. H muitos anos atrs, tantos que quase todos j se
40
tinham esquecido, Jenny tinha sido namorada de David.

O telefone estava a tocar outra vez. Jon desviou o olhar da janela e esticou o brao para o atender.
- O que h para o jantar?
Jenny sorriu para o seu filho mais novo. Aos quarenta anos, pensava que j estava demasiado velha e precavida para ter outro filho, mas a natureza encarregou-se 
de demonstrar-lhe o contrrio.
Jon ficara estupefacto ao ouvir a notcia e ela sentiu-se desconfortvel e nervosa ao contar-lhe.
- Ests grvida? Como  que  possvel?
- Foi no nosso aniversrio de casamento - recordou Jenny. - amos sair para jantar mas acabaste por ficar mais tempo no tribunal e jantmos em casa. Abrimos uma 
das garrafas que o tio Hugh te ofereceu.
- Ah, sim - recordou-se Jon. - Esse vinho era fantstico.
- Era um vinho j antigo - interrompeu Jenny, de forma severa. - E no devamos ter aberto mais do que uma garrafa. Foi culpa minha. No me passou pela cabea tomar 
precaues.
O que no disse  que o sexo entre eles se tinha transformado em algo to raro que o seu diafragma estava guardado e esquecido no fundo da gaveta da sua cmoda. 
Tinham um casamento confortvel e estvel e, ao contrrio de David e Tiggy, no costumavam dar sinis de carinho em pblico e, provavelmente devido ao rumo das suas 
vidas, deixaram tambm de demonstrar afecto em privado.
41
No entanto, enquanto Jenny olhava para o resultado das garrafas de vinho e do seu descuido, reconheceu que no se arrependia absolutamente nada daquele deslize.
- Cordeiro com batatas - disse a Joss, a quem tinham dado o nome do seu bisav paterno. - Mas lembra-te - acrescentou em sinal de aviso. - Os trabalhos de casa primeiro.
- Quando  que Livvy volta? - perguntou, sem se preocupar com o aviso da sua me. - Prometeu voltar para casa.
- Hoje ao final da tarde - respondeu Jenny. - Mas lembra-te, Joss, ela vem com um amigo e no ter tempo para passear pelo campo contigo.
- Os filhotes dos texugos aparecem ao anoitecer. Ela deve querer v-los.
Jenny sorriu para si mesma ao ouvir a convico na voz do seu pequeno filho. Certamente ser um quebra coraes quando se tornar mais velho. Por artes mgicas, herdou 
o melhor dos genes do seu pai e do seu tio". A confiana e a extroverso de David estavam suavizadas e sustentadas pela personalidade precavida de Jon, e o pequeno 
tambm exibia um ptimo humor e espontaneidade. alm de um imenso amor pela vida e por todos os que o rodeavam.
- Max volta amanh - recordou. - Como sei que ainda no tiraste as tuas coisas do quarto dele, sugiro que o faas hoje  noite e, j que tocmos no assunto, quero 
dizer-te que o quarto do teu irmo no  o lugar mais indicado para desmontares a bicicleta - advertiu-o severamente.
Joss lanou-lhe um olhar inocente.
- No podia faz-lo noutro stio - respondeu de
42
forma encantadora. - No h espao livre na garagem...

E a verdade  que nada lhe dava mais prazer do que pr  prova a pacincia de Max, mas Max no era como Olivia, tolerante para com o seu primo mais novo e sempre 
disposta a passar um bocado a brincar com ele.
Max mostrou-se horrorizado quando Jenny Lhe disse que estava grvida e tinha transferido esse desagrado e essa repugnncia pela gravidez para o seu irmo mais novo.
- Era muito melhor se Max ficasse na casa do tio David e Olivia dormisse aqui - refilou Joss.
Jenny lanou-lhe outro olhar de aviso e falou novamente com um tom de voz severo:
- Os trabalhos de casa - mas sabia que havia uma certa verdade nas suas palavras.
Max preferia a companhia dos seus tios, enquanto que Olivia. Livvy era um anjo e Jenny gostava tanto dela que esperava que o jovem americano, quem quer que fosse, 
tivesse noo da sorte que tinha.
Max fez uma careta quando a porta do escritrio se fechou atrs das costas de um dos empregados. Eram seis da tarde de sexta-feira e ainda tinha  sua frente algumas 
horas de trabalho. Contemplou com contrariedade os papis que Bob Ford acabara de pousar sobre a sua mesa. 
No era nenhum segredo que ele no era um dos favoritos do tal empregado, um facto que remontava aos seus primeiros dias de formao no escritrio,
43
quando Bob o ouviu a imitar a forma como ele gagueja quando est sujeito a muita presso.
Max encolheu os ombros.
Tinha herdado a estatura e a constituio forte do pai e do tio e o rugby praticado primeiro em King's School e depois em Oxford tinham desenvolvido o fsico poderoso 
que tanto o orgulhava.
Gostava de ver como as mulheres voltavam a cabea, s vezes de forma discreta, outras nem tanto, para admir-lo. Tambm gostava de ver a inveja nos olhos dos outros 
homens quando ficava nu nos balnerios, depois de uma partida de squash ou de rugby. O seu aspecto conferia-lhe vantagem sobre os outros e, como Max bem sabia, as 
vantagens eram necessrias para ganhar o jogo da vida. E Max pretendia ser um vencedor. No queria, como o seu pai, conformar-se com um segundo lugar. No, Max apenas 
tinha de observar o seu tio David para saber o que deveria fazer.
No se recordava quando se tinha apercebido pela primeira vez da forma diferente como as pessoas tratavam o seu pai e o seu tio, mas lembrava-se de ter pensado que 
queria ser recebido e tratado como o seu tio.
O desejo de ter tido David como pai chegou mais tarde. Ficou feliz quando David comeou a trat-lo mais como um filho do que como um sobrinho e aproveitou, relegando 
Olivia para um segundo lugar no que diz respeito ao amor da sua me. Foram David e o seu av quem o animaram e incentivaram quando decidiu querer formar-se como 
advogado de tribunais superiores.
- Ters de acabar a tua licenciatura com uma boa mdia - advertiu o seu pai. - E nem mesmo assim ters uma vida fcil.
44
- No o desanimes - interrompeu o seu av. - J  altura de termos um conselheiro da rainha na nossa parte da familia.

- Bem, sem dvida,  com isso que sonho - garantiu Max, com a inteno de tirar partido do bom humor do seu av. - Mas no vai ser assim to simples. Quando estiver 
em Oxford, no poderei trabalhar, nem sequer em tempo parcial, se quiser tirar boas notas, e a minha bolsa de estudos. Alm disso, terei de trocar o meu velho carro 
por outro.
Como imaginara, o seu av no o decepcionou.
- Bem, tenho a certeza de que poderemos resolver isso. Tens direito a algum dinheiro que a tua av te deixou e quanto ao carro. No vais atingir a maioridade daqui 
a pouco tempo?
Mais tarde, ouviu os seus pais comentarem o sucedido.
- Est a acontecer o mesmo que aconteceu ao David - ouviu a sua me dizer, furiosa. - E Max manipula-o.
- Eu sei, mas o que  que podemos fazer? - disse o seu pai em voz baixa. - J sabes como  o meu pai.
O problema da sua me  que ela era demasiado moralista, concluiu Max mas, claro, tinha de haver mais qualquer coisa. Afinal, no era to atraente como a mulher 
de David, Tiggy, o gnero de mulher que fazia com que todos os homens parassem no meio da estrada para admir-la, o gnero de mulher pela qual um homem invejava 
outro. Na verdade, ainda se lembrava do ano em que David e Tiggy assistiram a um evento desportivo no seu colgio, no lugar dos seus pais.
O velho Harris, o treinador de desporto, ficou
45
corado como um tomate e comportou-se como um imbecil quando Max lhe apresentou Tiggy. Max divertiu-se, imaginando Harris a masturbar-se na intimidade do seu apartamento 
alugado enquanto relembrava o encontro. Era um tipo pattico. Max apostava qualquer coisa em como ele nunca tinha estado com uma mulher. Ao contrrio de Max, que 
perdera a vir gindade aos catorze anos com a ajuda providencial, muito providencial, de uma jovem que trabalhava atrs de um balco num bar onde se reuniam todos 
os jogadores da equipa depois dos jogos de sbado de manh.
Escondido numa ruela de Chester, o local tinha um aspecto abandonado e era isso que o atraa e afastava simultaneamente. Para comear, era o gnero de local que 
o seu respeitvel pai jamais frequentaria, e em relao  sua me. Mas Max gostava de estar ali. Tambm desfrutou do cheiro a suor e a terra da jovem, que o levou 
at ao seu quarto e deixou que a beijasse e tocasse durante vrios minutos antes de empurr-lo e ordenar-lhe que esperasse enquanto ela se despia.
Foi a primeira vez que viu uma mulher nua ao vivo e ela no mostrou qualquer tipo de inibio, inclusivamente riu-se ao inclinar-se sobre a almofada e abrir as pernas 
para convid-lo a ver o que havia entre elas.
- Aposto que  a primeira vez que observas, no ? - perguntou, sorrindo, ao mesmo tempo que tocava nos plos negros e speros e afastava os lbios grossos e carnudos 
que estavam por baixo. - Sabes o que  isto? - perguntou, enquanto Lhe ordenava que a observasse e descobrisse o pequeno buraco.
46
-  claro que sei - respondeu Max, com ar sabedor.
- Fantstico - anunciou a jovem. - Ento sabes o que tens de fazer, certo?
Max sem qualquer dvida sabia o que tinha de fazer, mas ela rapidamente o desiludiu.

- Meu Deus, s um bocado bruto - queixou-se. No  como os cavalos. Alm disso - acrescentou, com malcia. - Funciona muito melhor se o chupares
- desatou a rir, ao ver a sua expresso. - Nunca tinhas estado com uma rapariga, no ? Pois chegou a tua oportunidade.
No deixou que ele a penetrasse at ter tido o seu primeiro orgasmo e para isso. Ela riu-se novamente quando Max no foi capaz de reprimir-se nem de controlar a 
excitao quando um enorme jacto de smen saiu disparado da sua ereco. Mas. no se riu depois quando ele a penetrou e continuou a penetr-la, cada vez com mais 
fora, e ela comeou a gemer e a cravar as unhas nas suas costas. Gemeu como as gatas durante o orgasmo, enquanto ele continuava a penetr-la, e Max recusou- se 
a parar enquanto ela no teve outro e logo outro de seguida. Nunca mais a tinha voltado a ver desde esse dia. No tinha feito falta.
Recordava o desagrado e a surpresa com que recebeu a notcia de que a sua me estava grvida, por saber que os seus pais faziam amor.
Tambm se recordava de como ficara furioso um dia em que os seus pais assistiram a uma festa da escola e todos viram a sua me com uma grande barriga de grvida. 
No tinha direito, naquela idade. Era uma aberrao.
47
Max apertou os lbios ao pensar nos seus pais; s vezes, quando a sua me o observava, via nos seus olhos.
A sua me estava louca se pensava que ele ia acabar como o seu pai, um escravo que trabalhava num escritrio com pouca visibilidade numa pequena cidade perdida no 
mapa. Se no fosse pelo seu tio David e pelo seu carisma, o negcio j teria fechado h muitos anos. S porque o seu tio tinha cometido um erro tolo...
Max no pensava cometer o mesmo erro. Sim, pretendia desfrutar da vida, mas tambm planeava no cair na mesma armadilha do seu tio.
Max garantira a sada de Oxford com uma boa nota para ingressar num bom escritrio de advogados e passar nos exames de entrada na Ordem dos Advogados. Em seguida, 
no apenas teria chamado a ateno daqueles que podiam ajud-lo no seu futuro profissional, como tambm teria procurado que a sua vida no fosse apenas ligada ao 
trabalho. Porm, ao contrrio do seu tio, ele era discreto e precavido.
- Ainda por aqui, rapaz? Pensava que querias sair cedo.
Max ficou tenso quando Roderick Hamilton entrou no seu escritrio. Roderick era apenas um ano mais velho do que ele. Tinham estado ao mesmo tempo em Oxford mas no 
se movimentaram pelos mesmos crculos. Os pais de Roderick eram imensamente ricos e frequentavam a alta sociedade. O seu tio era o director do escritrio, razo 
pela qual Roderick fora eleito para substituir um dos scios depois da sua formao como estagirio, enquanto Max tivera de sofrer e ficar como mero aspirante a 
advogado. Tal significava que o nico trabalho remunerado que Max podia fazer era aquele que os scios do escritrio Lhe cediam, incluindo Roderick.
Max nunca sentira a necessidade de travar amizade com nenhum homem. Na sua opinio, os colegas eram rivais, obstculos a derrubar mas, no caso de Roderick, Max sentia 
uma imensa averso contra ele.

- Pois. O caso Wilson. Que pouca sorte - lamentou Roderick, enquanto pegava nas folhas que estavam em cima da mesa de Max, dava-Lhes uma vista de olhos e voltava 
a pous-las. -  uma pena que no estejas livre este fim-de-semana - acrescentou. - A minha me organizou uma festa para a minha irm. Vai ser a sua apresentao 
 sociedade e a minha me pediu-me para reunir alguns homens.
Max no tirou os olhos dos papis que fingia estar a estudar naquele momento. Sabia perfeitamente que Roderick tentava divertir-se s suas custas.  sua me jamais 
lhe passaria pela cabea receber algum convidado adicional e indesejado no prestigiado baile que estava a organizar para apresentar a sua filha  sociedade.
- Temo que isso seja impossvel - respondeu, sem olhar para Roderick. - Este fim-de-semana  o aniversrio do meu pai.
- Ah, j sabes do caso do velho Benson, suponho
- comentou Roderick, mostrando aquele que era, sem dvida, o motivo da sua visita.
Apesar de no olhar para ele directamente, Max notou como o seu corpo lutava para reprimir a raiva que sentia.
- Sim, j ouvi falar.
49
- Quando me for embora, vai ficar um lugar vago no escritrio - disse Roderick, desnecessariamente.
- Sim - respondeu Max com indiferena, mas consciente de que tinha de dizer alguma coisa.
- Vais candidatar-te?
Max notou que ele comeava a perder o controlo.
- Ainda no me decidi - mentiu.
- Bem, eu, no teu lugar, candidatar-me-ia, velho amigo - comentou Roderick. - At porque hoje em dia no  assim to fcil ser scio de um escritrio e
j percebi que este lugar te suscita bastante interesse. Alm disso, formaste-te aqui e j ests no escritrio
como estagirio. deixa- me pensar, j passou mais de um ano, no j? Meu Deus, como o tempo passa
depressa! Bom,  melhor ir-me embora. Prometi  minha me que hoje voltaria cedo. Boa sorte com o caso Wilson - disse com um tom de voz calmo, enquanto saa para 
o corredor.
Max esperou ter a certeza de que Roderick j se tinha ido embora para fazer uma bola de papel com a folha que estava a ler e atir-la para a outra extremidade da 
sala, com a fora desenvolvida nos seus treinos de rugby. Maldito seja Roderick e maldito seja tambm o seu tio!
J tinham passado oito meses desde que Max ouviu pela primeira vez o rumor de que Clive Benson ia aceder  magistratura. Fez uma visita a Chester para manter uma 
boa relao com a parte da famlia que vivia l, afinal, naquele ramo, fazia falta toda a ajuda que pudesse reunir. E, desde esse dia, estava a fazer todos os possveis 
para conseguir a vaga quando ele sasse.
Na quarta-feira anterior, logo pela manh, quando
50

o secretrio lhe disse que o scio mais velho queria v-lo, Max esperara ouvir o anncio oficial de que a vaga seria sua. Pelo contrrio, depois de muita conversa, 
ouviu que, alm de muitas outras deliberaes, os scios decidiram acatar as normas contra a discriminao sexual e considerar a possibilidade de aceitar uma advogada. 
No significava que fossem faz-lo, garantiram a Max. Iriam avaliar todos os candidatos pelos seus prprios mritos, claro.
- Claro - respondeu Max, com os dentes apertados, mas sabia o que lhe estavam a dizer e, sem dvida alguma, Roderick tambm o sabia. Por acaso no era um dos scios?
Era demasiado tarde para lamentar o facto de ter dito ao seu av que o lugar j era seu. O velho senhor mal conseguia esperar pelo dia em que o neto deixaria de 
ser um mero estagirio. No seu tempo aquela situao era inconcebvel, pois aprendia-se a trabaLhar num escritrio, faziam-se os exames para entrar na Ordem e depois 
passava a ser-se membro com plenos direitos. Mas as coisas mudaram; no era nada fcil tornar-se scio de um escritrio de advogados.
E quem seria aquela mulher? No tinham mencionado nenhum nome e Max tinha feito uma lista na sua cabea de todas as advogadas que conhecia e que podiam ocupar o 
lugar. Que se lixassem as leis contra a discriminao sexual. Que se passava com ele? Estavam era a discrimin-lo!
Na quarta-feira  noite saiu do escritrio com um pssimo humor, para ir buscar a rapariga com quem andava a sair naquela altura, uma ruiva apaixonada, com longas 
pernas, que no ficou zangada quando
51
Max acabou com o jantar e decidiu lev-la para casa. Porm, e sem deixar-Lhe qualquer tempo para reclamar, acordou-a cinco vezes durante a noite, para descarregar 
a sua fria e amargura acumuladas, penetrando-a sem se preocupar em excit-la antes. Utilizou-a fria mente e sem piedade e negou-se a deix-la ir- se embora sem 
que antes o seu corpo ficasse num estado de esgotamento fsico total.
Ela disse-lhe frontalmente que nunca mais o queria ver, mas Max no se importava com isso. Tinha coisas mais importantes com que se preocupar. Apesar de toda a energia 
sexual que gastara, ainda estava dominado pela raiva e pela amargura. Eles tinham obrigao de lhe dar aquele lugar.
Queria-o, ansiava-o, morria por t-lo e nenhuma mulher nem nenhuma lei contra a discriminao sexual iam colocar-se no seu caminho. S lhe restava uma forma de enfrentar 
a situao e Max sabia exactamente qual era, mas primeiro tinha de descobrir a identidade da promissora candidata  vaga.
No entanto, Max estava j a pensar na melhor forma de proceder em relao quele assunto, en quanto entrava no seu carro e seguia em direco ao norte.
- J chegmos a casa.
- Estou impressionado - murmurou Caspar, en quanto Olivia travava e se voltava para observ-lo.
- Tiggy est ali - revelou, ao ver que a porta principal se abria e a sua me avanava at eles.
Caspar permaneceu em silncio quando se voltou para olhar pela primeira vez para a me de Olivia.
52
Que Olivia tratasse a sua me pelo nome prprio no o chocava, j que era bastante frequente no meio onde tinha sido criado, mas o tom comedido que ela usava sempre 
que falava da me f-lo observar a senhora com ateno.

Em relao ao aspecto fsico, eram muito parecidas. Olivia herdara a beleza da me, incluindo as feies e as mas do rosto salientes. Porm, ao contrrio de Tiggy, 
a beleza de Olivia nascia de dentro, de tal forma que quase parecia desnecessrio que ela tivesse um exterior atraente. Comparada com a sua fiLha, Tiggy era uma 
mulher bonita mas vazia.
A primeira coisa que Caspar sentiu ao observ-la foi decepo. Porqu?, perguntou-se enquanto saa do carro e esperava que Olivia os apresentasse. Que esperara ver 
nela? Talvez, apesar do tom de indiferena que notava na voz de Olivia, tivesse acreditado que a sua me fosse mais parecida com ela, como pessoa.
- Livvy, minha querida. Finalmente. Meu Deus, olha para as tuas unhas. E o cabelo. E essas calas de ganga. Querida.
- Tiggy, este  Caspar - interrompeu Olivia, calmamente. - Caspar, esta  a minha me.
- Tiggy, trate-me por Tiggy - pediu Tiggy em voz baixa, com um tom sussurrante que, h uns anos atrs, os seus admiradores teriam classificado de incrivelmente sensual. 
- Entrem, entrem. Lamento, mas eu e o teu pai estamos quase a sair de casa - disse a Olivia enquanto os seguia para dentro de casa. - Vamos jantar a casa dos Buckleton.
A porta de entrada j estava aberta, o cho de madeira encontrava-se encerado e brilhante e, mal entrou, a primeira impresso de Caspar foi que aquela
53
se tratava de uma casa cheia de flores e cores suaves. Havia enormes jarres com arranjos de flores por toda a parte: na lareira, em cima de uma mesa redonda no 
centro da sala e sobre umas pequenas mesas situadas debaixo de uns deslumbrantes espelhos georgianos com molduras de prata que ocupavam as paredes da sala.
- Para mim as flores so muito importantes - ouviu Tiggy dizer, quando se apercebeu que ele con templava a decorao. - Animam uma casa, transformam-na num lar - 
acrescentou, com voz baixa. - Ah, no, Jack - disse repentinamente. - No entres aqui com esse animal. Usa a porta das traseiras. J conheces as normas.
Caspar arqueou uma sobrancelha quando viu uma criana e um golden retriever um pouco gordo entrarem pela porta.
- Bom, se vais sair,  melhor no te atrasarmos disse Olivia. - Suponho que iremos dormir no meu quarto.
- Ah, querida. Meu Deus, lamento, mas h uma coisa que o teu pai queria falar contigo. No  que nos importemos, claro. mas conheces o teu av.  muito antiquado 
e d muita importncia quilo que os outros possam comentar. O teu pai no gostaria que tu e Caspar. Bom, sobretudo porque os familiares de Chester viro  fsta, 
por isso.
- Ests a tentar dizer- me que esperas que Caspar e eu fiquemos em quartos separados? - interrompeu Olivia, incrdula. - Mas isso . - comeou a mover a cabea, 
com os olhos escurecidos pela revolta e a voz com um tom furioso, enquanto ralhava com a sua me. - No penso...
54
Caspar tocou-lhe no brao suavemente.
- No h problema, eu percebo. Dormiremos em quartos separados - disse a Tiggy, rapidamente.

Olivia abanou a cabea e olhou-o com pesar. A intensidade do amor que sentia por ele algumas vezes assustava-a. O amor era uma palavra que se pronunciava livremente 
e sem restries na sua casa mas, como sentimento, no tinha a certeza se conseguia compreend-lo totalmente. porque a fazia sentir-se vulnervel e cautelosa.
Praticamente, desmaiou de desejo quando viu Caspar pela primeira vez. E quem teria tido uma reaco diferente? Com um metro e oitenta e cinco de altura, ombros largos 
e um fsico a condizer, herdara de alguma parte da famlia a estrutura ssea de um chefe ndio, juntamente com a fisionomia celta, que resultava numa imagem com 
impacto total: cabelo negro e olhos azuis-escuros.
Ao entrar na sua turma, Olivia no conseguiu tirar os olhos de cima dele. e, ao que parecia, ele tambm no conseguia tirar os olhos dela. Ficou surpreendida quando 
Caspar a convidou para sair, mas no perdeu o bom senso e insistiu para que o encontro acontecesse num lugar pblico e movimentado e levou o seu carro, de forma 
a poder regressar sozinha para casa. Assim no poderia ceder  tentao, caso Caspar a aliciasse, de fazer amor com ele logo no primeiro encontro.
Olivia no cedeu  tentao nem ele a aliciou mas, como ambos confessaram algum tempo depois, os dois desejaram ardentemente que tal acontecesse logo naquela noite.
Sim, tinha-o desejado e continuava a desej-lo
55
mas, sobretudo, amava-o, mental, sentimental e fisicamente. Era o seu amante, o seu mentor, o seu melhor amigo. o seu tudo, e no conseguia compreender como  que 
a vida lhe poderia ter parecido completa sem ele, como no se tinha dado conta do enorme vazio que existia dentro dela at ele chegar para preench-lo.
Caspar era o seu mundo. Fazia com que se sentisse completa e, mesmo assim, tinha dificuldade em exprimir-lhe o quanto significava para ela. Custava-Lhe muito mais 
do que contar-lhe o efeito que produzia nela em termos fsicos, mas Olivia reprimia as emoes, tanto a senti-las como a exibi-las. A sua me era muito sentimental, 
todas as pessoas o diziam; era por isso que tambm diziam que a sua me precisava tanto de receber atenes especiais de todos.
Quando ainda era uma criana, Olivia compreendeu que essas atenes especiais que a sua me tanto precisava existiam em detrimento dos sentimentos dos outros, como 
se as outras pessoas tivessem de ser menos sentimentais para compensarem os excessos de Tigy.
- s incrvel - disse-Lhe Caspar, depois de ela lhe ter oferecido com indiferena um livro que lhe tinha custado imenso a encontrar. - s capaz de fazer isto por 
mim, mas eu preferia ouvir-te dizer o que sentes por mim.
- J sabes o que sinto por ti - respondeu Olivia, cautelosamente.
- Sim - reconheceu Caspar. - Mas adoraria ouvir-te dizer.
- Eu sei - admitiu Olivia, mas foi incapaz de 
56
pronunciar aquelas palavras to simples. e continuava sem conseguir diz-las, nem mesmo nos momentos quentes da paixo.
- No posso acreditar - disse-lhe Olivia, quinze minutos depois, quando os seus pais j tinham sado e Jack decidira ir a casa de um amigo. Tinha subido desde o 
seu quarto de sempre at ao pequeno quarto de hspedes, onde Caspar estava a desfazer a mala. Pelo menos, podiam ter-te dado o quarto ao lado do meu.

-  apenas por alguns dias - recordou Caspar. No me importo - brincou. - Para dizer a verdade, assim poderei descansar. Fazes ideia de como te mexes enquanto dormes? 
- perguntou-lhe, fingindo estar ofendido. - H meses que no durmo -vontade.
- Dois meses, seis dias e. oito horas - disse Olivia carinhosamente, contando as horas pelos dedos enquanto Caspar lhe sorria. -  absurdo os meus pais quererem 
que fiquemos em quartos separados - continuou, enquanto se sentava na ponta da pequena cama de solteiro.
Ao ver a cama, Caspar conclura de imediato que era demasiado pequena para ele e, apesar do que dissera a Olivia, sabia que no conseguiria dormir sem ela e no 
estava a pensar apenas em sexo. De facto, o sexo era o menos importante.
Tinha trinta e dois anos e j aproveitara muitas noites de sexo, mas a diferena  que nunca estivera apaixonado, nunca acreditara que o amor, o tipo de amor que 
sentia por Olivia, pudesse existir. Depois de ver como os seus pais passavam de uma relao
57
para outra sem parar, conseguiu evitar cair na armadilha de se casar muito jovem, pois seria um casamento condenado ao fracasso. Por fim, acabou por decidir que 
se casaria depois dos trinta e que, com alguma sorte, o seu casamento duraria o suficiente at criar os seus filhos, pelo menos at serem adolescentes. Isso era 
o mximo que um adulto maduro e sensato poderia esperar.
-  a hipocrisia que faz com que eu me zangue - protestou Olivia, enquanto mordiscava o lbio inferior. - Acontece sempre a mesma coisa. Temos sempre de respeitar 
os desejos do av.
- Moralmente. - comeou a dizer Caspar, mas Olivia interrompeu-o.
- No h moralidade que resista. A nica coisa que o av quer  controlar os outros. No est minimamente preocupado com o meu bem-estar moral nem com qualquer outro 
aspecto da minha felicidade
- afirmou friamente. - Nunca esteve. Claro que se eu fosse um rapaz, se fosse o seu neto. - deixou a frase suspensa e moveu a cabea com um sorriso triste. - Olha 
para mim. Nem sequer estou c h um dia e j estou chateada com as recordaes.
- Tu mesma disseste que no quiseste juntar-te ao negcio da familia - recordou-lhe.
- Sim, eu sei - reconheceu Olivia. - Mas deveriam ter-me dado essa oportunidade. O meu pai e o av fizeram todos os possveis para me dissuadirem de estudar Direito. 
S a tia Jenny me apoiou. Ah, e a tia Ruth. Vais ver como vais gostar delas. E tambm o tio Jon.
- O irmo gmeo do teu pai?
- Sim. apesar de no serem nada parecidos.
58
Bom, so parecidos em relao ao aspecto fsico, porque so gmeos verdadeiros, mas o tio Jon. parou a meio da frase.
- O tio Jon. ? - pressionou Caspar.

- No consigo explicar-te. Vais ver quando o conheceres.  como se sempre tivesse ficado em segundo lugar, deixando que o meu pai lhe faa constantemente sombra 
e uma vez. - voltou a parar e olhou em frente. -  como se abdicasse dos seus mritos deliberadamente e os desse ao meu pai. Todas as pessoas, mas sobretudo o av, 
concentram-se no pai e em Tiggy, porque  sua mulher, mas a mim os dois parecem-me irreais, como se fossem recortes de papel sem nenhuma substncia... - estremeceu. 
Quando era pequena ficava muito assustada sempre que percebia que eles no eram nada parecidos comigo.
Voltou a fazer uma careta.
- E, para cmulo, o av nunca me perdoou o facto de, por minha culpa, o meu pai ter sido obrigado a deixar Londres e o seu brilhante futuro como advogado dos tribunais 
superiores. Sempre quiseram que existisse um conselheiro da rainha na familia.
- Mas pensava que j existia um, o teu tio-av Hugh.
- Sim, Hugh era conselheiro da rainha - reconheceu Olivia. - Nomearam-no juiz no ano passado, mas Hugh no  famlia de verdade, pelo menos da forma como o av a 
define. O Hugh no  mais do que seu meio- irmo. O seu pai, Josiah, casou-se pela segunda vez depois da morte da bisav Bethany e Hugh  filho da sua segunda mulher, 
Ellen. Embora o av nunca o tenha reconhecido, acredito que no fundo ele
59
tenha cimes de Hugh. A famlia de Ellen era rica e o pai do av era, segundo a tia Ruth, um pouco mais tolerante com Hugh do que com eles os dois. Foi a familia 
de Ellen quem pagou a formao de Hugh como advogado de tribunais superiores. O av, claro, tinha de manter o negcio da familia. no podia fazer mais nada. Mas 
acredito que ainda hoje se sente decepcionado por o meu pai no ter entrado na Ordem dos Advogados e por isso decidiu que Max tem de fazer tudo o que o meu pai no 
fez.
- Ah, Max.
- No gostas muito dele, no  verdade? - perguntou Olivia.
- E tu? - replicou Caspar, ironicamente.
- Nunca nos demos bem, nem sequer quando ramos pequenos. J sei que todos pensam que tenho in veja porque Max  o preferido do meu pai, mas no  isso.  apenas 
porque ele no  uma pessoa agradvel. Mas mais ningum concorda comigo. Tiggy acha que ele  maravilhoso. Anda sempre a namoriscar com ele e  incapaz de ver que, 
no fundo, ele est a gozar com ela. De certeza que tambm vai tentar namoriscar contigo. Ela no procura nada, no fundo,  s uma maneira de. No pode evit-lo, 
precisa de.
Olivia fez uma pausa para tentar encontrar as palavras que pudessem explicar a vulnerabilidade da sua me, mas desistiu e disse em voz baixa:
- s vezes, quando vejo a tia Jenny a olhar para Max, tenho a impresso que nem ela gosta muito dele, mas  claro que isto no pode ser verdade.  sua me e as mes 
sempre adoram os seus filhos.
- Ah, sim? - perguntou Caspar, com uma ponta de ironia. - Eu no estaria to certo. O que  verdade 
60
que nem sempre os filhos gostam dos seus pais. H muitos estudos sobre filhos que matam pais.
- Sim,  verdade. Estava a ler um caso. Depressa os dois ficaram absorvidos pelos detalhes do caso legal ao qual Olivia se estava a referir.

Quando falava apaixonadamente ficava realmente bela. apesar de no to bela como quando estava nos seus braos e abria os olhos, quando lhe abria o corpo e a alma.
- Caspar - protestou ao aperceber-se que ele no lhe estava a prestar ateno. - O que ests a fazer?
- Estou a experimentar o colcho - explicou.
- Porqu? - perguntou com curiosidade.
- O que te parece? - respondeu suavemente, enquanto se voltava para beij-la. - Quanto tempo  que os teus pais ainda vo demorar a chegar?
- A minha cama  maior - sussurrou Olivia, entre dois beijos.
- Hum. - murmurou Caspar distraidamente, enquanto acariciava com os lbios a suave pele do seu pescoo. - Podes mostrar-me a tua cama depois. Agora, agora.
Suspiro de prazer enquanto desabotoava a camisa de Olivia e deixava a descoberto as curvas firmes dos seus seios. Brincou com a lngua primeiro com um e depois 
com o outro mamilo erecto, e notou que ela estremecia.
Ainda conseguia lembrar-se da primeira vez que tinham feito amor, dos intensos tremores de prazer que Olivia no conseguira esconder. S de pensar nisso, a sua excitao 
cresceu.
- Ainda no jantmos - recordou Olivia, entre gemidos e pequenos estremecimentos de prazer.
61
- Hum. Tu vais ser o meu jantar. Vou devorar- te
- afirmou Caspar, carinhosamente.
Olivia fechou os olhos; adorava a forma como Caspar expressava o que sentia quando faziam amor. No era potico, como um admirador de Olivia na faculdade, nem vulgar, 
como preferiam alguns homens e mulheres. A sua maneira de expressar-se era exclusiva dele e era incrivelmente ertica e bonita. Muitas vezes, enquanto Olivia se 
ria, a excitao assaltava-a sem avisar. E Caspar percebia sempre isso. Percebia o momento exacto, o segundo preciso em que o riso se transformava em desejo e a 
necessidade de o ter superava tudo o resto. Tal como estava a acontecer naquele momento.
- Caspar - sussurrou, enquanto segurava no seu cabelo e sentia o calor dele no seu pescoo.
- O qu. - murmurou, feliz, consciente do que significava o facto de ela estar a segurar no seu cabelo com tanta fora.
- Disseste que Olivia chegava esta noite - protestou Joss, aps a terceira tentativa falhada de falar ao telefone com a sua prima.
- Pensava que sim - disse Jenny, mantendo-se de costas para Joss e Jon.
- Pois no chegou, j que no atende o telefone, por isso deves ter percebido mal. E agora no vou ter tempo para lhe mostrar as crias dos texugos - revelou Joss, 
visivelmente chateado.
- Livvy no vai querer ver as crias. Veio com o seu namorado - disse Louise ao seu irmo, com a superioridade prpria das irms mais velhas.
62
- Louise - advertiu Jenny, com a testa franzida.
- E o que  que isso tem a ver com o facto de ela no querer ver os texugos? - perguntou Joss.
Nas suas costas, Jenny podia escutar os risinhos contidos das gmeas.

- Raparigas. - exclamou Joss, com desespero e raiva. - No vais comer esse pedao de tarte, Lou?  que se no. - olhou, esperanado, para o prato da sua irm.
- Ests com cara de cansado - comentou Jenny em voz baixa para o seu marido quando finalmente ficaram sozinhos.
- No, no estou.  que. Bom, acho que esta festa me fez pensar que estamos a ficar velhos.
Jenny no disse nada; sabia perfeitamente quem suportava todo o trabalho no escritrio. Tambm sabia que qualquer tentativa de protesto acabaria na mesma atitude 
distante e educada que Jon adoptava sempre que algum tentava criticar o seu irmo gmeo.
Nos primeiros anos de casamento sofria ao pensar que havia sempre algum antes dela, que a lealdade e o amor que Jon sentia pelo seu irmo seria sempre mais importante 
do que os seus sentimentos por ela. Mas depois foi obrigada a reconhecer que essa mesma lealdade fazia com que Jon fosse o homem que era, o marido que era. o pai 
que era. e convenceu-se de que no devia cair no mesmo erro que outras mulheres e tentar moldar o seu marido a seu gosto, mas, sim, aceit-lo tal como ele era. Com 
ela, pelo menos, Jon tinha a possibilidade de ser autntico, de ser uma pessoa. Devia-lhe isso. Devia-lhe isso e muito, muito mais. Tanto.
63
Trs
- Obrigado, senhor Thompson. Est tudo perfeito. Ento, vir amanh de manh para preparar os ltimos detalhes? - perguntou Jenny ao homem que dirigia a equipa que 
acabara de montar a tenda.
Os homens montaram a tenda com destreza e rapidez, debaixo do olhar atento do seu capataz. Tambm tinham montado os toldos interiores, as luzes e incluram dois 
corredores que ligavam a casa  tenda, um para os convidados e outro para os empregados.
- Estaremos aqui s oito em ponto - garantiu o capataz a Jenny.
- E as mesas estaro montadas antes do meio- dia?
- Antes do meio-dia.
- Tem um aspecto fantstico - disse Olivia, quando o capataz se afastava para se juntar aos seus empregados.
Caspar e ela tinham curiosidade em ver a tenda, e como Jenny tinha de ir a Queensmead para supervisionar os ltimos preparativos, eles decidiram acompanh-la. Max, 
que chegara no dia anterior  noite, tambm decidiu acompanhar a me. Jenny no sabia porque  que ele o tinha feito. Estava de p, sozinho,
64
franzindo a testa, com um semblante aborrecido e irritado.
- Espero que a cor creme no torne a festa demasiado montona - preocupou-se Jenny enquanto voltava a observar o interior da tenda.
- No, est perfeito - tranquilizou-a Olivia. Muito elegante. Qualquer outra cor teria ficado demasiado pesada. como se fosse um banquete de casamento.

Os homens e o capataz estavam a entrar para os vrios carros nos quais chegaram e, tal como Jenny comprovou aliviada, tinham estacionado longe do adorado relvado 
de Ben. Pelos comentrios que o ancio fizera desde que Jenny chegara  sua propriedade, Ben tinha passado todo o dia a seguir atentamente todos os passos dos trabalhadores. 
Jenny no sabia se ele estava aliviado ou decepcionado por no terem causado nenhum estrago, mas suspeitava que a segunda hiptese fosse a mais provvel.
- Quanta vaidade - resmungou Ben. - No meu tempo, completar cinquenta anos no era nada do outro mundo. Dizem que vai chover, sabias?
- Pelo menos at segunda-feira, no vai chover - respondeu Jenny serenamente.
- No sei se devo oferecer-me para ajudar a tia Ruth com as flores - disse Olivia. - Tenho medo de ser mais um estorvo do que uma ajuda.
- Tenho a certeza de que ela ir agradecer que algum a ajude, nem que seja apenas para mover as flores de um lado para o outro - garantiu Jenny.
- Podem contar comigo tambm - anunciou Caspar. Jenny sorriu.
Tirando as apresentaes, nem Jon nem ela tinham
65
tido oportunidade para falar com ele tranquilamente, mas Jenny gostou dele logo  primeira vista. Por detrs da incrvel sexualidade da sua imponente figura masculina, 
escondia-se uma tenacidade que tranquilizava o seu instinto maternal, assim como uma firmeza de opinies que mostrava que no era um homem susceptvel de desviar-se 
do caminho que elegera, ou da pessoa que escolhera, e era evidente que a pessoa que escolhera e que amava era Olivia.
Jenny olhou para a sua sobrinha com afecto. No havia dvida de que Olivia tambm o amava.
No fundo do seu corao, Jenny sabia com toda a certeza e no valia a pena negar que, de todos os seus filhos, tanto os dela como os de David e Tiggy, Olivia era 
a sua favorita, pois era uma rapariga muito, muito especial. No podia ser por ser filha de David. O seu corao comeou a bater mais depressa. Para resolver a situao, 
decidiu olhar para a lista de tarefas que ainda faltavam fazer.
- Disseram-me, rapaz, que  professor. Caspar girou a cabea e viu Ben a dirigir-se para ele. Ben era um homem alto e irritava-o admitir que aquele americano que 
Olivia encontrara o superava nesse aspecto. Desde o acidente, tinha comeado a curvar-se um pouco e fez uma careta de raiva quando se apercebeu que tinha de dar 
um pequeno passo atrs e levantar os olhos para conseguir olhar para Caspar.
Americano! Ben nunca tinha gostado daquela gente, nunca. Durante a guerra, houve tropas sedeadas na localidade, indivduos ruidosos que mascavam pastilha elstica 
e tinham mais dinheiro do que
66
bom senso, fanfarres que se pavoneavam pela cidade para chamar a ateno das jovens raparigas e causavam todo o gnero de distrbios.
- Sou professor catedrtico - afirmou ironicamente.
- E s est aqui temporariamente, segundo percebi.
-  verdade - confirmou Caspar.
- Hum. Bom, neste pas temos um ditado - disse Ben, maliciosamente. - Os que podem, fazem, os que no podem, ensinam.

- Av! - protestou Olivia, mas Caspar moveu a cabea suavemente e sorriu. Se quisesse, havia um lugar de scio  sua espera num dos escritrios de advogados mais 
prestigiados de Filadlfia. Sem dvida, ganharia muito mais dinheiro do que ganhava com a sua profisso actual, mas gostava de ensinar e, para ele, isso era mais 
importante do que ganhar dinheiro.
Mas, claro, como ele prprio reconhecia, para ele era fcil dizer isso porque beneficiava de um fundo monetrio criado pelo seu av materno.
- Isso depende de quem ensina - limitou-se a dizer, com expresso e tom serenos, mas Jenny, que ouvira a conversa e estava a olhar para Ben enquanto Caspar respondia, 
sabia que a atitude de Caspar de no se dei xar intimidar pelo ancio tinha aumentado ainda mais a raiva que o velho senhor j sentia por ele.
- No, a nica forma de chegar a conhecer o Direito na sua plenitude  exercendo-o - respondeu Ben, obstinado. - Sei-o por experincia prpria. E no me estou a 
referir aos casos fceis e inspidos que vo parar aos departamentos jurdicos de algumas empresas, como a de Olivia - acrescentou.
67
- Olivia  uma profissional altamente qualificada
- protestou Caspar.
- Sim, passou nos exames - reconheceu Ben. Mas  preciso mais do que boas notas para se ser um bom advogado. A advocacia no consiste em mexer em papelada dentro 
de um escritrio,  preciso entrar em pleno na profisso, fazer o tipo de trabalho que Max est a fazer. Isso  a advocacia.
Jenny viu que Caspar comeava a ficar tenso e constrangido. Sabia o motivo, claro. Olivia, apesar da sua modstia e da hipocrisia do seu av, tinha muito mais qualificaes 
do que Max e o seu curriculum era bastante mais atraente para qualquer escritrio. Para comear, Olivia possua muito mais experincia e, alm disso. Bom, Jenny 
sabia a qual dos dois recorreria se tivesse algum caso para resolver, e no seria ao seu prprio filho.
- Lamento - ouviu Caspar dizer rapidamente, arqueando levemente uma sobrancelha. - Peo desculpas. No estou familiarizado com o sistema jurdico britnico, mas 
segundo entendi, Max  apenas um estagirio no seu escritrio e, como tal, no pode ter clientes. Olivia, pelo contrrio, tem a seu cargo um departamento jurdico 
especializado e eu sei.
- Caspar! - protestou Olivia, com a voz embargada. - O av no.
Mas j era demasiado tarde. Ben voltara-se para ela com a testa franzida, sentindo que ela era uma vtima bastante mais dbil do que Caspar, que era inesperadamente 
inflexvel. Ben no estava habituado a encontrar qualquer tipo de resistncia e tal no lhe agradava minimamente.
68
- O que estou a ouvir? Tens o teu prprio departamento?
- No  mais do que uma pequena promoo, av. Nada do outro mundo - apressou-se a explicar Olivia.
- Um simples lugar de coordenao, claro que.
- Claro que esse lugar te deu um chorudo aumento de salrio - interrompeu Max, que se aproximara para se juntar  conversa. - Saiu-te a lotaria, rapariga. Eu.
- Olivia no ganhou a lotaria - corrigiu Caspar, calmamente. - Acontece que ela  uma advogada muito qualificada e trabalhadora.

-  normal que diga isso - respondeu Max. - Afinal, era uma das suas alunas. tanto na escola como na cama.
Jenny sentiu o seu prprio rosto a arder de vergonha mas, como sempre, Max no estava consciente da sua maldade e mesquinhez.
- Ouvi dizer que em breve ir abrir uma vaga no seu escritrio. Est a pensar candidatar-se? - perguntou Caspar a Max.
Max fez uma expresso de desagrado. Como  que Caspar soubera daquilo?
- No precisa de candidatar-se - interps-se Ben, respondendo  questo no lugr do neto. - J lhe disseram que a vaga  dele e assim ser. J foi obrigado a abdicar 
em favor de outra pessoa noutra ocasio.
Max lutou por esconder a irritao que o comentrio do seu av produzia nele. Em geral, sabia-lhe bem que o seu av o defendesse mas, naquele caso, que saberia exactamente 
o americano sobre a vaga? Noutras circunstncias, teria comeado a tentar descobrir alguma
69
informao, nomeadamente o nome da sua rival feminina, se por acaso ele a conhecia, mas no o podia fazer  frente do seu av, pois este no podia perceber que a 
sua promoo no era um dado adquirido.
Max comeou a suar um pouco. O seu av era tolerante com ele. mas apenas at um certo ponto. Max sabia como era importante para o ancio alcanar as suas ambies. 
David j o decepcionara ou trora e, afinal, acabara por ser perdoado, mas Max
estremecia s de pensar em ter uma vida como a do seu tio.
J tinha sido terrvel viver debaixo do olhar severo do seu av durante anos, mas voltar a faz- lo. O seu av, afinal de contas, era o responsvel pelas fi nanas 
da familia e Max assistira  forma como ele sempre controlara a vida dos seus filhos, do mesmo
modo que controlava o dinheiro. Max no tinha qual quer iluso sobre o peso que carregava por ser o neto
favorito de Ben.
Mas o sucesso significava tanto para ele como para o seu av; talvez at mais. Max gostava de di nheiro e do que podia comprar com ele. Queria alcanar o sucesso 
e, se possvel, tambm a fama, e nenhuma mulher se iria colocar no seu caminho.
- Chegaram finalmente os sapatos da tua me? perguntou Jenny a Olivia, enquanto regressavam para o carro.
- No. Foi a Chester esta manh para ver se encontra outros.
Olivia hesitou um momento ao recordar a cena
70
que presenciara naquela manh, quando entrou no quarto dos seus pais.
- Tia Jenny - comeou por dizer. - Sei que a minha me e a tia no so muito unidas mas. j.

Interrompeu a sua frase bruscamente quando se lembrou que, a caminho de Queensmead, depois de conhecer os seus tios, Caspar comentara como todos dependiam de Jenny. 
Ao ver como no apenas o filho mais novo de Jenny mas tambm o irmo de Olivia, Jack, a tinham encarregue de limpar os seus equipamentos de desporto, Caspar tinha 
comentado com uma certa ironia como os membros mais velhos da famlia a carregavam com os seus problemas, da mesma forma que os mais novos a carregavam com a roupa 
suja. Sim, todos tinham tendncia a confiar em Jenny quando alguma coisa corria mal na sua vida, reconheceu Olivia, mas j era adulta e.
- Passa-se alguma coisa com a tua me, Livvy?estava a perguntar-Lhe Jenny, mas Olivia negou com a cabea e dominou a tentao de desabafar com ela.
- No - respondeu despreocupadamente. - Mas j conhece a me. Est a ficar estupidamente nervosa por causa destes sapatos.
Olivia ficou horrorizada com a falsidade da sua prpria voz. Que teria dito Jenny se tivesse contado aquilo que realmente a preocupava?
Caspar e ela estavam quase a sair de casa naquela manh quando Olivia se lembrou que se tinha esquecido do casaco. Ao subir as escadas a correr para o ir buscar 
viu que a porta do quarto dos seus pais estava aberta e ouviu a sua me a falar, aparentemente sozinha.
Olivia entrou de rompante no quarto. Jamais 
71
esqueceria a cena que os seus olhos presenciaram, muito menos a mistura de vergonha, pesar, desafio e medo que o olhar da sua me reflectia.
- No vais contar nada, pois no? - suplicou Tiggy, sentada sobre a cama, rodeada de dezenas e dezenas de sacos, ainda por abrir, resultado de uma, ou melhor, de 
muitas visitas s lojas. - No contes ao teu pai. Ele no. Ele no compreenderia.
Olivia saiu sem responder. Misturado com o familiar perfume da sua me, tinha sentido no ar um odor desagradvel e penetrante, que lhe era tambm familiar. Olivia 
sentiu o seu estmago a revoltar-se e teve de sair do quarto sem chegar a prometer  sua me que guardaria segredo.
- Que aconteceu? - perguntou Caspar em voz baixa, enquanto se afastavam da casa do av. - No ests a remoer aquilo que eu disse, pois no?
- O qu? - perguntou Olivia, com o semblante carregado.
- O teu av - recordou Caspar. - Deve chatear-te o facto de ele menosprezar completamente o teu valor profissional.
Olivia ficou mais relaxada. Caspar pensava que ela estava zangada porque o seu av colocara Max acima dela. Talvez, h alguns anos atrs, tivesse ficado zangada, 
mas no agora, quando.
- No. O meu av  demasiado antiquado e machista para mudar nesta altura da vida e Max ser sempre o seu preferido.
- Tudo bem. Bom, tudo ser diferente nos Estados Unidos - prometeu Caspar. Ao ver que ela no respondia de imediato, lanou-lhe um olhar penetrante. - No ests 
a voltar atrs na tua deciso, pois
72
no? - perguntou-lhe. - Ainda no contaste  tua famlia?
- Como  que poderia voltar atrs? - disse-lhe com afecto. - Sabes o quanto significas para mim. o muito que o nosso futuro significa para mim - corrigiu, e sorriu 
quando ele lhe disse em voz baixa.
- Agora vais ver. Eu sei que a lei daqui diz que no se pode parar numa auto-estrada para.

- Isto no  uma auto-estrada - interrompeu Olivia, num tom brincalho. -  uma tranquila estrada municipal e se quiseres parar. - olhou-o de forma provocante e 
riu-se novamente quando Caspar moveu a cabea.
Os meses que tinham passado juntos foram os mais felizes da sua vida e quando Caspar Lhe disse que tinha de regressar aos Estados Unidos no final do Vero, num primeiro 
instante Olivia pensou que ele estava a tentar dizer-Lhe que no via aquela relao como algo permanente.
Tentou no demonstrar a sua enorme decepo, mas algum gesto a atraioou, j que Caspar a tomou rapidamente nos seus braos e abraou-a de forma protectora.
- No, no - disse-lhe baixinho. - No estou a pensar acabar com a nossa relao. Como pudeste pensar isso? Amo-te, Olivia, quero ter-te sempre ao meu lado. Quero 
que venhas comigo. Mas sei que. sei que te esforaste tanto para consegur esta promoo. -  apenas um trabalho - respondeu Olivia com voz trmula, mas com a maior 
sinceridade possvel. - T s muito, muito mais importante - e tambm nisso estava a ser completamente sincera.
E realmente era, apesar de por vezes sentir-se 
73
desiludida ao pensar que teria de formar-se novamente nos Estados Unidos se quisesse alcanar a mesma categoria profissional que estava em vias de obter em Inglaterra.
Caspar nunca pediria nem esperaria que ela renunciasse ao seu futuro profissional por ele. Olivia sabia isso. Mas tambm tinha deixado muito claro que exerceria 
a profisso no pas dele.
A deciso estava tomada. J tinha entregue o pr-aviso na sua empresa e pensava contar  famlia em algum momento durante o fim-de-semana. No tinha previsto nenhum 
problema. O que poderia acontecer de mal?
Adorava os seus pais e a sua famlia, claro, mas cada um tinha a sua vida. A inveja que sentira por Max durante a sua infncia e adolescncia j se tinha dissipado 
h muito tempo.
Mas, o que pensar da situao que presenciara de manh no quarto dos seus pais? Mordeu o lbio inferior. Desde quando existia esse problema? Ser que mais algum 
sabia? O seu pai? Ele devia suspeitar de alguma coisa. E ela? No podia esquecer o que vira apesar do olhar suplicante da sua me.
Caspar sabia que Olivia estava preocupada com alguma coisa. Ainda bem que s iam passar ali um fim-de-semana, pensou, enquanto conduzia de regresso a casa dos pais 
de Olivia. Sentia sempre uma certa claustrofobia nas reunies familiares porque faziam reaparecer recordaes e medos dos quais ele no se orgulhava muito.
No tinha nada contra as famlias, no entanto, nunca conhecera um exemplo de vida familiar que pudesse tomar como modelo. Que sentido fazia mentir
74
publicamente e fazer promessas que raramente se chegavam a cumprir? Alm disso, no queria partilhar Olivia com a sua famlia; queria-a toda para ele e admitia-o 
abertamente. No tinha ficado com grande impresso acerca do pai de Olivia e do seu av ainda antes de os conhecer, e agora que finalmente os conhecia.

Como podiam valorizar mais uma pessoa to medocre e pouco digna como Max em vez de Olivia? A natureza devia estar a gozar com eles, por causa da sua hipocrisia 
e machismo, ao fazer com que Olivia tivesse muito mais talento do que o seu primo.
No tinham planos de casar-se, mas Caspar sabia que iriam acabar por faz-lo. Nunca pensou que iria apaixonar-se to perdidamente por uma mulher nem que iria querer 
esse tipo de compromisso, mas as coisas tinham mudado. No queria perd-la e por um lado tinha tido alguma resistncia em conhecer a famlia dela porque temia que 
eles se opusessem  ida de Olivia para os Estados Unidos. Ficaria muito mais aliviado quando aquele fim-de-semana terminasse e ficassem livres para comear a prxima 
etapa das suas vidas. Ao tomar o sentido da entrada da casa, observou o perfil de Olivia. No restava qualquer dvida de que alguma coisa a preocupava, apesar de 
ela no o reconhecer. Perguntou-se o que seria e, mais importante ainda, porque  que no lhe contava.
- As mulheres so mentirosas e fingidas - disse-lhe o seu pai numa ocasio. Acabava de separar-se e, apesar de ter uma nova mulher, queixava-se da penso que era 
obrigado a pagar  sua segunda esposa. No acredites nelas, Caspar. No cometas o mesmo
75
erro que eu. To depressa te dizem que te amam como.
Olivia ficou tensa quando Caspar parou o carro. A sua me estaria em casa? No via o carro dela em lugar nenhum e sentiu dio de si mesma por se sentir aliviada.
Porque  que foi ela a descobrir?, perguntou a si mesma com um misto de rancor e de vergonha. Porque no foi o seu pai, por exemplo? Devia confiar em Caspar e contar- 
lhe o que vira, mas como poderia atraioar a sua me quando nem sequer ela mesma tinha a certeza, quando mais ningum parecia saber...
 claro que tens a certeza, disse-lhe uma voz dentro dela. O que acontece  que no queres admiti-lo. No queres enfrentar a verdade".
Qual verdade? Bastava-lhe fechar os olhos para imaginar novamente o quarto dos seus pais e ver aquela desarrumao, os sacos espalhados por toda a parte. e aquele 
cheiro. Comeou a sentir novamente o estmago a revolver-se.
- Que se passa? - perguntou Caspar consternado quando ela se voltou depressa para sair do carro.
- Nada - negou Olivia.
Quando David ouviu que o seu irmo se aproximava do escritrio, pegou no processo que estava a estudar e escondeu-o debaixo da sua secretria.
Enquanto Jon entrava, pelo canto do olho David viu o extracto da sua conta bancria junto ao telefone. De propsito, tapou o extracto com o brao. O seu corao 
batia com fora e irregularidade.
76
- No encontro o arquivo da conta fiduciria dos Siddington - disse Jonathon, sorrindo. - Os contabilistas tm uma dvida e.
- Ah, penso que deixei isso em minha casa. Estive a trabalhar nesse assunto na outra noite. Na segunda-feira trago-te.
- Levaste os papis para casa, mas.
- Pelo que parece, Max vai ascender  posio de scio, finalmente - interrompeu David firmemente.
- Sim. Sim,  o que parece - concordou Jonathon. - Apesar de ser sempre melhor no darmos as coisas por adquiridas.

- Aposto que o pai est cheio de vontade de contar isto a Hugh - disse David, sem prestar ateno  sugesto de Jonathon. - Sempre existiu uma certa rivalidade entre 
eles nestes assuntos, pelo menos do lado do pai.
- Tenho a certeza de que o tio Hugh no v as coisas dessa forma - respondeu Jonathon. O seu tio fora muito amvel com ele desde pequeno e suspeitava que a rivalidade 
entre os dois meios-irmos s existia por parte do seu pai.
- Como poderia faz-lo? - indagou David. - Ele ...
- Vai ser agradvel ter toda a familia reunida - comentou Jonathon, que no estava com vontade de aprofundar aquele tema.
David esperou um pouco para ter a certeza de que Jonathon j se tinha ido embora, antes de voltar a tirar o arquivo que escondera debaixo da secretria e met-lo 
dentro da sua pasta. Os seus dedos tremiam enquanto o fazia. Sentia-se at um pouco enjoado. Devia ser do calor abrasador que se fazia sentir.
77
Pegou no extracto da sua conta e estudou-a com
renovada incredulidade. Como podiam ter gasto
tanto dinheiro? No ms passado David avisara Tiggy de que
no podiam derreter o dinheiro e inclusivamente
ameaara-a de cancelar os seus cartes de crdito
mas, como sempre, ela tinha chorado e suplicado e
ele acabara por desistir.
Para Jonathon era tudo muito fcil, pensou com
alguma amargura. O seu irmo nunca sentira nenhum
apego pelo luxo e sempre fora muito precavido em
relao s questes financeiras. Alm disso, Jenny
devia estar a ganhar um bom salrio com a sua loja.
Claro que nunca pudera imaginar, h alguns anos
atrs, quando a conheceu, que Jenny se tornaria
numa prspera mulher de negcios. Era uma jovem
tmida e insegura, to diferente da sua mulher em
muitos sentidos...
A primeira vez que viu Tiggy, ela estava sentada
no banco de um exclusivo clube londrino, rodeada de
um grupo de admiradores, aos quais incitava a competir entre eles para ver qual  que conseguiria lev-la
a jantar.
Naquela poca David estava a tocar com o grupo e
tinham acabado de sair de uma das inmeras revistas
de moda que proliferavam naqueles tempos. Algum
o reconheceu, uma das modelos que estava no clube
com Tiggy, agarrou-o pelo brao.
Ainda podia recordar o enorme gozo que sentiu
quando voltou a cabea para a outra extremidade da
pequena sala e viu Tiggy a observ-lo, sem ligar nenhuma aos muitos homens que tentavam disputar a
sua ateno.
Era impossvel, nem antigamente nem agora, 78
imaginar Jenny a posar com indiferena em cima de um banco, com uma das mini-saias mais curtas que algum j usou, deixando  vista umas pernas jovens e interminveis, 
a mordiscar uns lbios sensuais pintados de cor- de-rosa plido e um rosto branco como a neve, com olhos enormes rodeados de pestanas negras e de uma linha feita 
com lpis para olhos ainda mais escura.

Jenny nunca mordiscava os lbios e, se tivesse pintado os olhos, o seu pai obrig-la-ia a lavar a cara. Tinha as pernas fortes, desenhadas para atravessar os campos 
da fazenda do seu pai, nada delicadas nem magras como as de um corso. Enquanto Jenny era uma mulher saudvel e robusta, Tiggy era frgil, delicada e vulnervel; 
enquanto que Jenny reprimia e controlava as suas emoes estoicamente, Tiggy conseguia passar das gargalhadas ao pranto em poucos segundos; enquanto que Jenny tinha 
um rosto vulgar e inspido, Tiggy era deliciosamente diferente e perigosa.
E nada tinha mudado, pensou David. Continuava a ver a inveja estampada nos olhos dos outros homens quando olhavam para Tiggy e a comparavam com as suas esposas maduras, 
aborrecidas e acomodadas. Tiggy era o tipo de mulher que namoriscava por instinto, que incendiava a sexualidade de qualquer homem: afinal, isso tambm acontecera 
com ele. Tiggy tinha-o encantado, enfeitiado e capturado.
Deixaram aquele clube para irem para outro e Tiggy deu uma risada enquanto comprava alguns estimulantes e insistia para que David tomasse um.
No era nada do outro mundo, pois todas as 
79
pessoas consumiam drogas nos anos sessenta. Era parte da vida nocturna londrina. claro que, por azar, os scios do escritrio em que era estagirio no viam as drogas 
como algo assim to normal. Havia dias em que chegava tarde e saa cedo e outros em que nem sequer se apresentava ao trabalho, pois acordava tarde no pequeno apartamento 
de Tiggy e na sua cama ainda mais minscula e acabava por passar o dia inteiro nos seus braos. O seu comportamento daquela altura tinha, em ltima anlise, comprometido 
o seu futuro.
Tinha de escolher, disse- lhe o scio mais importante do escritrio quando chamou David  sua sala para lhe pedir explicaes. Ou escolhia a Ordem dos Advogados 
ou Tiggy e o estilo de vida que tinha junto a ela.
Na verdade, no tivera hiptese de escolha. J sabia o que esperavam dele, o que o seu pai esperava dele. Deram-Lhe vinte e quatro horas para meditar e
David regressou ao apartamento de Tiggy para lhe contar o que acontecra e recolher as suas coisas. No entanto, quando entrou em casa, encontrou Tiggy a chorar desesperadamente 
e. grvida.
Ao ver o seu rosto vulnervel banhado em lgrimas e o seu corpo de menina, os discursos que preparara evaporaram-se da sua cabea. Ele amava-a, no podia viver sem 
ela. Ia ter um filho seu. O seu pai iria compreend-lo; tinha de compreend-lo.
Casaram-se trs dias depois em Caxton Hall. Para grande alvio de David, o seu pai gostou imediata mente de Tiggy e aprovou a sua deciso de casar-se to depressa, 
quando lhe explicou o motivo. Ben teve mais relutncia em aceitar que ele interrompesse a
80
sua preparao para ingressar na Ordem dos Advogados, mas David sempre soube a melhor forma de dar-lhe a volta.

Por estranho que parea, foi a sua me, Sarah, a mulher calada, modesta e submissa, quem pareceu ter uma certa antipatia por Tiggy. Mas claro, como o prprio David 
j se tinha apercebido, Tiggy no era o gnero de mulher facilmente aceite pelas outras mulheres. Jenny, felizmente, foi a excepo e acolheu Tiggy no seio da famlia 
com sincero afecto.
Naquela poca, Jon e Jenny j estavam casados h vrios anos e David suspeitava que Jenny tinha sido amvel com Tiggy porque ela tambm estava grvida quando se 
casou com Jon, mas como no era de muitas conversas, nunca tinham falado muito acerca desse assunto. Estava grato por o seu pai ter pago todas as suas dvidas e 
por Tiggy e ele poderem iniciar uma nova vida, na sua tranquila cidade natal.
David fez novamente uma careta quando observou outra vez o extracto bancrio. Tinha de voltar a falar com Tiggy, faz-la compreender. Estava a suar imenso e doa-Lhe 
o maxilar. Apalpou a zona da boca e pensou que tinha de marcar uma consulta urgentemente com o seu dentista, Paul Knighton.
Ao contrrio de Jon, no esperava com expectativa a festa do fim-de- semana. Cinquenta anos! Como  que os anos tinham passado to depressa? Meteu o extracto da 
sua conta numa gaveta e fechou-a  chave. Doa-lhe a cabea e estava um pouco enjoado. Devia ser por causa da hipertenso, como o tinha avisado Travers na ltima 
vez que fizera um check-up.
No seria fcil falar com Tiggy. faz-la escutar o
81
que ele tinha para dizer. Estava muito abalada na noite anterior quando se queixou que Olivia gostava mais de Jenny do que dela e acabou por perguntar a David se 
ela continuava to atraente como antes, comparando-se com Olivia.
- Olivia tem pouco mais de vinte anos - respondeu David sem pensar, e amaldioou-se ao aperceber- se do seu erro. Mas j era demasiado tarde para retirar as suas 
palavras. O estrago estava feito e as consequncias eram to previsveis que podia descrever cada uma das suas frases. Sabia exactamente o que encontraria naquela 
tarde quando voltasse para casa e como reagiria Tiggy se tentasse consciencia liz-la do que estava a fazer a si prpria, a ele e ao casamento de ambos.
Se no dia do seu casamento algum lhe tivesse dito o que o aguardava, teria desatado a rir com in credulidade. Com o esprito cansado, passou uma mo pelos olhos, 
como se quisesse apagar as recordaes dolorosas da sua memria.
82
Quatro
- Tiggy.
Olivia hesitou antes de atravessar a porta da pequena e soalheira sala de estar. A sua me estava sentada por trs da bonita secretria que David Lhe tinha oferecido 
num Natal. Quando se voltou para sorrir para a sua filha, no mostrou nem uma ponta do nervosismo e do choque daquela manh. Na verdade, parecia quase serena, pensou 
Olivia, enquanto observava Tiggy a guardar um cheque que estava a passar num envelope e o fechava.
- Estava a pagar algumas facturas - disse a Olivia.
- O teu pai ainda no voltou. Pensei que podamos jantar em Knutsford, no Est Est Est. Sempre foi um dos teus restaurantes favoritos.  verdade, onde est Caspar?
- Aqui - respondeu Caspar, que entrou atrs de Olivia na sala de estar.

- No h dvida nenhuma de que  um homem incrvel, to cavalheiro. - disse Tiggy a Olivia, enquanto dirigia a Caspar um sorriso sedutor e brincalho.
Aquela era a sua me nos seus melhores momentos,
83
a irresistvel Tiggy, reconheceu Olivia, enquanto
a observava. Era impossvel enojar-se ou sentir inveja pela sua habilidade em cativar os outros, nem
sequer questionar a sua necessidade de faz-lo.
-  to alto. - continuava a comentar Tiggy, enquanto se aproximava dele de forma provocante e o
olhava com olhos de cordeiro. - Quanto  que mede?
- Um metro e oitenta e cinco, mais centmetro,
menos centmetro - respondeu Caspar, afvel.
 - E  todo musculado - sussurrou Tiggy com uma
careta sedutora enquanto deslizava uma unha pintada
pelo antebrao despido de Caspar. - Cus...
Sem que a sua me a visse, Olivia lanou a Caspar
um olhar suplicante, ao ver que ele evitava o contacto fsico. Sabia como era volvel o estado de esprito da sua me e como era sensvel em relao  opinio que 
os outros tinham acerca dela. Para Tiggy,
era crucial que os outros a achassem bonita. Em
criana, Olivia sempre acreditara que as necessidades
da sua me eram uma parte intrnseca do seu carcter, mas em adulta... Comeou a enrugar a testa;
preocupada.
- Esta noite quero ir para a cama cedo - disse Olivia  sua me. - Prometi ir logo de manh a Queensmead para ajudar a tia Ruth com as flores. Ah, e a tia
Jenny pediu-me para te recordar que os familiares de
Chester vo chegar  hora do almoo. Pediu-me para
te perguntar se precisas de roupa de cama. Queria assegurar-se de que o av tem jogos suficientes para a
famlia de Hugh, Nicholas, Saul, Hillary e para as
crianas, e disse que encontrou roupa de cama suficiente para um hotel inteiro. Que se passa? - perguntou, ao ver a expresso do rosto da sua me a mudar,
84
ao mesmo tempo que ela batia com o punho na blusa de seda.
- No sei porque  que temos de ser ns a alojar Laurence, Henry e as suas familias - queixou-se. Porque no dormem em casa de Jenny e Jon?
- Certamente porque no tm espao suficiente - respondeu Olivia, suavemente.
- H muito espao em Queensmead - insistiu a sua me.
- Sim - reconheceu Olivia. - Mas l vo ficar o tio Hugh e a sua familia - recordou. Apesar de no ter dito, suspeitava que Jenny no queria colocar tanto peso nos 
ombros de Ben, aliviando um pouco o nmero de convidados que ficariam na manso. - V l, Tiggy - animou-a, com um tom persuasivo. Sempre gostaste de ter convidados.
- Sim, mas isso era antes. J sabes que eu gosto de fazer as coisas como Deus manda, mas o teu pai no faz mais nada seno queixar-se e falar do que no podemos 
permitir-nos. - interrompeu a sua frase e mordeu a bochecha, enquanto os seus olhos se enchiam de lgrimas. Olivia sentiu um arrepio de inquietao que lhe percorria 
a espinha. Que ela soubesse, os seus pais gozavam de um considervel desafogo econmico.

A sua me era prdiga em exageros, tranquilizou-se Olivia, e os seus protestos deviam-se certamente aos protestos do seu pai, pela conhecida fraqueza de Tiggy em 
relao a vestidos exclusivos de conhecidos estilistas e por maquilhagem cara.
Olivia sabia que a sua me desconhecia o que era limitar-se a um oramento ou apertar o cinto. No era nada fora do comum que encomendasse ingredientes
85
especiais em Chester para os jantares ou que encomendasse as suas flores naturais preferidas numa luxuosa florista londrina, porque no encontrava nenhumas como 
aquelas mais perto de casa.
- O av prefere que sejas tu a acolher a famlia de Chester porque quer impression-los - disse Olivia, tentando tranquilizar a sua me, mas mordeu o lbio
inferior quando viu o olhar sarcstico de Caspar perante aquela manobra. Sem dvida, ele iria repreend-la pela sua atitude. Se Caspar tinha um defeito esse era, 
certamente, o facto de no acreditar em pilulas milagrosas nem em bajulaes de nenhum tipo.
- Bom, sim, penso que tens razo - aceitou a sua me, que ficou um pouco mais animada. - Jenny  um anjo e uma cozinheira fantstica mas. Bem, ela no tem grandes 
ideias acerca de design de interiores, no  verdade? E a sua casa est sempre cheia de crianas e de animais.
Olivia pensou para com os seus botes que a casa dos seus tios, com os seus reluzentes mveis antigos, as taas cheias de flores secas e as flores naturais
acabadas de cortar, era o que mais se aproximava da sua ideia de lar. Mas no disse nada. Sabia que a sua
me sentia um imenso orgulho por manter a casa to dentro da moda como a sua roupa. Desde criana que se habituara aos seus ataques de insatisfao sempre
que comprava uma das biblias do design e via o que estava fora de moda. Tiggy voltava a decorar quartos e salas na totalidade, s para estarem na moda, preocupando-se 
de forma obsessiva at ao ltimo detalhe
e no ficava satisfeita at encontrar o abatjour perfeito para um candeeiro ou um novo objecto favorito.
- Sempre dependeu tanto da opinio dos outros?
86
perguntou Caspar um pouco depois, naquela mesma noite, quando estavam na cama. Olivia subira s escondidas at ao quarto do sto, sentindo-se como uma adolescente 
traquinas. Era ridculo que a sua me se sentisse obrigada a respeitar as ideias antiquadas do av quando ele nem sequer estava ali para v-los.
- Sim - respondeu. - Apesar.
- Apesar do qu? - pressionou Caspar, ao ver que ela suspendera a frase.
- No sei. No me recordava que ela fosse to. Imagino que seja muito difcil para ela. Sempre baseou a sua auto estima na beleza e ainda est fantstica, mas.
- Mas sente-se velha. e comea a estar desesperada - concluiu Caspar no seu lugar.

No escuro do quarto, Olivia concordou. J se sentia bastante desconfortvel com a situao e sentia-se mais culpada ao estar a falar dos defeitos da sua me, mesmo 
sendo com Caspar. Percebera que ele no tinha gostado nada dos elogios de Tiggy e sentia-se dividida entre o desejo de proteger a sua me e a vontade de concordar 
com ele.
Levantou-se da pequena cama e disse:
- Tenho sede. Vou descer at  cozinha e preparar um ch. Apetece- te?
- Sim, obrigado. Queres que v contigo? Olivia negou com a cabea.
- No vou demorar - prometeu e inclinou-se para beij-lo nos lbios antes de vestir o roupo e caminhar descla at  porta.
Conhecia a casa bastante bem e por isso no precisava de acender nenhuma luz; para alm disso, a lua
87
estava quase cheia e a sua luz clara e definida entrava
pelas janelas. Apenas o ranger de algumas velhas tbuas denunciou a sua presena enquanto descia as escadas. No corredor sentiu a fragrncia das aucenas,
a flor preferida da sua me.
A porta da cozinha estava entreaberta e ela hesitou
antes de entrar. Ficou tensa ao ouvir que algum rasgava uma embalagem de comida. Deviam ser biscoitos, deduziu, enquanto ouvia como algum as engolia
com uma rapidez tal que iria pr em causa o bem-estar do seu aparelho digestivo.
Devia ser Jack. O mais provvel era ter descido s
escondidas para comer alguma coisa, deduziu Olivia
ao ouvir a porta do frigorfico a abrir. Os rapazes tinham fama de terem um apetite feroz e, a julgar pelos protestos do seu pai durante o jantar, Jack no era
uma excepo.
Sem mais demoras, Olivia entrou na cozinha e
acendeu o interruptor. A luz inundou a diviso e iluminou a figura encolhida, quase como se sentisse cobardia, em frente  porta entreaberta do frigorfico. 
volta dela, no cho, amontoavam-se embalagens e recipientes vazios de comida, inclusivamente latas, e
Olivia elevou os olhos com perplexidade e incredulidade ao contemplar o rosto plido da sua me.
- Tiggy... - sussurrou. - O que ... O que  isto?
- mas enquanto formulava a pergunta, Olivia j conhecia a resposta, como soubera naquela mesma manh, ao entrar no quarto da sua me e descobrir os sacos brilhantes 
de roupas caras e novas espalhadas por
toda a parte e perceber o odor nauseabundo a vmito,
que o perfume penetrante da sua me era incapaz de
esconder. No entanto, ainda tentou negar o que vira,
88
assim como os seus prprios sentimentos vergonhosos de raiva e ressentimento por ter presenciado a desgraa e o desespero da sua me. Qual seria a causa do que Tiggy, 
sem dvida nenhuma, estava a fazer? Olivia suspeitava que ela j o devia fazer h muitos, muitos anos.
Anorexia, bulimia. Eram as palavras que geralmente associava a adolescentes vulnerveis e quase auto destrutivas, nunca com mulheres maduras com mais de quarenta 
anos, mas Olivia no podia negar o que os seus olhos viam.

- Me. - sussurrou com a voz embargada,  espera que estivesse errada, que a sua mo se levantasse, sorrisse e que o caos que as rodeava desaparecesse; porm, era 
evidente pelos restos de comida que a sua me, talvez por dio de si mesma, ou por nsia e necessidade, tinha devorado aquela enorme quantidade de comida e deixara 
a cozinha num es tado que mais parecia ter sido saqueada por uma dzia de homens esfomeados.
Pacotes rasgados, latas vazias, embalagens de comida preparada abertas, bocados esfareldos de um pedao de po e muito mais coisas cobriam o cho da cozinha como 
se algum tivesse acabado de derrubar um balde do lixo.
Olivia olhou para os restos com repugnncia. Como  que uma pessoa podia comer tanto? Observou a sua me, que estava plida e com um olhar apagado e cansado. Estava 
a esforar-se por respirar com normalidade e massajava lentamente o estmago por debaixo do roupo.
- Porqu? - sussurrou Olivia, desconsolada. Porqu.
89
- No sei... No sei...
Tiggy comeara a tremer e a chorar e passou os braos  volta dos joelhos flectidos para atirar-se para a frente e para trs enquanto suplicava a Olivia:
- No contes a ningum. No contes ao teu pai. No tinha inteno de gastar tanto. No pude evit- lo. Percebes, no  verdade?
Mas Olivia, que recordava a sensao que tinha experimentado ao ver os sacos de roupa ainda intac tos pelo quarto, no conseguia encontrar palavras para tranquilizar 
a sua me.
- No digas nada ao teu pai - repetia Tiggy. - Prometi-lhe que no o voltaria a fazer. Ele no me quer quando estou doente - ouviu a sua me dizer, enquanto a olhava 
com uma expresso pattica e com os olhos cheios de lgrimas. - Ele tenta fingir, mas eu percebo. Ele nem se aproxima de mim. Desatou a soluar, como uma criana 
ferida. Parecia de facto uma criana, com o corpo encolhido e os
braos magros. Olivia queria aproximar-se dela e abra-la, mas o cheiro da comida que tinha ingerido, a recordao do cheiro a vmito que dominava o seu quarto 
revolveu-lhe o estmago e foi incapaz de faz-lo. foi incapaz de se aproximar dela.
Enquanto engolia em seco para controlar as nuseas, Olivia perguntou-se porque tinham demorado tanto tempo a compreender o que se passava, porque  que no tinham 
percebido, imaginado.
- Olivia?
Ficou direita ao ouvir Caspar a entrar na cozinha. Esquecera-se por completo do ch e, quando os seus olhares se cruzaram, viu que Caspar compreendera o que se estava 
a passar com a mesma rapidez que ela.
90
- No sabia - sussurrou, como se tivesse de justificar o seu prprio desconhecimento do problema.
Por detrs dela, Tiggy tentava levantar-se com dificuldade.
- Vou para a cama. Estou cansada - disse a Olivia. Falava e movia-se como uma pessoa que estivesse sob o efeito de comprimidos ou de drogas, mas acabava por estar 
tal foi a quantidade de comida que ingeriu.
- Deixa-a ir embora - disse Caspar, quando Olivia comeou a protestar.

Seria aquela a sua me?, perguntou-se com horror enquanto contemplava como Tiggy saa a cambalear da cozinha e se dirigia, no ao quarto, mas  casa de banho do 
andar de baixo.
- Meu Deus - gemeu Olivia. - Meu Deus, Caspar, no...
Automaticamente, comeou a apanhar do cho os vestgios deixados pela sua me. Parou bruscamente, deu meia volta e os seus olhos encheram-se de lgrimas. Sem dizer 
uma palavra, Caspar abriu os braos.
Apesar de ainda estar demasiado surpreendida para expressar o que sentia, correu para os braos de Caspar e fechou os olhos para apagar as imagens da sua me, que 
no paravam de tortur-la.
Num mundo que, de repente, se tornara terrvel e irreal, o calor do corpo de Caspar enquanto a abraava parecia-lhe to familiar como a solidez do seu corpo. Ouvia 
os batimentos regulares do seu corao, muito mais serenos e lentos do que os dela, sentia o seu cheiro, ouvia a sua respirao, sensaes familiares que lhe proporcionavam 
a segurana desejada. Como era possvel que a sua me, a sua bonita me, esbelta, delicada e frgil, fosse a mesma pessoa irreconhecvel que engolia comida como, 
como.
91
Comeou a tremer violentamente, to aflita com os seus prprios pensamentos como pela cena que acabava de presenciar.
- Caspar. - enquanto sussurrava o seu nome
abriu os olhos e contemplou o seu rosto com aflio; abraou-o com fora e comeou a beij-lo com fora e paixo.
Caspar hesitou durante um segundo, mas, como se entendesse o seu anseio, devolveu-lhe os beijos com a mesma nsia e, como homem que era, apesar de saber que o que 
a movia era a necessidade emocional e no o desejo fsico, comeou a excitar-se e elevou as mos para rodear-lhe os seios.
- Meu Deus, Livvy - disse- lhe com voracidade. Ests to boa que podia comer-te. 
Com-la!
Olivia ficou rgida, arrancou os lbios dos dele e sentiu nuseas no estmago.
A palavra comer" fazia-a lembrar das imagens horrveis que tentava apagar da sua mente, imagens essas em que a sua me se entregava a uma verdadeira orgia alimentar, 
uma pardia de prazer sexual que lhe proporcionava uma libertao fsica, uma libertao de qualquer forma de controlo emocional.
- Livvy, que aconteceu? - perguntou Caspar. Continuou a abra-la, acariciando-lhe os seios e deslizando com suavidade os polegares sobre os mamilos. Olivia estremeceu 
com desagrado e empurrou-o. Era o amor de Caspar que queria, o seu apoio, o seu consolo, no sexo.
- Vamos voltar para a cama - sussurrou Caspar.
- Voltar para a cama! - Olivia abriu os olhos e o sentimento de alvio que experimentara ao estar nos
92
seus braos foi substitudo por ressentimento e decepo. - Caspar, como  que podes dizer isso?perguntou. - A ltima coisa que me apetece agora  sexo. a ltima. 
Viste a minha me, viste-a. - voltou-lhe as costas e comeou a dar voltas pela cozinha, enquanto Caspar arqueava as sobrancelhas.

Deveria ter adivinhado, pensou Caspar, deveria estar preparado, mas acreditou que Olivia era diferente. Porm, ali estava ela, deixando evidente que, apesar de tudo 
o que dissera acerca da relao de ambos, na hora da verdade, a sua famlia, os seus pais e as outras pessoas eram muito mais importantes para ela do que ele.
Olivia no tinha conscincia do que Caspar estava a pensar nem do efeito que produzira nele ao empurr-lo. Muito menos imaginava os velhos sentimentos de infncia 
de no ser suficientemente bom, suficientemente querido; que tinham voltado a surgir no seu ntimo. Pelo contrrio, absorvida como estava no seu prprio sentimento 
de surpresa, desagrado, medo e culpa, disse-lhe:
- Esta manh, quando entrei no seu quarto, estava rodeada de sacos de lojas, todos eles repletos de roupa envolta em papel de seda, tudo intacto. No eram apenas 
dois ou trs sacos, eram dezenas, por toda a parte, e o cheiro. - estremeceu ao recordar o odor fedorento, nauseabundo, que impregnava o quarto dos seus pais. - 
Devia ter-Lhe dito algo, devia ter feito alguma coisa.
- Como por exemplo? - desafiou Caspar. -  evidente que a tua me tem um problema de dependncia, Olivia: Fartar-se de comer, de comprar ou de fazer amor so diferentes 
formas do mesmo problema. Trata-se de uma necessidade compulsiva, uma nsia
93
insacivel de preencher um vazio que nunca pode ser colmatado com o objecto que gera a dependncia.
- Mas devia ter imaginado. Devia ter feito alguma coisa - protestou Olivia, com a voz embargada pelas lgrimas de pena e compaixo pela sua me.
Como um adulto que acaba de perceber que falta uma criana, ela sentia-se culpada, indefesa, triste e zangada com a necessidade de resolver o problema.
- O qu? - perguntou Caspar novamente uns instantes depois, j com as emoes mais estabilizadas, pelo menos assim parecia.
Ao contrrio dela, Caspar no parecia muito afectado com o problema da sua me, pensou Olivia. Claro que Caspar, como j tinha percebido, era um
tanto imperturbvel, quase insensvel e podia refu giar-se por detrs de um muro sempre que queria.
- O instinto de proteco - foi o nome que lhe deu, numa ocasio em que ele e Olivia falaram sobre isso. - Todas as pessoas precisam disso.
- No sei, alguma coisa - respondeu Olivia, enquanto o observava. - Deve haver algo que eu possa fazer para. para ajud-la - balbuciou ao ver o cinismo reflectido 
no rosto de Caspar.
- Que poderias fazer? - gozou. - Eu diria que a tua me est h muitos, muitos anos a sofrer desta dependncia. Claro que precisa de ajuda, mas de ajuda profissional. 
O que ests a fazer agora - acrescentou com nfase, enquanto apontava para o cho repleto de desperdcios que Olivia estava a recolher.
- Apenas ajuda a que ela continue a fazer o que faz. Na verdade, ests a anim- la para que continue.
- No, isso no  verdade - contraps Olivia, ma goada. - S estou a limpar para se, por acaso.
94

- Se por acaso o qu? - desafiou Caspar. - Se por acaso algum se aperceber do que est a acontecer? No achas que o teu pai j deve saber? Talvez tenha fechado 
os olhos, mas a cena que presencimos no  mais do que uma entre muitas - quando Olivia mordeu o lbio, ele insistiu na sua ideia, enquanto continuava a apontar 
para o cho. - A melhor maneira de ajudar a tua me no  encobri-la nem proteg-la, mas sim obrig-la a enfrentar a realidade e a procurar ajuda profissional.
- Mas Caspar, tu viste-a, era. .
- Uma dependente - repetiu Caspar, implacvel. Pra para pensar numa coisa, Olivia. Se tivesses descido at  cozinha e tivesses visto o teu pai rodeado de garrafas 
vazias de lcool, estarias disposta a recolher tudo e a ajud-lo a esconder o que faz? No percebes? - perguntou. - A natureza da dependncia  a mesma. O que distingue 
 apenas a substncia, -o padro de comportamento ao qual a tua me se escravizou para esquecer-se da realidade, da vida.
- No quero continuar a falar disto esta noite - interrompeu Olivia. - No posso. Amanh  a festa e no. - fechou os olhos e tentou reprimir a onda de pnico que 
a ameaava. Era ridculo saber que a descoberta a superava, que no queria enfrent-la. Mas algum teria de faz-lo. Desde quando se comportava assim? Ser que mais 
ningum tinha visto, percebido. ouvido que era sem dvida um grito de um pedido de ajuda, um gemido silencioso de uma alma torturada? E Caspar no estava a ajud-la. 
Porque  que no se mostrava mais tolerante, mais compreen sivo? Como  que no conseguia compreender que ela se sentia culpada por ter seguido em frente com a
95
sua vida sem estar consciente do que acontecia na sua prpria casa?
Quando chegaram ao cimo das escadas, quase que foi um alvio voltar-se e revelar:
-  melhor que eu durma no meu quarto, por. se
por acaso.
- Se por acaso o qu? - desafiou Caspar, com azedume. - Se por acaso a tua me precisar de ti? - moveu
a cabea. - Ests a entrar num beco sem sada, Olivia - avisou-a. Mas Olivia girou a cabea com rebeldia e limitou-se a oferecer-Lhe a face para que ele a beijasse,
mantendo assim a distncia entre os seus corpos.
No se apercebia do quanto estava triste, de como
estava surpreendida, do quanto precisava que ele estivesse do seu lado que lhe demonstrasse que a compreendia, que se preocupava? Por acaso no podia deixar de lado 
os seus princpios e aproximar-se dela, em
vez de esperar que Olivia desse o primeiro passo?
- Para ti  muito fcil julgares a minha me e dizeres o que  que ela deve fazer - disse-lhe, com um
tom cansado. - Mas estamos a falar da minha
me... Deixa,  intil - moveu a cabea, demasiado
exausta emocionalmente para continuar a discutir
com ele, apesar de esperar que, enquanto ele subia as
escadas, desse meia volta e voltasse a aproximar-se
dela. Mas, claro, no o faria... no o fez.
Ah, no, os seus princpios eram demasiado importantes. Mais importantes, de facto, do que o que
ela sentia... do que ela prpria.
96
Cinco

Ruth abriu os olhos cuidadosamente e inspirou o ar com um suspiro de alvio. O meteorologista tinha acertado; ia estar um dia bom.
Tinha deixado as cortinas abertas e conseguia ver o claro e lmpido azul do cu ao amanhecer, que j comeava a ser dourado devido  fora do sol nascente de Vero.
Sentou-se na cama e comeou a trautear uma das suas canes religiosas favoritas, no que fosse uma pessoa especialmente catlica, mas porque, por viver to perto 
de uma igreja em que cantava um dos melhores coros do estado, tinha-se acostumado a ouvi-los cantarem e aquela cano alegre parecia-lhe apropriada para comear 
um novo dia.
Claro que o tempo no a preocupava especialmente, para alm do efeito que poderia ter nos seus arranjos florais. Mas era importante para Jenny e Jenny era importante 
para Ruth, muito mais do que o que a prpria Jenny imaginava. Na realidade, no fundo do seu corao, tinha por ela o mesmo afecto e carinho que a uma filha, se a 
tivesse tido.
O seu rosto ensombrou-se ligeiramente enquanto
97
caminhava descala pelas tbuas enceradas do quarto, cuja intensa cor escura era interrompida aqui e ali por tapetes macios.
Ruth sabia que o seu irmo, Ben, iria ficar zangado com ela por andar com os ps descalos e com o corpo nu, um corpo que talvez j no fosse a viso mais bonita 
do mundo, reconhecia com ironia. Afinal, j estava quase nos setenta mas, graas a Deus, nos seus ltimos anos de vida no tinha de estar limitada pelos preconceitos 
e pelos desejos dos homens da sua famlia. Sim, preferia dormir como Deus a trouxera ao mundo em vez de usar uma camisa larga que a sociedade considerava apropriada 
para uma mulher de sua idade, e por isso iria continuar a faz-lo.
Nem sempre tinha desfrutado daquele gnero de liberdade, nem de perto, e talvez por isso a valorizasse ainda mais.
Enquanto jovem, os seus pais vigiaram de perto o seu comportamento, em particular, o seu pai; ele tinha ideias muito antiquadas acerca do modo como uma jovem devia 
ser educada e da forma como devia comportar-se. Ruth parou a caminho da casa de banho, com o claro e brilhante azul dos seus olhos ensombrado pela tristeza. Enquanto 
jovem, muitos homens tinham ficado cativados pelo brilho e vivacidade dos seus olhos. Mais do que um tinha chegado a declarar-se a ela, mas foram tempos trgicos, 
em que os jovens que estavam a chegar  maturidade estavam tambm quase a alcanar a morte, pois iam para a guerra sem saber se sobreviviam, e por isso.
Tinha coisas melhores para pensar naquela manh
98
do que no passado, pensou Ruth energicamente, enquanto entrava dentro da banheira. Iria ocupar quase toda a manh a fazer os arranjos de flores para a festa, se 
tudo corresse conforme tinha sido planeado.

Pieter chegaria em menos de uma hora. Ruth tinha combinado encontrar-se com ele em Queensmead, o que o pouparia de transportar as flores at  manso e correr o 
risco de as estragar. E, sem dvida, quando chegassem, Ben estaria preparado para se queixar e para protestar. Ruth e o seu irmo mais velho nunca tinham concordado 
em muitas coisas. Ele lembrava-lhe muito o seu pai. Por outro lado, Hugh agradava-lhe mais.
Os filhos de Ben eram seus sobrinhos, mas gostava de Jenny, a mulher de Jon, mais do que de qualquer outra pessoa. E, em relao  outra gerao, nunca escondera 
a sua averso para com Max, apesar de ele ser o preferido de Ben... apesar ou por isso mesmo. Nem mesmo o facto de ele ser filho de Jenny fazia com que ganhasse 
a sua simpatia, mas tanto Olivia como as gmeas tinham todo o seu afecto. Em relao a Joss, o nome era a nica coisa que tinha em comum com o seu bisav. Uma me 
no podia ter um favorito, mas uma tia-av no tinha esse gnero de restries.
Esperava com ansiedade as visitas inesperadas de Joss, que quase sempre aparecia  porta da sua casa com um pequeno e estranho presente. Estranho para as outras 
pessoas, claro. Ela no via nada de estranho nas pedras lisas que encontrava no rio neni nos fsseis que uma vez encontrou numa das suas viagens pelo campo; nem 
o porco-espinho que salvou uma vez nem a ninhada de gatinhos, que encontrou abandonados e quase afogados dentro de um saco na lagoa. O porco-espinho recuperou e 
ficou a viver no jardim das traseiras; os gatinhos sobreviveram e acabaram por viver em casas diferentes; e as pedras lisas e os fsseis ocupavam um lugar de honra 
numa das
estantes do velho escritrio. Ruth recusou-se a recolher a cria de raposa, pois acreditava que ela teria melhores cuidados num refgio de animais, mas foi visitar 
o lugar com Joss e acompanhou-o quando fi nalmente soltaram a cria, j recuperada.
Ruth acompanhava-o nos seus longos passeios pelo campo e ela partilhava o seu conhecimento sobre aquela zona e a sua histria. Joss era o seu elo com o futuro, da 
mesma forma que ela era o elo do pequeno com o passado. Sem saber como, entre os dois existia um lao que os unia, como Ruth nunca se tinha sentido unida a nenhum 
membro da familia.
A Ben no lhe agradava aquela amizade e Ruth sabia que, por Joss ser um primognito, no poderia se guir as suas prprias vontades e desejos. No sabia se havia 
de rir ou de chorar por saber que, de todos eles, Joss seria o que mais facilmente satisfaria os desejos e as ambies do seu pai.
O Direito no era para o rapaz uma profisso im posta, mas sim uma vocao. Durante um dos passeios pela cidade, Joss tinha-lhe ensinado imensas coisas sobre a importncia 
que os romanos tiveram na sua civilizao e centrara-se no, como teria feito qualquer outra criana na sua destreza combativa nos seus feitos ou nos seus progressos 
tcnicos, mas sim nas suas leis.
Ah, sim, Joss era um Crighton e, embora ainda em potncia, era j o melhor de todos eles.
100
Olivia tambm era uma Crighton, claro, mas no mundo de Ben, as mulheres Crighton no contavam para nada.
Ela tambm sonhou um dia em exercer a profisso. Sem dvida, tinham sido tempos muito mais difceis, mas j naquela altura era uma jovem inteligente que se props 
a ter um lugar na universidade. Infelizmente, a guerra mudou tudo. Quando Ben ingressou na aviao, ela teve de limitar-se a ajudar o seu pai, tanto no escritrio 
como em casa.

Sim, o seu pai precisou dela durante esses anos turbulentos. Mas, quando a guerra terminou, tudo mudou para Ruth porque...
Moveu a cabea com energia. Que se passava? No servia de nada pensar no passado, no podia alter-lo. No havia meio de voltar atrs, mas ao ver Jenny no cemitrio 
no dia anterior, ajoelhando-se em frente  campa do seu primeiro filho...
Lembrou-se da sua expresso ao abandonar o cemitrio. No Outono, Ruth e Joss tinham plantado lrios brancos  volta da campa.
- O branco  bom para os bebs - comentou Joss com firmeza enquanto fazia os buracos.
Tambm plantaram outras flores ao redor do jazigo familiar e debaixo do monumento em honra dos homens mortos na guerra. O noivo de Ruth era um deles. Conheceu-o 
atravs de Ben, porque ambos se tinham formado como pilotos de combate. Charles foi morto em Frana; primeiro foi dado como desaparecido e depois como morto. Era 
fillho nico e os seus pais nunca conseguiram recuperar a sua perda.
Charles... J apenas se lembrava do seu rosto e, mesmo assim...
101
Os sinos da igreja anunciaram a hora e Ruth apressou-se a terminar o duche. No seria correcto deixar Pieter  merc de um dos ataques de mau humor de Ben.
Jenny tambm acordou cedo e, como Ruth, suspirou com alvio e deu graas aos poderes celestiais pelo cu azul e pelos raios dourados do sol da manh.
Ao seu lado, Jonathon ainda dormia, embora no muito suavemente. Ele acordara-a duas vezes durante a noite por sonhar alto, coisa que fazia sempre que algo o preocupava. 
Jenny s tinha entendido o nome do seu irmo intercalado nos seus murmrios tristes. No era estranho, mesmo nada, que a sua preocupao para com David fosse o que 
perturbava o seu sono.
Enquanto contemplava o rosto adormecido de Jo nathon, sentiu uma onda arrebatadora de afecto e
amor. Com muita suavidade, inclinou-se sobre ele e beijou-o, sem saber se devia sentir-se aliviada ou triste por ele continuar a dormir.
Em momentos diferentes do seu casamento, tinha-se enfurecido e indignado ao ver como o seu marido colocava sempre David  frente de tudo, apesar de saber que era 
uma reaco involuntria que o pai dele lhe tinha incutido desde que nasceu. Afinal, ela mesma tinha testemunhado a relao que existia entre David e Jonathon, no 
s como mulher de Jon mas, ao princpio, como namorada de David.
Namorada de David. Como estava iludida e apaixonada aos dezasseis anos quando David a convidou para sair pela primeira vez.
102
Algum tempo depois, descobriu que ele apenas o tinha feito por engano, j que ele pretendia convidar uma das suas colegas de turma. Mas, depois de ouvir o rumor 
que ela pretendia rejeit-lo, desviou a sua ateno para Jenny, s porque ela se sentava ao lado da outra rapariga. Quando David lhe contou isto riram-se juntos, 
embora o riso de Jenny estivesse recheado de dor.

Sempre soubera que, em relao ao aspecto fsico, no estava  altura de David, como tambm acreditara, quando ele Lhe contou a verdade, que ele estava realmente 
apaixonado por ela. Ela acreditou nele, pelo menos durante um breve espao de tempo, o suficiente para...
David e ela comearam a sair juntos oficialmente quando Jenny completou dezassete anos e, embora aparentemente a sua familia ter aceite a relao dos dois, ela sabia 
que aos olhos do pai de David, e no da sua me, ela no era suficientemente boa para ele.
Ainda se lembrava das tardes hmidas de Inverno em que assistia aos jogos de rugby de David, com o pai dele junto a ela, apoiando ostensivamente o seu filho enquanto 
aproveitava a oportunidade para falar com Jenny acerca dos planos e esperanas que tinha para ele. Durante essas conversas, Jenny descobriu o brilhante futuro que 
o esperava e que acabaria por o afastar dela.
No fazia sentido que ela, a filha de um fazendeiro de Cheshire, tivesse esperanas em acompanhar David at  universidade. Os seus pais j tinham planeado o seu 
futuro tal como Ben planeara o de David. Assim que terminasse a escola secundria, iria formar-se como recepcionista num dos grandes
103
hotis de Chester. Os seus padrinhos tinham bons contactos e Jenny tinha praticamente o emprego assegurado. Entretanto, continuaria a ajudar na fazenda, onde as 
mos eram sempre insuficientes e no havia lugar para preguias.
Sim, sempre soubera qual seria o desfecho daquela histria, pensou Jenny, e por isso mesmo recusou que David Lhe oferecesse um anel de compromisso para comemorar 
a sua passagem nos temidos exames de admisso de Oxford. Para Jenny, foi um alvio. Sabia perfeitamente quem  que os pais de David teriam culpado, principalmente 
o seu pai, caso ele no tivesse passado.
A noite em que lhe disse, a noite em que fez aquilo que o pai de David esperava que ela fizesse, o que a estava a avisar h meses, ficaria para sempre guardada na 
sua memria. No princpio, David no podia acreditar que tudo tinha terminado, que chegara o momento de se separarem. Depois ficou furioso e, segundo pensava Jenny, 
tambm um pouco aliviado.
David nunca gostara de ser objecto de crticas, pois desejava que o vissem como um modelo de perfeio. Entre o seu crculo de amigos, absteve-se de contar que tinha 
sido ela quem acabara com a relao, e apenas Jonathon parecia suspeitar da verdade e adivinhar que ela o fizera para o bem de David, porque sabia que ele precisava 
de liberdade e que, enquanto estivesse na universidade, ela apenas seria um estorvo e, talvez, at mesmo motivo de vergonha.
Ao contrrio de David, Jonathon no ia estudar em Oxford, embora tivesse boas notas, inclusivamente melhores do que as do seu irmo. Mas no estava
104
previsto que Jonathon subisse s esferas mais altas da advocacia. Ele estudaria Direito, sim, mas a um nvel mais modesto do que David.
Ningum ficou surpreendido quando Jonathon e Jenny anunciaram que se iam casar, mas o nascimento de Harry, que aconteceu sete meses depois do casamento, teria dado 
lugar para muitos mais rumores do que na realidade aconteceram se ele no tivesse tido morte quase imediata.

Nessa altura, ela props a Jonathon o divrcio. Afinal, o motivo pelo qual se tinham casado j no existia, mas Jonathon recusou e disse- lhe firmemente que, para 
ele, o casamento era para toda a vida, e Jenny estava demasiado afectada pela morte de Harry para discutir.
E eles tinham acabado por ter um bom casamento, pensou firmemente, apesar de...
Moveu a cabea e lembrou-se que tinha muitas coisas para fazer e que no podia ficar na cama a remoer o passado. Tinha de ir o mais cedo possvel para Queensmead 
para resolver qualquer problema que pudesse surgir.
Jonathon esperou ter a certeza de que Jenny estava a tomar banho para abrir os olhos. Tinha sentido o beijo e pensou se devia acordar ou no, mas preferiu conter-se 
e fingir estar a dormir, temendo ter que responder  hesitante iniciativa da sua mulher.
No tinha dormido bem, o seu descanso fora quebrado por alguns pesadelos. Num deles, voltara a ser novamente um menino e procurava um livro da escola que tinha perdido, 
consciente de que no o encontraria e que teria de assumir a responsabilidade pelo seu desaparecimento apesar de, na realidade, o livro ser de David.
105
Como um menino, fechou as plpebras com fora
para apagar a memria. Mas no podia continuar a
ignorar certos detalhes que era necessrio clarificar e
que o atormentavam no comeo daquele novo dia. O
 dia do seu aniversrio. No s dele, nunca s dele,
sempre de ambos, de David e de Jon. De David...
Quando o barulho da gua parou, manteve os
olhos fechados, embora soubesse que Jenny iria descer as escadas directamente, sem voltar ao quarto. A
sua mulher tinha trabalhado imenso para organizar a
festa, mas, em vez de a esperar impacientemente, temia-a. Tinha um mau pressentimento, sentia uma nuvem escura, quase fsica.
Do passado chegou o eco furioso da voz do seu
pai durante outra manh de aniversrio, o stimo,
quando Jon foi encontrado com os olhos cheios de lgrimas e de raiva.
- Mas eu no queria uma bicicleta nova... Queria
outra coisa, algo diferente, algo que o David no tenha
- desabafou com o seu pai, com um tom de dor. Ainda
se conseguia lembrar de como o seu pai ficara furioso.
- Tu tens cimes do teu irmo,  isso que se passa - acusou Ben. - Meu Deus, eu no posso acreditar nisto.
Tu no percebes como tens sorte por ter um irmo.
Jonathon, s vezes, no se sentia assim to afortunado e, quando tinha apenas sete anos, tinha sido suficientemente ingnuo para revel-lo, embora de uma
forma indirecta, ao protestar por causa do seu presente de aniversrio, a bicicleta nova escolhida por
David. Ele teria preferido uma pista de comboios.
Cinquenta... Como  que os anos tinham passado?
Que tinha feito com eles? O que guardava de bom de
todo esse tempo? Ultimamente, fazia a si mesmo essas perguntas com uma frequncia crescente, consciente de que no tinha nenhuma resposta satisfatria ou tranquilizadora.

Sim, tinha sido um filho obediente, um bom irmo, marido e pai, mas e ele? Sentia como se apenas se conhecesse, como se no tivesse uma identidade prpria, como 
se estivesse condenado a ser apenas o irmo de David... o gmeo de David, a sua sombra. Mas porque  que, naquela altura, aquela ideia o transtornava tanto, quando 
levou tantos anos a conformar-se que iria sempre estar em segundo plano? Porque sentia uma necessidade crescente de ser algo mais, de fazer algo mais? Seria uma 
simples crise provocada pela idade?
No era o dia apropriado para responder a essas perguntas, pensou Jonathon, cansado, quando ainda restavam outras questes ainda mais perturbadoras para resolver. 
Perguntas que no se limitavam a si prprio, mas tambm  vida de outras pessoas, ao seu futuro. Perguntas que teriam de ser esclarecidas o mais cedo possvel.
Mas no naquele dia...
Em Pembrokeshire, Hugh Crighton tambm acordou cedo. A impossibilidade de continuar a dormir quando os primeiros raios comearam a entrar pelas janelas da slida 
casa de pedra deveu-se, no  ansiedade pela festa que se realizava naquele dia, mas devido ao choro persistente da sua neta mais pequena, Meg.
Saul, o seu filho mais velho, e a sua mulher, Hillary, tinham chegado no dia anterior, ao final da tarde, acompanhados pelas trs crianas, vrias horas
107
depois da hora prevista para a sua chegada. Os dois adultos estavam de pssimo humor e as trs crianas no paravam de reclamar.
Hillary, a mulher americana de Saul, e a sua prpria esposa, Ann, tinham feito a cama para as crianas enquanto ele, Saul e o seu filho mais novo, Nicholas, abriam 
uma garrafa de vinho.
Como Nicholas comentara com os seus pais depois do jantar, Saul e Hillary estavam a atravessar uma sria crise matrimonial.
- Todos os casais tm dificuldades em alguns mo mentos do casamento - disseram ambos, com um tom protector.
- Sim... Mas h problemas e problemas - respondeu Nicholas, recusando-se depois a clarificar melhor a sua afirmao.
Hugh sabia que o casamento de Saul e Hillary atravessara momentos turbulentos, mas era a primeira vez que via as crianas claramente afectadas pelas discusses dos 
seus pais.
Saul tinha tendncia a recolher-se dentro de si mesmo, com uma atitude altiva e desdenhosa quando se zangava, um hbito que irritava profundamente Hillary, que era 
muito mais sentimental e mais in constante. Saul conseguia ser exasperante, Hugh sabia-o, mas Hillary parecia gostar de avivar o fogo daquela faceta da sua personalidade, 
em vez de usar a sua diplomacia e o tacto de mulher para o mudar.
- Ser melhor que Hillary no te oia dizer isto - avisou Ann quando Hugh expressou a sua opinio.  uma mulher moderna e as mulheres modernas no acreditam em mudar 
os homens.
-  verdade - afirmou Hugh com pesar. No 
108
decurso da sua trajectria profissional, tinha sido testemunha de considerveis provas desse defeito das mulheres no conseguirem utilizar us atributos que a natureza 
Lhes tinha oferecido, o que ele lamentava profundamente.

Talvez tivesse uma viso antiquada, mas tinha a sensao de que as relaes entre os homens e as mulheres tinham perdido alguma coisa com a chegada do feminismo. 
Graas a Deus, Ann, tal como a sua me, era uma mulher afectuosa, calada e amvel, das que no queriam nada mais alm de ter muitos filhos e mim-los.
Tinham tido um casamento slido e feliz e, se de vez em quando, as hormonas o tinham levado a virar a cabea ao avistar uma perna de uma mulher esbelta ou a curva 
de alguns peitos bonitos, Hugh sempre tivera o bom senso de se lembrar de que poderia deitar tudo a perder se obedecesse ao seu instinto natural.
A pequena Meg tinha parado de chorar mas j era muito tarde para voltar a adormecer.
Ben esperava-os para o almoo.
Saul tambm ouvira o choro de Meg e levantara-se para acalm-la. Tambm estava a pensar naquilo que o dia lhe reservava. Ele gostava de reunies familiares, mas 
iria manter-se o mais longe possvel de David. A Saul irritavam-lhe solenemente os homens que caminhavam pela vida com tanta despreocupao, to satisfeitos e orgulhosos 
de si mesmos que esperavam que os outros tivessem automaticamente a mesma auto estima e respeito que, no seu caso, tinha recebido do seu pai e do seu av e que, 
obviamente, no merecia.
Sim, David tinha o carisma, a confiana em si mesmo que podiam enganar um novo conhecido
109
mas, na opinio de Saul, a personalidade dele no tinha uma base profunda e real. Mais ainda, ficava triste com o egosmo de David e a sua falta de considerao 
pelos outros. Detestava que as pessoas se deixassem enganar to facilmente pelo charme superficial de David e detestava ainda mais sentir-se ele mesmo ferido por 
causa daquele atributo e, s vezes, reconhecia que tambm sentia cimes dele.
At naqueles momentos, j adulto, ainda se sentia incomodado porque a reaco que David despertava nele fazia-o pensar nos aspectos contraditrios da sua prpria 
personalidade, que ele preferia passar por cima. No geral, era um profissional srio e rendido ao seu trabalho, mas tambm possua uma faceta menos aceitvel, pelo 
menos para ele, uma tendncia para desejar a popularidade, querer ser o centro das atenes e, sim, causar admirao nos outros, uma fraqueza que ele repugnava e 
da qual sentia receio.
No era tanto as diferenas entre David e ele que o faziam odiar David e, at certo ponto, Max, que era o mesmo tipo de homem, mas sim as semelhanas. Temia que 
as fraquezas que encontrava neles fossem uma caracterstica gentica que ele tambm tivesse herdado e que, embora estivesse controlada, algum dia poderia aparecer 
 superfcie e.
E o que o fazia sofrer era que Hillary no se apercebera de nada, no quisera nem era capaz de o amar o suficiente para tentar compreender os motivos da sua averso 
por David.
David acordou tarde, principalmente, porque tinha acordado durante a noite ao ouvir Tiggy na casa de
110
banho. Sabia o que isso significava, claro, e tinha dado meia volta na cama e tapado os ouvidos, para tentar no ouvir o barulho dos seus vmitos.

No princpio do seu casamento, quando acreditou ingenuamente que as constantes nuseas se deviam  gravidez e, depois, ao seu delicado estmago, invadia-o uma mistura 
de impotncia e preocupao, mas aproximava-se de Tiggy com o desejo de a ajudar a reduzir o seu mal- estar, embora o barulho e o odor dos vmitos Lhe revolvessem 
o estmago. Naquela altura, ele amava-a, estava enfeitiado pela sua beleza frgil e pelo sentimento de alvio e triunfo que sentia aps ter-se casado com ela. Triunfo 
por ter conquistado aquela bela mulher e t-la arrancado de todos os homens que a cortejavam em Londres, e alvio porque a gravidez e o casamento deles tinha desviado 
a ateno geral da verdadeira razo pela qual tinha abandonado o escritrio e os seus planos de entrar na Ordem dos Advogados.
Por convenincia e devido a um grande jogo mental, tornou-se parte do folclore da histria da familia. David tinha voltado para casa por causa da sua mulher, do 
seu desejo de fazer a coisa mais honrada e permanecer prximo de Tiggy. Pelo menos publicamente, a sua deciso de abandonar a preparao para entrar na Ordem foi 
vista no como um acaso, mas como um tributo ao seu sentido de honra e de nobreza.
S a familia mais chegada sabia qual tinha sido a verdadeira razo, e at mesmo eles...
Aos clientes tinha dado a entender com delicadeza
que Jon no conseguia dar conta do recado no escritrio da familia e, quando algum lanava o tema para a conversa, David encolhia os ombros com modstia e assegurava 
que no estava muito desapontado por ter abandonado um futuro profissional brilhante, e todos os que o ouviam fazer tal afirmao concluam que um homem que colocava 
o dever e a responsabilidade para com a famlia antes de tudo era, certamente, um homem correcto, honesto e imaculado, no qual podiam confiar os assuntos legais 
mais confidenciais.
O negcio prosperou, e se Jon alguma vez tinha lamentado que o consideravam o menos capaz de ambos, nunca o tinha referido. Mas, claro, Jon no era o tipo de homem 
que costumasse expressar os seus pensamentos e emoes. Quando pensava na rapidez com que se tinha casado com Jenny depois da ruptura deles, sem nunca Lhe ter dito 
nem uma nica palavra sobre o amor que sentia pela antiga namorada dele.
Ficou tenso ao notar que Tiggy se movia na cama. Fingiu estar a dormir, mas ela j estava a esticar o brao para acarici-lo, e deslizava as pontas dos dedos com 
voracidade sobre o seu peito. David ficou espantado, embora soubesse que aquela onda de energia sexual significava que aquele seria um dos seus dias bons.
J conhecia as suas mudanas de humor na perfeio. Obedeciam a um padro fixo e por isso sabia-as de cor. Ficava nervosa durante toda a semana, sentimental, carente, 
exigente, to depressa como furiosa e amargurada, e com tanto ardor em cada uma das situaes que parecia impossvel que o seu corpo frgil pudesse resistir a emoes 
to intensas.
David sabia exactamente o que acontecera: frenticas idas s lojas, compra de roupas, sapatos, 
112

maquilhagem, qualquer coisa que enchesse os bonitos sacos das lojas que nunca chegavam a ser abertos, pois ela escondia-os como sinal de agonia, de culpa e de dio 
para consigo prpria. Ao mesmo tempo, iria humilhar-se diante dele, cheia de remorsos, implorando para que ele a perdoasse, enquanto prometia que nunca mais faria 
aquilo, pedindo-lhe com um tom melodramtico que lhe tirasse o livro de cheques, os cartes de crdito, tudo. Mas porqu?
No passado, tinha jogado o seu jogo, acreditara nela, pensara que ela estava a falar a srio, mas para qu aborrecer-se a destruir um livro de cheques quando sabia 
que ela tinha outros escondidos, e outros cartes de crdito? Claro que tinha de jogar o jogo de acordo com as normas, e no podia dizer essas coisas. Tiggy deveria 
fazer o papel de suplicante envergonhada at ao fim, e no parava de pedir desculpas at ele lhe conceder o perdo que ela exigia.
Depois chegava a calma... s vezes durava vrios dias, outras vezes algumas horas, e logo comeava tudo novamente: ela levantava-se s escondidas da cama a meio 
da noite, desapareciam inexplicavelmente montanhas de comida da cozinha e depois...
A primeira vez que percebeu que os acessos de nuseas no eram causados por nenhuma fraqueza do estmago nem pelo facto de, como sempre pensara, ela apenas comer 
o suficiente para viver, mas sim devido ao consumo indiscriminado de alimentos, ficou estupefacto.
Depois, claro, ela provocava os vmitos e s ficava satisfeita quando tinha esvaziado completamente o estmago. Quando o corpo dela deixava de estar inchado e recuperava 
o seu aspecto esbelto, frgil
113
e delicado, ento, s naquela altura, ficava totalmente aliviada e essas eram horas maravilhosas, em que se sentia relaxada e em paz, como um toxicodependente depois 
de ter injectado uma dose de droga. Ficava satisfeita e serena, at que o ciclo comeava novamente devido  sua necessidade insacivel de se sentir amada. O no 
deixar que ele lhe tocasse porque pensava que tinha um corpo horrvel vinha sempre aps uma necessidade quase doente de sexo.
Ultimamente, o desejo sexual de Tiggy, durante o que ele considerava os seus momentos de loucura, era cada vez mais intenso.
O sexo. Meu Deus, que ironia. E pensar que quando a conheceu, quando se casaram, a tinha desejado tanto.
Agora, apenas a ideia de tocar-lhe, de ser tocado por ela, incomodava-o, como naquele preciso mo mento, e provocava-lhe suores frios de impotncia e de rejeio 
fsica no apenas por ela mas por tudo o que estava relacionado com sexo.
Mesmo tendo conscincia de que rejeit-la s iria acelerar o horrvel ciclo do seu comportamento incontrolado, ele era incapaz de reagir de outra forma. No era 
apenas por no a desejar, era por... o qu? Ela chateava-o, ele odiava-a, culpava-a pela sua infelicidade.
No princpio, antes de entender que aquilo no fazia sentido, que a situao... que no tinha soluo, tentara persuadi-la a procurar ajuda profissional. A reaco 
de Tiggy foi uma tentativa de suicdio. Telefonou-lhe para o trabalho para lhe dizer que depressa estaria livre dela e David foi a correr para casa e encontrou-a 
deitada na cama, nua e bbada, com um frasco vazio de comprimidos ao seu lado. Por sorte, o
114

mdico mostrou-se muito compreensivo, mas isso tinha acontecido h quinze anos atrs e David sabia que uma situao idntica no seria tratada com a mesma discrio 
se acontecesse naquela altura.
Tiggy continuou a acarici-lo at  barriga. David ficou rgido, consciente de que o seu sexo estava e continuaria num estado relaxado.
Debaixo dos lenis, Tiggy movia-se na direco dele, esfregando os seus peitos nus contra o brao de David. Ele fez uma careta. O cheiro a vmito continuava impregnado 
na sua pele, ou talvez fosse o seu suor, pensou enquanto engolia em seco para tentar controlar as suas prprias nuseas. Quando Tiggy se inclinou sobre ele para 
o beijar, o seu hlito cheirava a hortel, mas o que ela ingerira no conseguia esconder totalmente o cheiro azedo das suas actividades nocturnas. A casa de banho 
tambm tinha um cheiro horrvel e, como Olivia estava em casa, no podia usar a outra casa de banho sem correr o risco de levantar suspeitas.
Olivia... sem dvida, fora a sua chegada que precipitara o ltimo ataque de Tiggy.  verdade que ultimamente nem sequer precisava de grandes desculpas, pois qualquer 
coisa lhe servia. Tambm estava cada vez mais preocupada porque estava a envelhecer, e namoriscava descaradamente com homens jovens, comportando-se de um modo completamente 
inadequado para a mulher de um homem com a posio dele. At quele momento, David acreditava que ela ainda no chegara ao ponto de ter uma aventura, mas suspeitava 
que, se tivesse oportunidade...
Uma aventura. Meu Deus, era bom que tal acontecesse. Tiggy encontraria outro homem disposto a aguentar a carga indesejada das suas necessidades fsicas
115
e emocionais, a sua necessidade constante de se sentir querida, as suas acusaes em prantos a acus-lo de que no a amava, que havia outra mulher, que j no a 
desejava.
- Feliz aniversrio, querido...
Em silncio, aguentou a intimidade no desejada do beijo, sem ousar contrari-la ou afastar-se dela e, ao mesmo tempo, ansiando poder faz-lo. Tiggy estava a tocar-lhe 
no pnis naquele instante. Ele fez uma expresso de insatisfao.
- Coitadinho, est to triste - sussurrou-lhe ao ouvido. - No queres brincar um bocadinho?
David cerrou os dentes.
- Est doente ou zangado? - gozou Tiggy. - Queres que a mam o acaricie e lhe d um beijo para lhe aliviar o sofrimento?
David tremeu com violncia, devido ao sentimento de rejeio e de averso.
- Precisamos de levantar-nos - lembrou. - O aniversrio...
- Pensava que era isso que estava a fazer - respondeu Tiggy, fazendo beicinho, mas David j se ti nha afastado dela e mandado o edredo para o cho.
- Ontem  noite disseste que ias ajudar Jenny - recordou-Lhe, enquanto vestia o roupo.

David comeava a estar velho e cansado, pensou Tiggy. Acabara de acariciar o seu flcido e pequeno pnis e isso no era nada ertico. Ao contrrio dela, no estava 
preocupado em cuidar do seu aspecto fsico, para continuar magro e em forma. Tiggy acariciou o seu estmago. Graas a Deus, estava firme e liso. Suspirou com alvio 
e examinou as suas unhas pintadas. Tinha um arranho numa delas. Fez uma
116
careta. Devia t-lo feito na noite anterior, quando... Imediatamente afastou aquele pensamento.
O que tinha acontecido na noite anterior? No queria nem precisava de pensar naquilo durante o dia. J passara e agora o melhor era esquecer... Tratava-se de um 
hbito tolo e mau, que adquirira desde jovem mas que podia largar assim que quisesse. David sabia disso e ela tambm. Sabia que no tinha sido muito sensata ultimamente, 
gastando mais do que era necessrio, mas David no percebia como por vzes ela se sentia aborrecida. Ele passava todo o dia no escritrio, mas ela ficava em casa, 
sozinha.
Sim, tinha amigas... mas ela no era como Jenny, o gnero de mulher que se entregava s obras de caridade, s crianas e  cozinha. Precisava de algo mais. David 
deveria lev-la a jantar fora mais vezes, devia dar-lhe mais ateno, demonstrar que ainda a desejava. Tinha quarenta e cinco anos, mas continuava a ser bonita e 
desejvel. Sim, Olivia era mais jovem que ela, mas nunca seria to atraente. Com a idade de Livvy ela podia ter quantos homens quisesse, mas j se tinha casado com 
David e j era me.
O vestido para a festa estava pendurado na porta do quarto. Era um vestido justo, em tom prateado, que parecia ter milhares de prolas quando ela se movia. Era mesmo 
o seu nmero e assentava-lhe como uma luva. Voltou a tocar no seu estmago. Ouviu o barulho da gua. David ainda estava a tomar banho. Talvez fosse melhor experiment-lo 
novamente, para ficar tranquila.
117
Seis
- Posso ajudar em mais alguma coisa?
- No. Parece-me que j terminmos - disse Ruth a Olivia, enquanto dava um passo atrs para contemplar o arranjo da mesa principal e compunha algumas flores com 
ar pensativo.
- As flores so muito bonitas.
Ruth dirigiu um olhar carinhoso a Olivia, deixando a sua sobrinha feliz. Notava na voz dela uma admirao genuna e sabia qual era o motivo.
- E o que esperavas? - brincou. - Algo espalhafatoso e pomposo, flores to tesas que iriam parecer mais artificiais do que naturais, coitadinhas? - moveu a cabea, 
em sinal de repreenso.
- Algo desse gnero - Olivia desatou a rir. - Certamente, no esperava nada como isto.
Apontou para a espectacular cascata de flores naturais, feita numa base de argila rodeada com musgo... um tema que Ruth tinha utilizado para enfeitar toda a tenda, 
mas de diferentes modos. Usara musgo, frutas e at mesmo legumes, alm de flores para criar as cascatas de cores maravilhosas que Olivia estava a admirar.
- No  de estranhar que a tia Jenny tenha insistido 
118
na cor creme para a tenda - disse a Ruth, enquanto tocava com suavidade numa ptala de uma das papoilas que Ruth utilizara para criar harmoniosos arranjos de vermelho, 
laranja e amarelo.

No extremo oposto da tenda, Jenny estava a confirmar todas as msas, de forma a ter a certeza de que tudo estava em ordem. Os empregados de mesa j tinham chegado 
e estavam a organizar-se.
Ben, que passou a tarde inteira a refilar, tinha consentido finalmente que Ann, a mulher de Hugh, o convencesse a entrar em casa.
- Parece que Caspar est a dar-se bem com Hillary - comentou Ruth, e olhou para o lugar da tenda onde os dois estavam a conversar alegremente.
- Bom, ambos so americanos - respondeu Olivia, com neutralidade. Nunca gostara muito de Hillary, apesar de no saber exactamente porqu.
Era Saul quem estava a tomar conta das crianas naquela tarde, incluindo da pequena Meg mas, para falar a verdade, no sabia exactamente quanto tempo Saul normalmente 
dedicava aos seus filhos. Talvez no muito, e da a vontade de Hillary descansar um pouco naquela ocasio.
Saul levara os pequenos para casa, para dar-lhes banho e prepar-los para a festa.
O irmo de Olivia, Jack, e o seu primo, Joss, estavam a ajudar, um pouco contrariados, a levar e a trazer as flores e os outros materiais. Estaria Jack consciente 
do problema da sua me?
Olivia tentou durante o dia inteiro apagar da sua mente o que acontecera na noite anterior, mas no podia ignorar o problema eternamente. Mais cedo ou mais tarde, 
teria que... teria que... Ficou tensa ao ouvir
119
o riso de Caspar. Hillary estava de p ao seu lado, com a mo apoiada no seu brao forte, e enquanto Olivia os observava, ela inclinou- se para lhe colocar uma rosa 
no bolso do casaco. Era um gesto ntimo, o que incomodou Olivia. Ela estava tensa ao ver como Caspar estava to entretido com Hillary que nem, aparentemente, notava 
a presena de Olivia.
- Por que motivo no vais com Caspar para dentro de casa? - sugeriu Ruth. - Aqui j s falta apanhar os restos de flores, e as crianas podem ajudar-me.
- Tia Ruth... - Olivia fez uma pausa. Queria poder confiar em algum e contar a sua preocupao com Tiggy e a surpresa pelo que tinha descoberto, mas, apesar dessa 
necessidade ser bastante intensa, a lealdade para com a me era mais forte. Tiggy nunca tinha tido a aprovao de Ruth, e se Olivia Lhe con tasse o que acontecera...
- Que aconteceu, querida?
- Nada... - mentiu Olivia. - Vou buscar Caspar.
- As flores j esto prontas? - perguntou Caspar quando Olivia se aproximou.
- Sim - confirmou, enquanto o agarrava pelo brao e dirigia a Hillary um sorriso frio.
A mulher de Saul tinha ido at  tenda para ajudar, pelo menos foi isso que disse, mas pelo que Olivia vira ela tinha dedicado a maior parte do tempo a falar com 
Caspar.
- Temos de ir - avisou Caspar, enquanto confirmava as horas no relgio de pulso. - Os parentes de Chester vo chegar daqui a pouco e eu prometi  minha me que ns 
estaramos em casa para ajud-la.
120

- Coitadinho - disse Hillary com um tom de compaixo, enquanto se aproximava de Caspar com um ar de cumplicidade que exclua Olivia. - Deve sentir-se um pouco intimidado, 
no meio de tantas caras novas. Foi o que me aconteceu na primeira vez que conheci a familia. Senti-me afastada e sozinha... era a nica americana, uma espcie de 
intrusa.
- Est a referir-se ao dia do seu casamento com Saul, no  verdade, Hillary? - interrompeu Olivia com indiferena. - Pelo que sei, no quis conhecer antes a famlia, 
no foi? Caspar, temos de ir - repetiu, sem esperar a resposta de Hillary.
- Foste um bocado bruta, no te parece? - criticou Caspar mal entraram no carro e Hillary j no os podia ouvir.
Estava um pouco tenso e irritado e ainda bastante magoado pela rejeio sexual de Olivia na noite anterior, apesar de odiar reconhecer isso.
- Quando? - perguntou Olivia, embora soubesse exactamente ao que ele se referia.
O dia j tinha sido bastante cansativo pelo facto de ter de deixar tudo pronto para o jantar, para j no falar da preocupao e angstia que estava a suportar por 
causa da sua me. A ltima coisa que precisava era de quebrar a harmonia entre Caspar e ela. Mas estava furiosa por ele no se ter apercebido do tipo de mulher que 
era Hillary e, sinceramente, tambm estava magoada por Caspar ter passado grande parte da tarde na companhia dela. Alm disso, ainda guardava uma certa amargura 
por ele no ter sido mais compreensivo com ela na noite passada.
- Tu sabes quando - respondeu Caspar, enquanto ela arrancava com o carro. - Mesmo antes de deixarmos Hillary.
121
- Pareceu-te que fui bruta? - desafiou Olivia, que aumentou a velocidade como forma de descarregar a sua crescente irritao. - A mim no me pareceu, Caspar. E, 
se queres que te diga a verdade, at acho estranho que Hillary tenha feito aquele comentrio mas, claro,  o tipo de mulher que nunca desperdia a menor oportunidade 
para captar a ateno de um homem que ela julga estar disponvel.
- Ah! - exclamou Caspar, enquanto o seu rosto ficava mais relaxado e logo surgiu um sorriso brincalho. - J percebi. Ests com cimes e.
- No, no estou com cimes - negou Olivia, mal-humorada. -  que eu no gosto nem um pouco de Hillary,  s isso.  uma mulher fria e calculista e demasiado.
- Demasiado americana - terminou Caspar por ela, com a voz mais dura e o semblante repentina mente srio. - No me admiro que se sinta s e excluda se  deste modo 
que a tua familia a trata - continuou Caspar, com a voz carregada de desprezo.
- Ela disse-te isso, que se sente excluda? - perguntou Olivia, j perto de perder a cabea. Sabia que estava a lidar mal com a situao, dando-lhe mais importncia 
do que merecia, mas ainda tinha os nervos  flor da pele pelas descobertas da ltima noite.

- Bom,  verdade que falmos do quanto est a custar-lhe adaptar-se ao modo de vida deste pas - confirrmou Caspar, num tom de voz que indicava que ela no era a 
nica que estava a perder a pacincia. Mas Olivia estava muito tensa, sentia necessidade da compreenso que Caspar tinha sido incapaz de lhe transmitir no dia anterior, 
mas, aparentemente, Hillary tinha recebido toda a sua compreenso naquela tarde, a julgar pelas suas palavras.
122
- Ah, sim? - perguntou Olivia, com raiva. - Pois deves ter-te mostrado muito compreensivo, tendo em conta a forma como te tocava - atirou. - Certamente, muito mais 
compreensivo do que comigo ontem  noite. Claro que, por serem do mesmo pas, so muito mais compatveis - concluiu com sarcasmo.
- No h dvida de que  um lao - afirmou Caspar calmamente. - E devo dizer-te, Livvy, que Hillary est a ser muito mais responsvel em relao  ruptura iminente 
do seu casamento do que tu com.
- Ruptura iminente do casamento dela? - interrompeu Olivia, surpreendida. - Do que ests a falar? No h problemas no casamento de Saul e Hillary. Na realidade.
- Ah, no? - respondeu Caspar, em tom de desafio. - Como  que sabes? De acordo com Hillary, nenhum de vocs fez o menor esforo para a acolher na famlia nem para 
descobrir por que  to infeliz. Nem mesmo para ajud-la a adaptar-se a um estilo de vida diferente.
Olivia notou que estava a tremer ligeiramente enquanto seguia o caminho da casa dos seus pais. Parou o veculo j perto da entrada.
- Eu no posso acreditar no que estou a ouvir! Sim, Hillary pensa que ns no lhe prestamos qualquer ateno, mas a mim parece-me que  mais culpa dela do que nossa. 
Que mais te disse ela? - perguntou.
- No muito mais, alm de que h outros antecedentes na famlia de antagonismo e averso para com os americanos.
- O qu? - Olivia olhou-o com incredulidade. - J percebi que passou a tarde a mentir-te. Pode-se saber em que  que ela se baseia para dizer isso? No  
123
verdade. Ela foi a primeira pessoa do teu pas que se casou com algum da minha familia...
- Que se tenha casado, talvez. Mas no a primeira que manteve uma relao com um membro da famlia - interrompeu Caspar, com um tom grave. - Ruth teve uma aventura 
com um comandante americano durante a guerra e...
- Ruth teve o qu? - Olivia no conseguiu esconder a surpresa e viu que Caspar se apercebeu disso.
-  melhor entrarmos - murmurou, enquanto se voltava para abrir a porta do carro.
Olivia deteve-o, agarrando-o pela manga, com os olhos brilhantes de fria e dor enquanto lhe gritava:
- Ah, no, no podes ir- te embora depois de me dizeres uma coisa dessas. Eu no sei nada de ne nhuma aventura da minha tia Ruth com um americano. Durante a guerra, 
ela estava comprometida com um piloto britnico, que morreu em servio.
- Bom, de acordo com Hillary, que ouviu a histria da boca de Hugh, Ruth saiu com um comandante americano que estava destacado aqui, at que o seu pai descobriu, 
denunciou-o ao superior e no descansou at acabar com a relao. Ao que parece, um americano, pelo menos naquela altura, no era suficientemente bom para se casar 
com um membro da familia. E Hillary diz que esse tipo de preconceito tem passado de uma gerao para a outra.

Horrorizada e confusa, Olivia no conseguiu pensar em nada inteligente para dizer. J era terrvel ter de reconhecer que no sabia nada sobre a relao da sua tia- 
av com um americano, mas o pior era sentir a barreira de dvida e de desconfiana que se tinha erguido entre eles. Caspar parecia acreditar que a sua familia
124
desprezava os americanos. Tambm era preocupante que ela no pudesse negar esse facto, de forma a desfazer os danos que Hillary j tinha provocado.
- Mas j sabes o que sinto por ti, Caspar - disse baixinho. Foi a nica coisa que Lhe ocorreu dizer enquanto tocava no seu brao de forma suplicante.
- Ser que sei? - respondeu, implacvel. - Eu pergunto-me se no estars a namorar comigo por eu ser americano e assim podes vingar-te do teu av.
Sem dar-lhe oportunidade para responder, Caspar abandonou o carro e dirigiu-se rapidamente para casa. Olivia no teve outra hiptese seno segui-lo. Sabia que, uma 
vez l dentro, no teriam oportunidade para falar em privado, porque em breve a casa estaria repleta de convidados e a festa comearia dentro de algumas horas. No 
entanto, desejava resolver a situao e fazer as pazes com ele. Queria convenc-lo a esquecer aquela acusao injustificada sobre a origem dos seus sentimentos por 
ele.
Era injusto e ilgico que Lhe lanasse uma acusao daquela natureza e que se fosse embora sem lhe dar a oportunidade de se defender. Quase parecia que queria discutir 
com ela. Mas porqu? Aquilo no tinha nada a ver com ele, estava to longe da maturidade e da moderao que tanto admirava nele.
Desanimada, Olivia seguiu-o at ao interior da casa. Nas suas costas, na entrada, ouviu o barulho de vrios carros a aproximarem-se... era a familia de Chester, 
sem dvidas! Encolheu os ombros e deixou de lado os seus prprios medos e preocupaes.
125
Sete
Com um certo nervosismo, Jenny alisou o vestido. Jon ainda no o vira. Na realidade, a nica pessoa que o tinha visto era Guy Cooke.
No princpio, brincou com o assunto, mas ficou comovida quando Guy anunciou, h vrios meses atrs, que a levaria a Manchester comprar um vestido para o baile de 
aniversrio.
- A Manchester? - perguntou Jenny, meio inclinada a dizer que no, sem saber se ele estava a falar a srio ou se ela estava a ser objecto do seu sentido de humor, 
s vezes irnico e malicioso. - Porqu? Chester  muito mais perto e...
- Pode ser que Chester seja muito mais perto, mas no tem uma loja Emporio Armani - respondeu, e es clareceu a sua evidente confuso, explicando-Lhe, como se tentasse 
que uma criana percebesse algo complicado. - Armani, minha querida Jenny, se por acaso fores a nica pessoa neste planeta que no o conhece,  um designer de moda... 
o designer de moda por excelncia para a maioria das mulheres elegantes e ricas. Desenha roupas para mulheres, no para rapariguinhas, ou modelos, ou viciadas na
126
moda, mas sim para mulheres com maiscula, e em Manchester h uma loja da sua cadeia.

- Obrigada, Guy - respondeu Jenny, grata. - Sim, eu j ouvi falar dele, mas a tua ideia de comprar um dos vestidos ou at mesmo de olhar para um deles...
- moveu a cabea e riu-se. - O meu oramento no me permite cometer uma loucura dessas.
- Um Armani nunca  uma loucura - corrigiu Guy. - Alm disso,  uma loja para o grande pblico e por isso tem preos bastante acessveis. Se no vieres comigo, irei 
sozinho - acrescentou com determinao. - E vou escolher alguma coisa ao acaso. Estou a falar a srio, Jen - insistiu com severidade. - Tu no vais para aquele baile 
com uma pechincha sem graa que encontraste no ltimo minuto porque no tiveste tempo de comprar mais nada e porque ambos sabemos que, mesmo que o tivesses, no 
gastarias o dinheiro que Jon ganha numa coisa para ti. Por uma vez na tua vida vais usar uma coisa que realmente te faa jus e por uma vez na tua vida, apesar de 
tu nunca colocares as tuas necessidades  frente das dos outros, eu farei com que isso acontea.
Jenny teve que se sentar.
- Mas porqu? - perguntou, sinceramente desconcertada pela intensidade da deciso dele.
- Porque  que tem de haver um porqu? Se eu disser que  porque mereces, vais encontrar uma forma de me desencorajar - disse-lhe com sinceridade. - Por isso vou 
dizer-te que, embora nem tu mesma o reconheas, deves isso no apenas a ti, mas tambm a Jon e  nossa loja e, antes que respondas, digo-te j que o vestido entrar 
nas despesas da loja.
127
No, Jenny, estou a falar a srio - repetiu. - Ou vens comigo ou irei sozinho e.
- E o qu? - brincou carinhosamente. - Vais obrigar-me a vestir o que escolheres ou vais castigar-me, mandando-me para a cama sem jantar?
Era apenas uma piada, mas Guy falou-lhe com suavidade e delicadeza:
- Se em algum momento eu tiver a oportunidade de te mandar para a cama, no ser como castigo e, quanto a obrigar-te a vestir o que eu escolher... Bom, digamos que 
estou disposto a falar com Jon para ter certeza de que ele te obriga a vesti- lo. 
Jenny olhou-o nos olhos com coragem.
Existiram vrios momentos em que o seu instinto de mulher lhe dizia que Guy queria algo mais dela do que uma simples amizade, mas essa era uma ideia que sempre tinha 
descartado imediatamente, pensando que era fruto da imaginao frtil de uma mulher de meia-idade. Nesse instante, soube que tinha cometido um erro ou, melhor, que 
estava certa em relao ao seu instinto.
E, finalmente, eles foram at Manchester, principalmente porque Guy se adiantou e contou a sua ideia a Jon, para obter a sua ajuda.
Jenny acreditava que Jon no fazia grande ideia sobre quem ou o que era um Armani, mas os comen trios de Guy tocaram-lhe num ponto sensvel e recordaram-no como 
se sentira na reunio familiar de Natal, quando Jenny vestiu o mesmo vestido de sempre e Jon sofreu a humilhao de ver como ela estava diferente no s de Tiggy 
mas de todas as outras mulheres presentes, mulheres que no eram mais atraentes do que ela nem mais jovem, mas que se moviam

128
com uma segurana e um orgulho que a ela sempre tinha faltado. At Ruth estava melhor vestida do que Jenny, um detalhe do qual at Joss se apercebeu.
Ao princpio, sentiu-se desconfortvel ao entrar no grande edifcio de King Street, em que se situava a loja de Armani. As empregadas, todas elas impecavelmente 
vestidas e maquilhadas, partilhavam a mesma beleza italiana. Embora se tivesse sentido intimidada pela sua presena, a sua atitude simptica logo a fez esquecer 
de todas as dvidas. Acabou por experimentar roupas que, dez minutos antes, jamais lhe tinha passado pela cabea vestir.
Finalmente, decidiu-se pelo vestido que ia usar no baile, um vestido de cor creme e de estilo simples, com um corpete alto de estilo clssico e uma saia que lhe 
chegava at os tornozelos. Era, como tinha realado a empregada, um vestido desenhado para realar a beleza feminina. Sem um nico adorno e sem se ajustar ao seu 
corpo, realava realmente os seus pontos fortes, de forma subtil. Jenny entendeu isso enquanto contemplava o seu reflexo, surpreendida com o seu prprio aspecto.
Era um vestido que a fazia parecer e sentir mulher, um vestido que reavivava os seus anseios e sonhos de adolescente de ser atraente... anseios e sonhos que tinha 
tido o bom senso de enterrar juntamente com outras recordaes desses anos... Anseios e sonhos que no eram apropriados para uma mulher da idade dela. E, mesmo assim, 
comprara o vestido e o tailleur para o almoo familiar que aconteceria no dia seguinte.
O vestido combinava maravilhosamente com as prolas que Jon lhe tinha oferecido nas suas bodas de
129
prata, que reflectiam a cor creme do vestido e sua textura sedosa. Tentou ganhar coragem enquanto acabava de colocar as prolas.
O telefone estava a tocar quando Olivia cruzou o corredor em direco  sala de estar, onde os familiares de Chester e os seus pais se tinham reunido para tomar 
uma bebida antes de partirem todos juntos para Queensmead. Ela atendeu e pediu para a pessoa esperar um pouco, enquanto ela fosse chamar o seu pai.
- Tens uma chamada - disse- lhe. - Do lar Os Cedros.
David sentiu que comeava a suar e o seu corao batia muito depressa. Estava consciente da tenso que lhe arrebatava o peito e o resto do corpo, e por causa disso, 
sentiu nuseas de medo.
Tinha a palma da mo to suada que foi obrigado a sec-la antes de pegar no auscultador e clarear a garganta.
- Sim, fala David Crighton - a garganta doa-lhe novamente. Acariciou-a com a mo que tinha livre e virou-se de costas para a porta entreaberta da sala de estar, 
enquanto atendia a chamada.
Em cima, no quarto do sto, Caspar fez uma expresso de desagrado enquanto dava o n da gravata e vestia o casaco. No lhe apetecia ir  festa, no s pela discusso 
com Olivia que, na opinio dele, tinha agido mal ao culpar Hillary, apesar de terem sido as suas revelaes a causa da briga.

Caspar notara uma mudana em Olivia nos ltimos dias; de repente, a familia que, antes, quase desprezava, passou a ser de importncia vital para ela.
130
De repente, nem ele nem os seus pontos de vista tinham qualquer valor. Se no, por que razo tinha rejeitado o conselho de procurar a ajuda de um profissional para 
o problema da sua me?
- No importa o quanto possam discutir entre eles porque, no final, defendem-se sempre uns aos outros
- disse-lhe Hillary naquela tarde. - Eles defendem-se e afastam-no - acrescentou com nfase, enquanto lanava um olhar amargurado para onde o seu marido estava. 
- Eu devia ter imaginado isto quando Hugh me contou a histria de Ruth - continuou. Mas naquele momento eu no entendi o que ele me queria dizer, nem percebi que 
Ben tinha pensado em casar Olivia com Saul.
Casar Olivia com Saul! Caspar fez uma careta, sem conseguir entender. Olivia nunca Lhe falara de nenhuma expectativa familiar daquela natureza. Claro que tambm 
no lhe tinha contado que a sua tia- av mantivera um romance apaixonado com um comandante americano a quem, segundo Hillary, tinham pago para que ele a deixasse.
Que outros aspectos da sua familia, dela prpria, no lhe tinha contado?
- Ests como eu sempre achei que poderias estar, que devias estar: maravilhosa, perfeita. Ests. justamente como s.
Como era estranho que aquelas palavras e emoes, pronunciadas por um homem, o homem errado, conseguissem significar to pouco e causar mais aborrecimento do que 
prazer e, por outro lado, se tivessem sido ditas pelo homem certo...
131
Era lgico pensar que seria Guy quem a lisonjearia e elogiaria o seu aspecto, quem a olharia fixamente enquanto ela o cumprimentava e que seria ele a procurar a 
primeira oportunidade para lhe segurar a mo, abra-la e dizer-Lhe o que sentia. Mas, por alguma razo, Jenny esperava de forma tola que...
O jantar terminara e a banda tinha comeado a tocar. Vrios casais j estavam a danar.
- Jenny! Meu Deus, ests...
Jenny ficou tensa ao ver o olhar de Tiggy e o tom critico da sua voz, mas antes que a cunhada pudesse acrescentar alguma coisa, Ruth interrompeu-a com firmeza.
- Ests magnfica, Jenny. Adoro o teu vestido. Era indesmentvel a sinceridade que a voz de Ruth
transmitia e a aprovao que estava reflectida no seu olhar. At mesmo David, que estava um pouco afastado, olhava para ela intensamente.
-  um Armani, no  verdade? - perguntou Tiggy enquanto Jenny quebrava repentinamente o contacto visual que mantinha com David. Era absurdo estar a corar daquela 
forma. David era seu cunhado, nada mais, embora no passado...
- Sim, ... - respondeu Jenny apressadamente.
- Como  que te lembraste de comprar um vestido destes? - insistiu Tiggy. Com os olhos semicerrados, a voz um tanto tremida e o rosto plido, quase como se estivesse 
doente, ela ainda comentou. - No tem nada a ver contigo.
- Me... - advertiu Olivia e dirigiu a Jenny um olhar de desculpas, enquanto afastava Tiggy para outro lado.

Jenny arqueou uma sobrancelha enquanto as via
132
afastarem-se. No era caracterstico de Tiggy ser maliciosa nem mal- educada, e os comentrios dela comeavam a fazer com que Jenny duvidasse da convenincia de 
ter vestido o vestido novo. Talvez Jon no lhe tivesse dito nada, no porque nem sequer tinha notado que ela estava diferente, mas para no criticar o seu aspecto.
- Tiggy est enganada, sabias? - Jenny levantou a cabea ao ouvir a voz de David, que lhe sorria carinhosamente. - O vestido favorece-te e muito.
Muda de surpresa como se fosse uma menina pequena, Jenny limitou-se a permanecer imvel e a mover a cabea.
- Tem cimes de ti,  s isso.
- Cimes de mim? - Jenny olhou para ele, estupefacta. - Impossvel - protestou. - Tiggy ...
-  o qu? - perguntou David, enquanto a agarrou pelo brao e a levou at  pista de dana. Jenny moveu a cabea novamente.
- Eu no posso danar agora contigo, David - disse com voz rouca. - Os empregados...
- Claro que podes - respondeu - Os empregados podem esperar, mas eu no.  to bom abraar-te. murmurou, enquanto a rodeava com os braos e comeava a danar.
Jenny percebeu, sentindo-se impotente, que David no tencionava solt- la e que chamaria menos a ateno danando com ele do que protestando.
Ao contrrio de Jon, David sempre tivera queda para a dana, um dom natural, e ele corou na escurido da pista quando a atraiu para os braos dele.
- O que se passa? - sussurrou-lhe ao ouvido. Antes gostavas de danar comigo.
133
Jon estava em p do outro lado da pista, a falar com Ruth. No parecia t-los visto.
- Esta noite ests maravilhosa - disse David suavemente, enquanto acariciou as costas de Jenny. - Ests maravilhosa e s maravilhosa. Jenny, gostava de no ter sido 
to estpido ao ponto de te ter permitido ir.
- David... - protestou Jenny, quando finalmente recuperou a voz.
- David o qu? - perguntou- lhe com aspereza. O hlito dele cheirava ligeiramente a lcool, e essa deveria ser a razo pela qual ele estava a falar com ela daquela 
forma, concluiu Jenny. - H quantos anos que no danvamos assim, que no nos abravamos assim? - perguntou.
Jon acabara de os ver e, pelo canto do olho, Jenny viu que ele tinha a testa ligeiramente franzida. Max tambm os vira e a sua expresso de desagrado era evidente.
- Sabes o que eu gostava de fazer agora mesmo?murmurou David. - Eu gostava...
- David, temos de voltar para a mesa - balbuciou Jenny, esforando-se por restabelecer a normalidade.
- Ainda faltam os discursos e os brindes.
- E os parabns e os beijos - referiu David, enquanto voltava a cabea para olh-la nos olhos. - Tu ainda no me beijaste, Jenny.
- Mentira - corrigiu. - Dei- te um beijo, quando chegaste.

- No - negou David. - Deste-me um beijo inocente na bochecha, sim, mas ainda no me beijaste. Ainda me recordo da primeira vez em que me beijaste, Jenny. Sabias 
a morangos e a ar fresco...
134
- David... - protestou Jenny, novamente. - J chega.
- Sabias a morangos e a ar fresco - repetiu, sem dar-lhe ateno. - E foi o beijo mais delicioso que alguma vez me deram. Tu eras a mais deliciosa...
Para grande alvio de Jenny, a banda parou de tocar.
- Temos de voltar para a mesa - disse a David, firmemente. O seu corao batia muito depressa e estava corada. Sentia-se... Sentia-se...
A ltima coisa que precisava naquela noite era de
lembrar-se como se sentira h algum tempo atrs
quando estava com David, no como... Quando finalmente David a soltou com evidente aborrecimento,
Jenny voltou depressa  mesa, mas sabia que o estrago j estava feito.
- Ainda recordo a primeira vez que me beijaste dissera-lhe David. Ela tambm se recordava, embora
suspeitasse que as recordaes dela fossem diferentes das dele.
Era verdade que tinha estado a apanhar morangos
e sem dvida tinha as mos e a boca manchadas do
seu suco, mas tinha sido David e no ela quem tinha
 provocado o beijo, David quem a tinha desafiado, dizendo que ela nunca tinha beijado de verdade, exigindo que o fizesse. Ela negou e disse que tinha
muita experincia no assunto.
Jenny tinha deixado a cesta de morangos no cho
e caminhou lentamente at ele, com a cabea erguida, porque o seu orgulho a impedia de voltar
atrs, embora por dentro estivesse apavorada.
135
Desde o ltimo Natal, as outras meninas da turma exibiam a sua mais recente habilidade e descoberta na arte de brincar e, embora ela apenas tenha sorrido e fingido 
indiferena perante aquele novo jogo da qual a tinham excludo, Jenny tinha estudado cada beijo que via nos filmes, desejando ardentemente saber como se prepararia 
quando um rapaz a beijasse pela primeira vez. E quando finalmente tinha chegado o dia, o rapaz no era qualquer menino, mas sim. David Crighton.
Inspirando a maior quantidade de ar possvel enquanto fechava os olhos com fora, enrugou os lbios e esticou o pescoo desesperadamente, para beijar David, mas 
corou de humilhao quando os seus lbios tocaram o ar.
Ao abrir os olhos, viu que David se tinha afastado e estava a olhar para ela com uma expresso divertida, sorrindo de orelha a orelha.
- No tens nenhuma ideia sobre o assunto, no  verdade? - perguntou enquanto movia a cabea.
- Claro que tenho - mentiu ela.
- Mentirosa - advertiu-a suavemente. - Mas no faz mal - acrescentou com um sorriso. - A verdade  que eu gosto da ideia de te ensinar.
- No preciso que me ensines nada - atirou Jenny.
- Ah, no?

Jenny voltou-se com a inteno de apanhar a cesta e ir-se embora, mas David estava  sua frente e colocou-se entre ela e os morangos. Jenny retrocedeu, at que j 
no podia dar mais nenhum passo. David encurralara-a entre o corpo dele e a parede de pedra que tinha atrs de si.
O que aconteceu ento foi, claro, inevitvel. David beijou-a fugazmente nos seus lbios apertados, voltou
136
a beij-la desta vez menos fugazmente e depois... Depois ele inclinou-se para apanhar um punhado de morangos da cesta, ps um na boca e ofereceu- lhe.
Jenny abriu a boca ingenuamente para aceitar. tanto a fruta como o beijo. O destino do resto dos morangos que David deixara na cesta deixou-a a tremer durante semanas, 
de cada vez que pensava naquele momento, embora a sensualidade daquele instante se tenha perdido quando, dias depois, ouviu outra rapariga descrever o truque favorito 
de David: passar doces da sua boca para a de uma rapariga.
Jenny acabou com a boca manchada de morangos, circunstncia que mereceu um raspanete da sua me por ter comido a fruta que queria usar para uma torta mas que, felizmente, 
ao mesmo tempo, a ajudou a esconder os lbios inchados pelos beijos.
Que estranho, nunca mais comera morangos. Passara a ter averso quela fruta.
Pelo canto do olho, Jenny via Jon a mexer-se, desconfortavelmente, na cadeira; os brindes estavam prestes a comear. Apesar do pequeno contratempo quando David insistira 
em danar com ela, tudo tinha corrido como planeado. At Ben elogiara a comida e Jenny tinha perdido a conta do nmero de convidados que se aproximaram para louvar 
a decorao da tenda e as cores dos arranjos florais de Ruth, enquanto abriram os olhos com agradvel admirao ao repararem na sua nova imagem. At os mais jovens 
da familia se tinham comportado de forma exemplar. Ento, porque  que sentia aquele pesar, como um vazio... porque sentia tanta decepo?
137
David estava a levantar-se enquanto o empregado garantia que todos tinham o copo cheio de champa nhe. Jenny viu a expresso de amor e de orgulho nos olhos de Ben 
enquanto contemplava o seu herdeiro, o seu filho mais querido, e sabia sem precisar de voltar a cabea que a mesma expresso estaria tambm reflectida nos olhos 
de Jon. Os sentimentos estavam cada vez mais intensos.
David clareou a garganta. Tinha o discurso na memria e, na realidade, no precisava das notas que deixara em cima da mesa, em frente a ele. Sempre fora um dos seus 
pontos fortes, a capacidade para memorizar textos escritos.
Olhou  sua volta. Tinha o pescoo apertado pela camisa e sentia imenso calor; o jantar tinha-lhe cado como uma pedra no estmago. Aquele maldito telefonema. Sentiu 
um espasmo de dor que o deixou paralisado. Surgiu do nada e espalhou-se pelo seu corpo como um raio, com a velocidade letal de uma cobra ao morder. Primeiro sentiu 
a dor aguda da mordida e depois uma onda ardente; era uma sensao desconhecida para ele.  sua volta ouvia barulho, mas j nada parecia afect-lo, s a dor.

Algum estava a gritar. Era Tiggy, reconheceu Jenny vagamente enquanto Jon e ela tentavam colocar David em postura de reanimao; o corpo dele era como um fardo 
nos seus braos. No queria pensar na palavra morto. ainda no... por favor, Meu Deus, ainda no".
- O que est a acontecer?
Era Ben, com a voz trmula de um velho homem amedrontado, que permanecia em p, impotente, observando como o caos explodia ao seu redor.
138
Algum, um dos filhos de Hugh, Jenny no conseguia ver quem era, estava a tentar tranquilizar todas as pessoas, aliviar o pnico que se instalara na tenda no momento 
em que David cara em cima da mesa.
- A ambulncia est a caminho.
Jenny olhou com gratido para Neil Travers.
- Graas a Deus que estava aqui - disse ao mdico da familia. - Como  que ele est? - perguntou com nervosismo. - Pensa que...
- No sei - respondeu, enquanto moveu a cabea.
-  muito cedo para saber isso. Neste momento est vivo. Mas no poderemos dizer nada mais at chegarmos ao hospital.  evidente que sofreu um ataque de corao, 
mas no conheceremos a gravidade at...
- suspendeu a frase ao ouvir a sirene da ambulncia.
- Fique aqui com ele - pediu a Jenny. - Eu vou explicar-lhes o que aconteceu.
Enquanto esperavam os maqueiros, Jenny voltou a olhar para o seu marido. Estava branco como a cal, ainda mais do que David. Foi o primeiro a reagir depois do ataque 
de corao, agarrando-o nos seus braos enquanto gritava para Jenny:
- Pelo amor de Deus, faz alguma coisa. Ele sofreu um ataque de corao.
Apenas com uma mo tinha erguido o seu irmo da mesa e deitara-o cuidadosamente no cho. No dissera uma nica palavra desde esse momento porque, como Jenny sabia, 
estava a usar toda a sua energia para rezar, pedindo que o seu irmo no morresse, enquanto lhe segurava na mo como se lhe pudesse transmitir a fora dele, o sangue 
dele. Era como se nada mais existisse para ele.
- David... David... - comeou a gritar Tiggy, que
139
tentava segurar o corpo imvel do seu marido enquanto a equipa de bombeiros o colocava na maca, e Olivia e Caspar tiveram de agarr-la.
Jenny fez uma careta quando Olivia deu uma leve bofetada  sua me na bochecha, no por causa da dor que Tiggy sofrera mas por compaixo para com Olivia.
Ao seu redor, via a perplexidade e a incredulidade reflectida nas faces de todos, que pareciam incapazes de assimilar o que acontecera.
- O que aconteceu ao tio David? - ouviu uma criana perguntar. - Est morto?
Fora uma das filhas de Saul quem fizera a pergunta, e Hillary tentou cal-la imediatamente. Coitadinha. Afinal, no tinha feito nada de mal. Jenny simpatizou com 
ela, embora Ben estivesse a olh-la como se a quisesse matar.
- David... David... Onde est? Eu quero ir com ele. Onde est? - gemeu Tiggy.
- Vo lev-lo para o hospital, Tiggy - disse Jenny, tentando consol-la. - Agora est em mos boas e...

- Eles no podem lev-lo sem mim. Ele no pode morrer sem mim. Devia estar com ele...
- O tio Jon est com ele, me - disse Olivia em voz baixa, enquanto olhava para Jenny com uma expresso suplicante, como se estivesse a pedir-lhe ajuda em silncio. 
Tal como os outros, reparou Jenny, ao olhar para as faces de todos os que a rodeavam. Inspirou profundamente e disse com a serenidade possvel:
- Caspar, pode levar Olivia, a sua me e Ben ao hospital? Pode usar o meu carro...
- Eu levo-os - disse Saul bruscamente. - Ser
140
mais rpido - acrescentou quando Caspar olhou para ele como se fosse responder. - Eu conheo a estrada. Vamos - concluiu, e agarrou Tiggy pelo brao, de forma a 
que Olivia pudesse aproximar-se de Ben e dirigi- lo calmamente para a sada.
- Eu ficarei a tranquilizar os convidados - disse Ann, a esposa de Hugh. - Voc deve querer ir para o hospital - deu-lhe uma palmadinha no brao. - No fique preocupada, 
David e Jon so gmeos, mas isso no significa que Jon... - Jenny apressou-se a neg-lo com a cabea.
- No, eu sei - interrompeu-a, adiantando-se ao que Ann Lhe ia dizer. Quantas pessoas estariam a perguntar-se a mesma coisa? David tinha sofrido um ataque de corao... 
Sofreria Jon algo semelhante?
Viu Ruth um pouco afastada do grupo, com Joss ao seu lado.
- Vou para o hospital - disse. - Ann ofereceu-se para ficar aqui a tomar conta de tudo, por isso se me quiseres acompanhar... Max - disse ao seu filho mais velho, 
que ainda no se movera desde que David se tinha desmoronado em cima da mesa e a sua expresso era ainda de incredulidade. - Max - repetiu, para ter certeza de que 
ele a estava a ouvir. - Laurence e Henry querem saber o que se passa. No podemos ir todos para o hospital. Eu quero que fiques em casa com eles. Assim que ns soubermos 
o que est a acontecer, ligar-te-ei.
Enquanto saa do carro, no estacionamento da nova unidade de cardiologia do hospital, Jenny pensou que, ironicamente, ela prpria contribura para
141
juntar fundos para as novas instalaes. Restava saber se a unidade e a sua equipa especializada poderiam salvar a vida de David.
Com as mos trmulas, desapertou o cinto de segurana e voltou-se para sorrir a Ruth e Joss.
A saudao do recepcionista foi uma mistura de profissionalismo e compreenso.
- O especialista est a examinar o seu cunhado - disse a Jenny assim que ela se identif icou. - Se quiser, pode encontrar o resto dos familiares na sala de espera.
Ao entrar na sala de espera, Jenny procurou automaticamente Jon com o olhar. Estava do outro lado da sala com Olivia e Tiggy e no a tinha visto entrar. Tiggy estava 
a chorar e Jon tinha-Lhe passado o brao pela cintura. Jenny observou-os com o semblante carregado.
- De quem tenho mais pena  de Livvy - sussurrou Ruth, de forma inesperada. - Se no tiver cui dado, acabar por ser o nico sustento de Tiggy.
- Fica aqui com a tia Ruth enquanto eu vou falar com o teu pai - pediu Jenny a Joss antes de se ir embora.

Jon ainda estava chocado, pensou Jenny ao aproximar-se e verificar que ele nem a via.
- Alguma notcia? - perguntou, angustiada. Foi Olivia quem respondeu.
- No, nada de concreto. Eles confirmaram que sofreu um ataque de corao mas ns ainda no sabemos... - levou a mo  boca enquanto os olhos comearam a encher-se 
de lgrimas.
- V l, fica calma. Pelo menos, continua vivo, e est nas mos de especialistas...
142
Olivia olhou para Saul com gratido, pois ele ouvira a pergunta de Jenny e tinha-se aproximado delas.
Ele comportara-se maravilhosamente durante o caminho para o hospital, mantendo a calma e a tranquilidade. At tinha conseguido acalmar a histeria da sua me, sem 
se preocupar com o desprezo ou a desaprovao que Caspar tinha demonstrado e, j no hospital, tomara todas as providncias com eficincia. Tinha at falado discretamente 
com uma enfermeira para que observassem Ben que, por surpreendente que pudesse parecer, dava a impresso de ter envelhecido dez anos em dez minutos, como se o patriarca 
dominante e poderoso tivesse ficado reduzido a um homem velho, frgil e vulnervel.
O tio Jon tambm estava completamente perturbado, embora de um modo diferente. Permanecera prximo do seu irmo at o momento em que o especialista entrara no quarto 
para o examinar e, logo em seguida, Tiggy correra para os seus braos para lhe perguntar:
- No est morto, pois no? Diz-me que ele no est morto. Eu no posso viver sem ele. Eu no sou capaz...
- No, no est morto, Tiggy - tranquilizou-a Jon. No, David no estava morto, graas a Deus. Graas a Deus. No havia dvida de que o choque de ver o seu irmo 
cair diante dos seus olhos e o medo e o amor que sentia por ele era o que sentia naqueles momentos. Jon teve a estranha sensao de no fazer parte do mundo em que 
estava a viver, de ter deixado o seu corpo e estar a viver de fora. Movia-se e falava como um rob. Estava a comportar-se como o irmo leal e responsvel que sempre 
tinha sido.
143
Tentou colocar-se na pele de David, imaginar como seria se fosse ele a estar naquela posio, numa cama de hospital. Estaria Jenny a chorar por ele, de corao partido, 
inconsolvel, face  ideia de perd-lo? Ou estaria a olhar para David a pensar, a desejar...
Tinha-os visto a danarem juntos, colados, Jenny com a cabea apoiada no ombro de David enquanto ele Lhe sussurrava algo ao ouvido. Que lhe teria dito?
Jon nunca se tinha enganado sobre a razo pela qual Jenny se tinha casado com ele. Se no fosse pelo beb... E tinha sido ele, afinal de contas, quem insistira para 
se casar com ela. No podia acusar Jenny; sempre soubera o que ela sentia por David. Para Ben foi um alvio saber que Jenny e ele se iam casar e quais os seus motivos. 
Uma vez casada, Jenny j no constituiria nenhuma ameaa para o futuro que o seu pai sonhara para David. Jon teve de ouvir um enorme sermo do pai, claro, mas aguentou 
com estoicismo e s falou no final, para lembrar o seu pai de que eram necessrias duas pessoas para criar uma nova vida, e no apenas uma.

Sabia que Jenny se tinha esforado para que o seu casamento resultasse, tanto quanto ele; tinha sido uma boa esposa e era uma me excelente, no havia nenhuma dvida, 
mas Jon tinha visto o brilho do seu olhar algumas horas antes, enquanto ela se contemplava ao espelho, sem notar a presena dele.
Estava corada, tinha os lbios entreabertos, os olhos cintilantes de... De qu? De expectativa, de ansiedade? Porque ainda antes soubera que David...
Ficara surpreendido e transtornado ao v-la to diferente, to... to desejvel e... feminina. No parecia
144
a Jenny que ele conhecia e sentira uma dor no peito ao ver o cuidado com que se tinha arranjado e ele sabia que ela no o fizera para ele. Nunca, em todos os anos 
que estavam casados, Jenny vestira um vestido como aquele.
E no havia dvidas de que David ficara impressionado. E no apenas ele. Jon no era cego; ele tinha visto como os homens olhavam para Jenny na festa, com uma expresso 
de surpresa, seguida por um mais intenso estudo e por uma avaliao sexual dos atributos femininos dela.
Talvez David estivesse a morrer naquele instante, mas a nica imagem que surgia na mente de Jon no era o rosto contrado do seu irmo, mas a memria de David a 
danar com Jenny.  claro que desejava que David sobrevivesse. Claro que sim. Ento, porque  que sentia aquele vazio, aquela ausncia quase completa de emoo?
Tiggy continuava a chorar e a tremer. Apertou o brao automaticamente em torno da sua cintura, com um instinto protector. Pelo menos, havia algum com sentimentos 
puros, unicamente preocupada com Da vid. Jon no tinha coragem para olhar para Jenny, para ver reflectido nos seus olhos o que sentia, porque sabia.
Jon continuava a apertar Tiggy com o brao, enquanto a sua me se agarrava chorosa a ele, observou Olivia. Ela teria gostado de ter o apoio e o conforto dos braos 
de Caspar, mas ele ficara em Queensmead, certamente para procurar a companhia e o apoio de Hillary.
- No estejas preocupada. Tenho a certeza de que eles esto a fazer tudo aquilo que podem - Saul 
145
apertou-lhe carinhosamente a mo ao perceber a angstia dela.
A porta da sala de espera abriu-se e o especialista entrou. Parecia cansado e solene, e comeou a falar num tom ainda mais solene.
- David est fora de perigo, por enquanto. Mas...

- fez uma pausa e olhou para os presentes, escolhendo as palavras cuidadosamente, ao ver o rosto manchado de lgrimas de Tiggy e o semblante rgido e tenso de Jon. 
Ben estava apoiado no brao de Hugh enquanto Ruth se mantinha um pouco afastada, de mo dada com Joss. Sem se aperceber, Olivia foi para perto de Saul, agradecendo 
o conforto masculino que o brao e o corpo dele lhe ofereciam. Apenas Jenny permanecia s, muito perto do especialista e, talvez por isso, o mdico olhou mais para 
ela do que para os outros. Um desconhecido teria pensado que Jenny era a esposa do doente e que Jon e Tiggy eram casados. - Ele teve um ataque de corao muito grave 
- continuou, e fez novamente uma pausa quando Tiggy chorou mais ruidosamente e se abraou com mais fora a Jon. - Na realidade, ele tem muita sorte por estar vivo. 
A questo  que est vivo, mas... - parou novamente e foi Jenny quem o pressionou.
- O que  que est a tentar dizer mais concretamente? - perguntou, em voz baixa.
- David est bastante mal. As prximas vinte e quatro horas sero cruciais. At l, no podemos sa ber.
- Quer dizer que existe o perigo de ele sofrer outro ataque de corao?  o que est a tentar dizer?perguntou novamente Jenny.
146
- s vezes, acontece - avisou o especialista, com semblante srio. - Mas com sorte...
- Podemos... podemos v-lo? - perguntou Jon com voz rouca.
O especialista negou com a cabea.
- No, receio que no seja possvel. Neste momento, no.  necessrio mant-lo calmo e sob o efeito de medicamentos. Na realidade, a melhor coisa que podem fazer 
agora  voltar para casa e tentarem dormir um pouco porque... - ao ver o sinal de advertncia de Jenny, que apontou para Ben com a cabea, o especialista chamou 
uma enfermeira e falou com Jenny em particular. - Vou receitar um medicamento para o seu sogro. Sei que o corao dele no  to forte quanto parece.
- Tiggy est muito transtornada, Jenny - disse Jon, dez minutos depois, quando Saul comeou a dirigi-los para o corredor. - No pode ficar sozinha. Penso que o melhor 
ser que eu fique com ela esta noite, para o caso de ela precisar de mim.
- Sim, claro - concordou Jenny, que teve de controlar-se ao recordar que Tiggy tinha a casa cheia de familiares, alm da sua filha e do namorado dela, nos quais 
poderia procurar apoio caso precisasse de um ombro onde chorar durante a noite.
Mas, de que adiantaria? Jon no iria entender. Esperava que ela aceitasse, como sempre fizera, que as necessidades e os desejos de David e, consequentemente, as 
necessidades e os desejos da famlia de David eram prioritrios em relao a tudo.
Enquanto voltava ao carro, lembrou-se que Jon no fizera nenhum comentrio acerca do seu vestido. Era uma tolice estar a lamentar uma situao to 
147
insignificante quando tinha coisas mais importantes com que se preocupar. Tambm era terrivelmente egosta pensar na sua prpria dor pelo silncio de Jon e no no 
ataque de corao de David. Estava preocupada com o seu cunhado, claro. Era, afinal de contas, o irmo gmeo de Jon e como tal... Jon e ela nem sequer danaram juntos 
naquela noite. Na realidade, no se conseguia lembrar de quando tinham danado juntos pela ltima vez. Aquilo era terrvel. No devia estar a pensar nas suas prprias 
necessidades, mas sim em David, que estava  beira da morte... Porque  que Jon no lhe dissera nada sobre o vestido? Ser que no tinha gostado? Ou? Chega", gritou 
a si mesma. J no s nenhuma adolescente mas sim uma mulher adulta.
148
oIto
- Bom, pelo menos, o mdico est optimista. Ele
diz que David j passou o pior.

Olivia voltou-se para Saul.
- Sim, j passou o pior - afirmou. - Mas tambm
nos avisou de que o pai levar um bom tempo at estar completamente fora de perigo. Vo mant-lo nos
cuidados intensivos durante a semana inteira. O doutor Hayes diz que no poder voltar a trabalhar durante, pelo menos, trs meses, e ainda...
-  verdade - respondeu Saul com gravidade. Ser bastante duro. O que pensas que Jon vai fazer?
Procurar um substituto?
- No sei. Ningum fez nenhum comentrio sobre
o futuro do escritrio - reconheceu Olivia. - Temos
estado muito preocupados com o pai, mas  preciso
fazer algo.
- Hum... Gostava de poder oferecer-me para ajudar... - estendeu as mos com carinho. - Mas no vai
ser possvel. A minha empresa est a negociar alguns
contratos novos com o Japo. No posso contar-te
detalhes, mas do ponto de vista jurdico est a ser
bastante complexo. Hillary est sempre a reclamar,
149
diz que quase no me v ou, pelo menos, costumava dizer isso. Ultimamente tenho a sensao de que quanto menos me v, melhor.
Olivia fez uma careta ao perceber a amargura na voz dele. Durante os ltimos trs dias, em que Saul tinha preferido ficar em Haslewich com a sua famlia at que 
David sasse de perigo, tinha ficado mais evidente que Hillary e ele no eram felizes juntos. Olivia sentia pena por ele. Era bvio que adorava os seus trs filhos 
e suspeitava que ele se esforava para no acabar com o casamento, principalmente, para o bem das crianas.
Estavam na sala de estar de Queensmead, juntamente com o resto da famlia mais prxima, que se concentrara l para ouvir o ltimo relatrio do hospital em relao 
ao estado de David.
Naquele dia, tinha sido Olivia a ir v-lo. Jon e ela estavam a fazer turnos para acompanhar Tiggy ao hospital. David estava consciente e podia falar, mas continuava 
sob o efeito de comprimidos e nos cuidados intensivos. A famlia inteira concordara que Tiggy estava muito chocada e angustiada com o ataque de corao do marido 
para suportar o trauma de o ver sem apoio familiar.
Hugh e Ann tinham ficado em Queensmead nos primeiros dias, mas foram obrigados a voltar para Pembrokeshire porque Hugh tinha um julgamento. Saul decidira ficar no 
lugar do seu pai, e contara a Olivia que no se importava em usar os poucos dias de frias que ainda lhe restavam.
- Pensava que iramos fazer uma viagem com as crianas, mas Hillary diz que a ltima coisa que lhe apetece  estar confinada a um lugar comigo e com
150
as crianas. Ela prefere ir para os Estados Unidos rever a sua famllia.
Tinha dito aquela ltima frase com uma expresso triste, mas Olivia no fez nenhum comentrio. Tambm, j tinha bastantes problemas com que se preocupar.

Caspar tinha transferido as suas coisas para o quarto de Olivia depois do ataque de corao de David, e na noite anterior... Olivia fechou os olhos porque no quis 
pensar nos problemas que estavam a surgir na sua relao com Caspar, nem nos sentimentos turbulentos e amargos, plenos de angstia, que esses problemas lhe estavam 
a causar. Como era possvel que a relao deles tivesse mudado tanto? Sim sabia das sequelas que a rejeio sofrida por Caspar durante a infncia tinham deixado. 
Ele falara abertamente delas, da mesma maneira que Olivia lhe tinha revelado os seus problemas. Ela acreditava que Caspar a entendia e que sabia que o medo que ela 
tinha em dizer amo-te, no diminua em nada o seu compromisso para com ele. Claro que tambm sabia que Caspar necessitava de reescrever a histria emocional da sua 
infncia, no sendo colocado antes de ningum no corao de Olivia. Isso significaria que ele se tinha reconciliado com o seu passado.
Mas j no tinha tanta certeza. Tinha descoberto que Caspar, em vez de ser o homem maduro que respeitava e admirava de uma forma como nunca tinha conseguido respeitar 
e admirar o seu pai, era tambm capaz de se comportar de um modo irresponsvel e irracional, embora de um modo muito diferente. Conseguia ser to egosta e exigente, 
e conseguia mesmo pression-la para obter o que queria sem pensar
151
no que ela podia querer ou precisar. Tal como tinha feito na noite anterior.
Ficou tensa. Ela prpria sugerira que Caspar se mudasse para o seu quarto. Precisava do conforto dos braos dele, do seu calor... precisava simplesmente de saber 
que ele estava l. Na realidade, estava mais transtornada e angustiada pela descoberta de que a sua me sofria de um distrbio alimentar do que com o ataque de corao 
do seu pai e, no fundo, sabia porqu. Um ataque de corao podia ser explicado, ser comentado, ser entendido. Mas a bulimia da sua me.
Sentia-se to confusa, to impotente... O que mais precisava era da compreenso de Caspar, e tempo. Mas Caspar no estava disposto a dar-lhe nem uma coisa nem a 
outra.
Quando se voltou para ele na cama com a inteno de falar... Fechou os olhos e sentiu-se como se estivessem novamente no quarto deles, com a luz delicada da lua 
que entrava pela janela.
- Caspar - sussurrou. - Ests acordado?
- Que te parece? - ouviu- o dizer, e os lenis moveram-se quando ele esticou o brao para a abraar. Imediatamente, comeou a acariciar com os lbios a pele macia 
e suave do pescoo dela. - Hum... H quanto tempo.
Pelo que parecia, estava demasiado absorvido com o sabor da pele dela para notar a rigidez do seu corpo.
- Caspar - comeou a protestar, mas ele no Lhe prestou ateno, passou-lhe uma perna por cima e beijou-a ferozmente.
Olivia hesitou um segundo antes de comear a
152
responder. No era que no quisesse fazer amor, mas naquele momento para ela era mais importante falar. Ela precisava de expressar o que sentia e Caspar era a nica 
pessoa com quem podia desabafar. Parecia desleal no sentir amor pela sua me e sentia-se culpada porque a nica coisa que sentia por ela era piedade e compaixo. 
Mas Caspar j estava a mover as suas mos at aos seus seios. J estava excitado.

Acariciou-lhe o mamilo na escurido e ela tentou reter o prazer sexual da carcia. A primeira vez que fizeram amor, desejara-o tanto, ansiara tanto para estar com 
ele que teve um orgasmo enquanto ele lhe beijava os seios, excitando os dois mamilos erectos com a ponta da lngua. Olivia estava muito envergonhada, mas Caspar 
limitava-se a rir e dizer que se aquela era a sua reaco  estimulao ertica dos seus seios, no conseguia esperar para ver como  que ela reagiria quando ele 
estimulasse com a boca uma rea mais ntima de seu corpo.
Afinal, tinha sido mesmo assim. Caspar no pde esperar e ela tambm no, mas depois eles compensaram a sua impetuosidade e, pela primeira vez na sua vida, Olivia 
descobriu que no era apenas o homem que tinha prazer com as carcias de uns lbios quentes no seu sexo.
Ao princpio, hesitou um pouco antes de lhe dar prazer daquele modo, por isso as suas carcias eram cautelosas e inseguras. Mas Caspar no a apressou, nem tentou 
marcar o ritmo de uma intimidade para a qual ela no estava preparada. Para falar a verdade, desfrutou da sensao de poder que experimentava, principalmente quando 
comeou a notar que ele ficava excitado e endurecido com as carcias da sua boca.
153
Absorvida com a reaco de Caspar, passaram vrios minutos at que ele notou no s que ela estava a tremer na cama, como tambm percebeu o motivo pelo qual o fazia.
Quando percebeu finalmente que o desejo que estava recarregando as suas baterias sexuais no tinha nada a ver com o que Caspar tinha feito para a excitar mas, por 
mais surpreendente que fosse, com a forma como ela o acariciou, ficou to perplexo que a soltou e lhe perguntou rudemente.
- Que est a acontecer? - perguntou Caspar, que a abraou com fora. - Se no gostas...
Olivia negou com a cabea.
- No, no  isso - disse.
- Ento? - pressionou Caspar.
- Eu... Eu desejo-te - admitiu com voz rouca enquanto elevou a viso e levou os dedos aos seus lbios. - Ao acariciar-te - acrescentou, corada. - Fiquei to... eu 
no pensei... no sabia...
Ento, Caspar mostrou-lhe que ela tambm era vulnervel a esse tipo de carcia ntima, ao deit-la na cama suavemente e, ainda com mais suavidade, separou as suas 
pernas e ajoelhou-se entre elas para toc-las, para acarici-la calmamente. Sem deixar de olh-la nos olhos, baixou lentamente a cabea at  sua suave e hmida 
pbis.
Olivia fechou os olhos e tentou reprimir o gemido de prazer que submergia da garganta dela, quando ele comeou a explorar a sua terna e doce intimidade. Encontrou 
de forma certeira o ponto onde ela era mais sensvel e acariciou-o at que ela j no conseguiu conter mais a excitao.
Mas isso tinha sido h meses. Naquele momento,
154
Caspar estava a estimul-la com a lngua e os seus mamilos comeavam a contrair; o corpo dela respondia, embora ela no quisesse.

Olivia estava a acariciar-lhe o cabelo com os dedos, mas em vez de enterrar as mos nele, para o trazer at mais perto do seu corpo, o que na realidade queria fazer 
era afast-lo. Como era possvel que ele no percebesse que ela no tinha vontade? Estaria assim to cego, to absorvido nas prprias emoes? Ou talvez fosse mais 
importante ele satisfazer a sua prpria necessidade do que a dela?
Caspar estava a aumentar a presso dos seus lbios nos seus seios. Olivia sentiu a ereco dele e, pela primeira vez desde que tinham iniciado o seu namoro, quis 
que aquilo terminasse o mais rapidamente possvel. Naquela noite, as carcias de que ela tanto gostava no estavam a ser mais do que uma obrigao. Como a necessidade 
que Caspar tinha em fazer sexo era to arrebatadora, to crucial, e muito mais importante do que os desejos ou necessidades dela, porque no terminava de uma vez 
por todas?
Moveu-se impacientemente contra ele e apertou os dentes quando Caspar interpretou mal o seu convite e comeou a acariciar as suas mos, enquanto as deslizava para 
as suas ancas e massajava-lhe o estmago e depois as coxas, colocando uma mo entre as suas pernas como ela tanto gostava.
Olivia ficou rgida e Caspar tambm.
- Que se passa? - perguntou. - Passa-se alguma coisa?
Ele finalmente percebera que alguma coisa no estava bem.
- Nada - respondeu Olivia, com aspereza.
155
Ouve, porque  que ns no terminamos de uma vez por todas? Eu estou cansada e se tu queres sexo, como parece que queres...
Olivia sabia como as suas palavras soavam mal, mas no conseguiu controlar-se. Era culpa sua que Caspar no tivesse percebido que o que ela queria era que ele a 
abraasse, a consolasse e a escutasse, e no que a utilizasse como um meio para aliviar a sua tenso sexual?
Ela sabia que ele a estava a observar na escurido e ficou surpreendida quando ele se afastou. Caspar no era o tipo de homem capaz de forar uma mulher a fazer 
amor. Uma vez, dissera-lhe que, para poder desfrutar, o prazer tinha de ser mtuo. Mas justamente quando ela se preparava para se voltar, Caspar foi para cima dela 
e imobilizou-a com o peso do seu corpo antes de lhe dizer, com raiva:
- Muito bem, se  isto que queres...
- Caspar - protestou Olivia, mas j era demasiado tarde. Enquanto a mantinha deitada na cama, comeou a penetr-la.
Olivia estava mais excitada do que pensava, porque o seu corpo estava a aceit-lo com bastante faci lidade, apesar dos seus esforos por contrair os msculos e rejeit-lo.
- Parece-me que querias que eu terminasse de uma vez por todas - lembrou Caspar, ao notar os seus esforos para resistir.
Comeou a mover-se depressa, com mais impulso e, para surpresa de Olivia, em parte ela estava a ter prazer por t-lo deixado furioso. Era como se, ao t-lo castigado, 
pudesse reconhecer as suas prprias necessidades sexuais.
156
Ficou rgida ao notar que o corpo dela estava a reagir s investidas rtmicas de Caspar.
Quis empurr-lo, parar com aquilo, esticar os braos e arranh-lo, mord-lo, revoltar-se contra aquela posse sexual, e ao mesmo tempo... ao mesmo tempo...

Proferiu uma exclamao spera quando a primeira palpitao do orgasmo a apanhou de surpresa e, nessa altura, j era muito tarde para fazer outra coisa que no embrulhar 
o corpo dele com as suas pernas e gritar o seu nome, enquanto mergulhava no seu prprio prazer.
Nunca tinham usado o sexo para se magoarem um ao outro, nem fsica nem emocionalmente, mas tinham-no feito naquela noite. Quando terminaram, Olivia virou-lhe as 
costas e fingiu que estava a dormir enquanto ele a acariciou com hesitao e sussurrou o nome dela. Passados alguns minutos, sentiu que Caspar se voltava, enquanto 
ela permanecia imvel, embora desejando voltar-se e abra-lo, ao mesmo tempo que estava demasiado furiosa para o fazer.
Quando acordou de manh, Caspar j estava na casa de banho. Passaram o dia inteiro a tratar-se friamente e Olivia conseguia sentir o crescimento da distncia que 
estava a surgir entre eles.
Naquele instante, sorriu quando Jon se aproximou at ao local onde ela estava sentada com Saul. De todos, Jon era o que pior estava a lidar com a doena do seu pai, 
pensou. Afinal, no era somente o gmeo de David. Estava afectado psicologicamente com o ataque de corao do irmo mas tambm sofria com o pnico e o medo da famlia, 
principalmente de
157
Tiggy e de Ben. No caso de Tiggy, o medo mostrava-se atravs de um choro histrico e na necessidade de o agarrar fsica e emocionalmente, o que j era bastante duro, 
no caso do av... Olivia olhou para o outro lado da sala de estar, onde estava sentado o seu av.
Talvez no quisesse dar a impresso de que preferira que tivesse sido Jon a sofrer o ataque de corao e no David, ou que se tivesse de perder um dos fiLhos preferia 
que fosse Jon e no David, mas no era isso que transmitia. Alm disso, para Jon tambm deveria ser complicado perceber que o seu pai no acreditava nas suas capacidades 
para seguir com o negcio da familia.
- Livvy e eu perguntamo- nos como  que o tio se vai aguentar sozinho no escritrio - comentou Saul.
- Parece-me que a melhor soluo seria procurar um substituto...
- No - a velocidade com que Jon rejeitou a sugesto de Saul apanhou Olivia de surpresa. A voz dele, geralmente suave e controlada, tinha soado quase spera. - No... 
eu ainda no tive tempo para decidir nada acerca do escritrio - disse Jon firmemente, enquanto Olivia e Saul olhavam para ele, estupefactos.
- Mas ters de procurar uma soluo o mais cedo possvel - interveio Jenny calmamente, do local onde estava sentada. -  impossvel gerir es o escritrio sozinho. 
H muito trabalho e tambm...
- Tambm o qu? - interrompeu Jon, esquecendo-se da presena de Saul e de Olivia na sala enquanto se voltava para a sua esposa com um tom de voz repentinamente amargo. 
- O problema  que eu
158
no sou David e no posso gerir o escritrio sozinho, no ?

- Jon. Sabes perfeitamente que eles no quiseram dizer isso - advertiu Jenny. Tinha mudado tanto nos ltimos dias que j mal o reconhecia. Sabia que ele estava sujeito 
a muita presso e que estava muito triste e preocupado com David... e muito magoado pela convico evidente de Ben, que no acreditava que ele conseguisse substituir 
o irmo. Mas era impossvel continuar a fazer o trabalho dos dois indefinidamente e era isso que os seus sobrinhos tinham realado.
- Eu poderia ajudar durante um tempo... Mal acabou de dizer a frase, Olivia desejou saber que bicho lhe tinha mordido. Ela j tinha prometido ir para os Estados 
Unidos com Caspar. Tinham tudo planeado.
- Livvy! Achas que poderias? Mas e o teu trabaLho? - perguntou Jenny, com evidente alvio.
Olivia sabia que Caspar estava a ouvi-la e a observ-la do outro lado da sala de estar. Tinha Hillary a seu lado, como se tornara frequente, pensou com tristeza. 
Quando Hillary se levantou e Lhe sussurrou algo ao ouvido, Olivia elevou o queixo com obstinao. J era muito tarde para retirar o que dissera e, alm disso...
- Neste momento estou... estou livre - admitiu. Eu no tive oportunidade para falar disto convosco, mas eu entreguei um pr-aviso de despedimento no meu escritrio, 
por isso nada me impede de substituir o pai e ajudar no escritrio durante um tempo.
- A srio? Isso seria maravilhoso, no era, Jon?perguntou Jenny enquanto se voltava para o seu marido.
159
- Seria.
- O que est a acontecer, o que ? - perguntou Ben, alertado por Max.
- Livvy acabou de se oferecer para ajudar no escritrio at que David recupere o suficiente para voltar ao trabalho - explicou Jenny ao seu sogro.
- Como? Impossvel! Livvy no passa de uma rapariguinha e isto.
- Posso ser apenas uma rapariguinha, av, mas sou tambm uma advogada totalmente qualificada e experiente - lembrou Olivia, com voz fria e forte. Mas, apesar da 
sua aparncia, por dentro, sentia o corao apertado. - Eu sei que  o que o pai quereria que eu fizesse - acrescentou, enquanto olhava para o seu av nos olhos. 
- A no ser, claro, que Max queira.
- Isso  impossvel - disse Ben, mal-humorado. Sabes isso perfeitamente. Max est a preparar-se para os tribunais superiores.
- Livvy - ouviu Jon comear com hesitao, mas Olivia reforou a sua resoluo e aumentou o tom de voz.
- J estou decidida, tio Jon - disse com coragem.
- E no mudarei de ideias. Estarei amanh logo pela manh no escritrio.
Conteve o encorajamento, enquanto esperava que mais algum dos presentes se opusesse  sua ideia, mas suspirou de alvio ao ver que todos se mantiveram em silncio. 
Eles precisavam dela, reconheceu com tristeza, embora nenhum deles, alm de Jenny, estivesse disposto a admiti-lo. Pois bem, iria mostrar-lhes que era igual em termos 
profissionais a qualquer membro masculino da familia, at mesmo
160
melhor do que alguns deles, decidiu com amargura ao ver que Max estava a olhar para ela com o seu habitual ar de desprezo.

Perguntou-se se devia ter dito a Ben que a sua ascenso a scio no escritrio em que trabalhava no estava assim to decidida como ele tinha insinuado e pensou que, 
se ele no tinha dito nada, era problema dele. Embora ela no gostasse de estar na pele dele caso acabassem por escolher outro scio, como Caspar estava convencido 
que aconteceria.
- Porqu? - perguntou a Caspar quando falaram no assunto. - Qual o motivo?
- Por muitas razes - respondeu Caspar. - Para comear, por ser homem e, alm disso, porque eu duvido que ele seja suficientemente competente para a posio.
- Passou nos exames.
- Sim, mas por uma unha negra - esclareceu Caspar. - E ele no goza de muita popularidade entre os seus colegas. Sim, eu j sei o que vais dizer - continuou, erguendo 
uma mo para det-la. - Sim, eu sei que no ter a admirao dos colegas de profisso  at mesmo benfico para um advogado que quer exercer nos tribunais superiores, 
mas, neste caso, no diria que os colegas no o admiram, mas sim que o rejeitam.
Olivia olhou para Caspar. Ele no estava a contar-lhe nada que ela j no tivesse ouvido. O mundo do Direito era, afinal de contas, relativamente pequeno e fechado, 
e os rumores espalhavam-se bastante depressa.
Naquele momento, ao olhar para Caspar, o seu corao deu um salto. Como reagiria ele  deciso
161
impetuosa de substituir o seu pai no escritrio? Iria entender o motivo pelo qual tinha sido forada a oferecer a sua ajuda, ou no?
- Estupendo. Sentiste que devias faz-lo pelo teu pai. Muito generosa. Mas o que vai acontecer connosco, Livvy? O que vai acontecer comigo? No te parece que tinha 
o direito de saber o que planeavas fazer?
Olivia fez uma careta quando Caspar deixou de andar s voltas pelo quarto e olhou para ela, furioso.
- Eu no parei para pensar - admitiu. - S... Pensei que irias compreender...
- Sim, compreendo perfeitamente - respondeu Caspar com um tom sombrio. - Compreendo que no resististe  tentao de te exibires perante o teu av, de obteres a 
aprovao dele, de ouvires ele dizer que tem orgulho em ti, dizer o quanto te ama. Mas isso no acontecer, Livvy, porque o teu av nunca reconhecer que cometeu 
um erro ao dizer que uma mulher no pode ser to boa advogada como um homem. Iria contra todos os seus princpios, e  muito velho e antiquado para mud-los.
Caspar fez uma pausa antes de continuar com a mesma veemncia.
- Eu valorizo-te, admiro- te e amo-te, mas tu no te preocupas com os meus sentimentos. E nem com os nossos planos. Pelo menos, apercebi-me disso antes que fosse 
demasiado tarde. Eu no planeio construir a minha vida ao lado de uma mulher que deixa tudo para ajudar a famlia sempre que eles precisam, ou que depende da aprovao 
deles para tudo, da mesma forma que a tua me depende...
162

- Isso no  verdade - interrompeu-o Olivia, furiosa. - No te estou a abandonar pela minha famlia, Caspar. E em relao aos nossos planos, s estou a retard-los 
um pouco at que o meu pai recupere o suficiente para voltar ao trabalho. Tu sabes qual  o teu, problema? - perguntou, to furiosa quanto ele, recusando-se a escutar 
a voz que a aconselhava a falar com precauo. - s muito bom a acusar-me de estar agarrada aos meus padres de comportamento da infncia, por oferecer ajuda s 
para obter um elogio do meu av, mas que me dizes de ti? Comportas-te como um menino que no suporta no ser o centro das atenes. No tenho culpa que os teus pais 
se tenham divorciado, Caspar, nem que o teu pai tenha tido outros filhos. Meu Deus, assim ns no chegaremos a lado nenhum! exclamou, ao ver a expresso dos olhos 
dele. A ltima coisa que queria era discutir com ele, muito menos quando tanto precisava do seu apoio e da sua compreenso.
-  verdade - confirmou Caspar, com indiferena e o semblante carregado. - Quem sabe no temos nenhum stio onde chegar. J tomaste a tua deciso, Olivia... foi 
a tua" deciso, e tomaste-a sem pensar em como isso me poderia afectar. Parece-me que esta foi a prova final do quanto valorizas a nossa relao, no ?
- Caspar, onde vais? - perguntou Olivia, angustiada, ao ver que ele caminhava para a porta. Quando a abriu, parou e olhou para ela friamente antes de dizer:
- Acho que j sabes a resposta.  muito tarde para ir hoje  noite para Londres, mas eu irei amanh bem
163
cedo. Depois de tudo, no faz sentido que eu fique mais tempo, pois no?
- Caspar - protestou Olivia, mas j era demasiado tarde. Caspar tinha partido e, juntamente com o desespero, Olivia sentia um ressentimento que ainda no se dissipara 
por completo.
- Bom, pelo menos a oferta de Livvy de ajudar no escritrio vai tirar-te um peso de cima - comentou Jenny com Jon, no regresso de Queensmead.
- Sim - reconheceu. Eles estavam na cozinha e Jenny comeava a preparar o jantar.
Jenny olhou para ele, de forma pensativa. A rispidez dele confirmava o que j tinha sentido, que por alguma razo ele estava relutante em aceitar a ajuda de Olivia. 
Mas ela tinha a certeza de que essa relutncia no se devia ao facto de ela ser mulher. Jon, afinal, sugerira que Olivia fosse estagiria no escritrio. Tinham sido 
David, claro, e Ben quem se tinham colocado contra essa ideia.
- No pareces muito feliz - pressionou-o, ao ver que ele no desabafava. - No podes estar sozinho no escritrio. Precisas...
- Eu sei, Jenny - interrompeu Jon, bruscamente. Mas a minha vida seria muito mais fcil se certos membros desta famlia parassem para me perguntar o que  melhor 
para mim e me permitissem tomar as minhas prprias decises.
Jenny olhou-o de alto a baixo. Sabia, claro, que ao dizer certos membros da familia" se referia a ela, mas a crtica era to injusta e to pouco prpria dele que 
ela nem queria acreditar no que ouvira.
164
- Jon... - protestou.
- Tenho de ir ver Tiggy - disse secamente. - Est muito preocupada com uma situao com o banco e eu prometi que ia ver o que se passa.
- Olivia est com ela - recordou Jenny, tentando manter o tom de voz neutro. - Tenho a certeza de que, se souber que Tiggy est preocupada com alguma coisa, no 
hesitar em ajud-la.

- Eu no duvido disso - corroborou Jon. - Mas talvez Tiggy se sinta mais confortvel ao pedir-me ajuda a mim. Ela pensa que Olivia no aprova o comportamento dela... 
que a julga uma irresponsvel. E  verdade que tm personalidades completamente diferentes. Tu mesma j o disseste - lembrou, ao notar o silncio de Jenny.
- No me lembro de ter dito que tm personalidades completamente diferentes - corrigiu Jenny, suavemente. - Diferentes, sim. Mas ests a cometer um erro ao acusares 
Olivia de no aprovar o comportamento da me dela.
- No estou a acusar Olivia de nada, s estou a repetir o que Tiggy me contou... a confidncia que me fez - sublinhou. - Podias tentar ser um pouco mais compreensiva 
e tolerante, Jenny. Eu sei que Tiggy e tu nunca foram muito unidas e que, no princpio, ela no te dava muita ateno, mas isso no significa que ela no sinta.
Interrompeu a frase, incomodado e nervoso, ao aperceber-se que tinha falado demais, que tinha revelado demasiado. Mas desde quando  que ele precisava de justificar 
o comportamento de Tiggy?, questionou-se Jenny, com o esprito sombrio.
Antigamente teriam ficado sentados a falar 
165
calmamente sobre a questo mas, ultimamente, Jon estava sempre sensvel e mal-humorado, e ofendia-se com qualquer coisa.
- Bom, podia ser pior - comentou Jenny com humor, fazendo um esforo para dissipar a tenso existente entre eles. - Poderia ter sido Max a oferecer-se para substituir 
David.
- Max! - a nuvem de dio que escureceu os olhos de Jon apanhou Jenny de surpresa. - Ele nunca! Max  muito egosta, muito egocntrico e s pensa nas prprias necessidades, 
sem parar para pensar...
- Jon, ests a falar do teu filho - foi obrigada a lembrar, transtornada por aquela exploso de averso vinda da parte de um homem normalmente sereno e generoso.
A ela tambm no lhe agradava o comportamento do seu filho mas, como qualquer me, sentiu-se na obrigao de o defender. Queria que Jon percebesse que os defeitos 
que encontrava no seu filho mais velho eram os mesmos que o seu irmo gmeo tinha, o que, segundo parecia a Jenny, tinha sido elevado por Jon e pelo seu pai a um 
nvel prximo da santidade.
- Sim, Max  meu filho - repetiu Jon com raiva e nojo. - Mas ambos sabemos que ele preferia ter David como pai... mesmo quando era criana adorava que as pessoas 
pensassem que ele era seu filho e se calhar... - interrompeu a frase e moveu a cabea. Ento, sem dar oportunidade para Jenny responder, levantou-se e caminhou para 
a porta. - No te preocupes com o jantar. Eu comerei com Tiggy.
166
Nove
Jon parou com nervosismo ao sair do carro. A janela do segundo andar, a que pertencia ao espaoso quarto de David e de Tiggy, estava iluminada... Se, como o especialista 
os tinha avisado, David tivesse de permanecer hospitalizado, logo o quarto seria apenas de Tiggy durante bastante tempo.
- Pensava que hoje em dia a tendncia era para que o paciente voltasse para casa o mais cedo possvel depois de um ataque de corao - comentara Jon com o mdico.

- H ataques de corao e ataques de corao - foi o comentrio enigmtico do doutor Hayes. - E h pacientes e pacientes.
O carro de Olivia estava estacionado em frente  casa e Jon sentiu o corao mais depressa quando ela lhe abriu a porta.
- Tiggy est l em cima - disse-lhe, enquanto o dirigia at  pequena sala que Jon sempre relacionara com a esposa de David. Como ela, era delicada e feminina e 
cheirava sempre ao perfume dela. David tinha o seu prprio escritrio do outro lado do corredor. - A propsito... eu gostaria de falar um momento
167
contigo antes da tua me descer - Olivia concordou, enquanto lhe estendia um clice que acabara de servir.
O corao de Jon voltou a bater mais depressa. Faltava-lhe coragem para falar daquilo que queria.
- Eu sei que nunca poderia convencer o av e, nem o pai, porque ambos acreditam que uma mulher jamais pode ser uma advogada competente, mas eu pensei que o tio fosse 
diferente, tio Jon. Eu sou qualificada e...
- Olivia, eu sei que tu s muito qualificada - interrompeu Jon. - E que s muito competente, mas...
- Mas no quer que trabalhe consigo no escritrio.
- No est em causa o que eu quero ou deixo de querer - disse Jon, tentando ignorar a pergunta. - Tu j sabes...
- O qu? Que o av no aprova esta situao? O tio no pode continuar sozinho no escritrio. Pelo que o doutor Hayes me contou, no h dvidas de que uma das coisas 
que originou o ataque de corao do meu pai foi o excesso de trabalho. O tio no tem tempo para se reunir com os clientes...
- H agncias que so especializadas em substitutos temporrios - comeou por dizer Jon, mas Olivia interrompeu-o e elevou o queixo com obstinao.
- Sim, eu sei, mas... - hesitou um pouco e caminhou impacientemente at  lareira, onde se voltou com determinao. - Se eu fosse homem... - perguntou. - Se fosse 
Max, por exemplo, o tio no hesitaria em aceitar a oferta.
- Olivia, eu asseguro-te que qualquer reticncia que possa existir no tem nada a ver com o facto de seres mulher.
168
-  mesmo? Ento, prove-o - desafiou Olivia. Jon fechou os olhos, cansado. No fazia sentido continuar a enfrentar a situao. No conseguia aguentar sozinho o trabalho 
do escritrio. No tinha tido oportunidade para rever a mesa e os arquivos de David, mas se o trabalho acumulado fosse to considervel como ele temia... Mas como 
explicar a Olivia que as suas reticncias se deviam a... Se pelo menos tivesse mais tempo. Se tivesse recebido algum aviso, poderia talvez.
- No  que no agradea a tua ajuda, Oliviadisse em baixa voz.
- Perfeito - respondeu a sobrinha, com determinao. - Ento, assunto arrumado. Eu comearei amanh de manh.
- Que assunto arrumaste? - perguntou Tiggy, que acabara de entrar nesse momento na sala. Vestia um roupo, um artigo de vesturio vaporoso de cor pastel que realava 
a pureza delicada da sua pele. Ela nunca tinha tido muita fora, mas desde o ataque de corao de David que parecia ainda mais vulnervel e frgil.

- Que eu substituirei o pai at que ele fique restabelecido e possa voltar ao escritrio - respondeu Olivia  sua me. Fez uma expresso de insatisfao. Pensei 
que tinhas subido para trocar de roupa.
- Sim, era para t-lo feito - reconheceu Tiggy. Jon notou que Tiggy baixou a cabea como se ela fosse a filha e Olivia a me. - Mas... - voltou-se para Jon, com 
um olhar suplicante. - Comecei a pensar em David e. - os seus lbios tremiam e tinha os olhos cheios de lgrimas. - Tu no ficas chateado por eu no estar convenientemente 
vestida, pois no, Jon?
169
Afinal, s da familia. Eu estou to contente por teres vindo... - acrescentou, sem esperar a resposta. - Esses senhores do banco no fazem mais nada do que ligar-me 
e...
- Eu no me teria importado em falar com eles, Tiggy - interrompeu Olivia. A sua me olhou para ela com uma expresso chorosa.
- Eu sei, mas  melhor que seja Jon a falar com eles. Ele  homem e... - mordeu o lbio enquanto Olivia pousou o copo vazio em cima da bandeja prateada com fora 
excessiva. - Ah, Saul ligou-te - disse Tiggy. - Ele quer que lhe telefones - esperou que Olivia sasse da sala para se voltar para Jon com uma expresso de desculpa. 
- Temo que Olivia no esteja de muito bom humor. Penso que ela e Caspar tiveram uma discusso. Oh, Jon... - interrompeu a frase, com a garganta fechada pelas lgrimas. 
- No te devia maar com os meus problemas, mas eu sei que David...
- Fica quieta, no vai acontecer nada - tranquilizou Jon. - E tu nunca me maas. Eu quero ajudar-te.
- Jon... - o olhar nublado que lhe dirigiu estava cheio de gratido e confiana. - No sei o que teria feito sem ti. No sou como Jenny nem como Olivia. Acontea 
o que acontecer, elas permanecem sempre fortes. Eu no.
Era verdade, reconheceu Jon. No se lembrava da ltima vez que Jenny tinha precisado da sua ajuda ou o tinha desejado... O seu corao deu um pequeno salto. Tinha- 
se esforado por no pensar na discusso durante o caminho at  casa de David.
- Eu sou um estorvo, Jon? Tenho a certeza de que Jenny.
170
- No,  claro que no s nenhum estorvo. Depois, no soube exactamente como  que aquilo aconteceu. Tinha esticado a mo para Lhe dar umas palmadinhas tranquilizantes 
no brao quando, de repente, Tiggy estava a chorar nos seus braos, frgil, cheirosa e feminina. A descoberta de que no trazia nada vestido debaixo do roupo vaporoso 
e que tinha os seios firmes e empinados chegou antes de puder fazer alguma coisa para evitar a reaco inesperada do seu corpo. Sentia a presso macia dos seios 
dela, sentia o seu cheiro... e experimentou um impulso de...
- Ns no podemos. Olivia pode regressar - sussurrou Tiggy, nervosa, devolvendo Jon abruptamente  realidade. Ele corou, envergonhado, enquanto se afastava dela, 
incapaz de a olhar nos olhos enquanto comeava a desculpar-se.

- No, no  culpa tua - interrompeu Tiggy com voz trmula. - Oh, Jon, tu no sabes o quanto eu preciso de algum como tu. David no... O nosso casamento... - no 
completou a frase e moveu a cabea. No devia estar a contar-te isto. Tu s o irmo dele... o gmeo dele - esboou um sorriso triste. - Mas em quem posso confiar 
alm de ti? - levou a mo at  testa. - J me di a cabea, no posso pensar tanto. Tenho tantos assuntos pendentes... assuntos que Jenny conseguiria resolver, 
mas eu...
Jon sentia-se magoado por Tiggy sentir a necessidade constante de ser comparada com Jenny. Ele conhecia bem esse sentimento de inveja, de vergonha e de desprezo.
- Tu e Jenny so pessoas to diferentes - disse-lhe suavemente.
171
- Eu sei - reconheceu, dedicando-lhe um sorriso trmulo.
- Mas eu no posso parar de pensar que, se Jenny fosse a mulher de David, ela teria percebido o que estava a acontecer e teria reagido antecipadamente. Eu sei que 
todos me culpam pelo ataque de corao de David - confessou, com a voz hesitante.
- No, no devias pensar assim - disse Jon. Claro que no foi culpa tua. Como poderias ter adi vinhado? Escuta, eu tenho de ir-me embora, mas no te preocupes. Amanh 
de manh ligarei para o banco.
Havia algo mais que devia perguntar, algo mais que devia fazer. Parou e inspirou profundamente.
- Tiggy, queria perguntar-te... O escritrio que David tem aqui... Sabes onde ele guarda as chaves?
- L em cima - respondeu Tiggy imediatamente.
- Queres as chaves? Eu vou procur-las.
Era to confiante, to inocente... Jon sentiu a culpa a invadir o seu corpo.
- Sim... Sim, pode ser? H alguns documentos, alguns arquivos que eu tenho de ver.
- Espera s um momento.
Jon fechou os olhos enquanto a via sair; tinha a testa a suar desenfreadamente e o corao apertado. Pediu a Deus em silncio para dissipar as suspeitas que lhe 
assolavam a mente, como nuvens negras.
Tiggy regressou com um sorriso triunfante e deu as chaves a Jon.
- No sei bem quais  que so do escritrio dele - admitiu, e franziu a testa.
- No te preocupes, eu descubro j - tranquilizou-a.
172
O telefone tinha comeado a tocar e Jon sentiu-se aliviado quando Tiggy saiu para ir atender.
Sentindo-se como um ladro, entrou rapidamente no escritrio de David e comeou a experimentar as chaves que Tiggy Lhe tinha dado, at que encontrou as da secretria. 
As gavetas estavam repletas de correspondncia desordenada, sobre um monte de papis tambm desordenados. Jon encontrou o dossier amarelo do arquivo, que se encontrava 
debaixo de um monte de extractos do banco. O seu corao comeou a bater mais depressa.
Tinha acabado de tirar o dossier quando a porta do escritrio se abriu. Ficou imvel quando ouviu Olivia dizer:
- Tiggy... Ah,  o tio Jon.
- Sim. Vim ver alguns documentos. A tua me...
Olivia enrugou a testa ao ver o tio a tentar esconder pateticamente os documentos e o arquivo amarelo que tirara da secretria do seu pai.
- Eu... Eu prometi  tua me ligar amanh de manh para o banco.

- Ento, precisa de levar os extractos da conta no ? - sugeriu Olivia calmamente.
- Como? Ah, sim... - pegou neles, quase contrariado como se nem quisesse tocar-lhes", pensou Olivia. O seu instinto preveniu-a de que estava a acontecer algo estranho. 
Jon estava plido, com um aspecto quase doente, mas  claro que ningum parecia muito normal ultimamente. Saul, por exemplo. Ligara-lhe para lhe pedir um conselho.
- Hillary e eu decidimos separar-nos - contou com voz tensa. - Ela quer voltar para os Estados Unidos. 
173
Ns ainda no pensmos em divorciar-nos, mas eu sei que  apenas uma questo de tempo. Vou precisar de um bom advogado especializado em divrcios, Livvy. Quero ficar 
com a custdia total das crianas. Eu no pretendo deixar que eles se sintam como uma batata quente e no quero ser um pai  distncia. Tu sabes mais destas coisas 
que eu. Podes recomendar-me algum?
- Eu sou advogada laboral, tal como tu - lembrou Olivia. - Max deve conhecer algum.
- Max! - exclamou Saul com desprezo. - As nicas ideias que tem so como tirar mais dinheiro a Ben. Vem ver-me, se puderes, Livvy, por favor. Eu preciso de falar 
com algum. Ou o Caspar e tu...
- Caspar saiu - limitou- se a dizer Olivia, porque no queria reconhecer que eles tinham discutido.
- Ento, podes vir? - perguntou, depois de uma pequena pausa.
Tinha ido at ao escritrio pensando que iria encontrar l a sua me. No esperava encontrar ali Jon.
Tiggy apareceu  porta.
- Encontraste o que procuravas? - perguntou a Jon.
- Sim, sim - respondeu. - Escuta, Tiggy, tenho de ir.
- Sim, eu sei - reconheceu debilmente. - Jenny ficar furiosa por teres estado comigo tanto tempo. Mas irs comigo amanh ver David, certo?
- Sim, claro - assegurou Jon suavemente.
- Vou a Queensmead ter com Saul - disse Olivia  me e, depois, voltou-se para Jon. - A que horas tenho de estar amanh no escritrio?
174
O rosto de Jon ficou sombrio. Acabou por dizer:
- Gosto de comear por volta das oito e trinta.
- Tudo bem. L estarei.
- Tens a certeza do que ests a fazer? - perguntou Olivia a Saul, com o semblante consternado. Ele abrira a porta e de imediato fizera um sinal negativo com a cabea, 
quando ela ia entrar em casa.
- Importas-te se falarmos l fora? - perguntou. Para mim  mais fcil. Podemos dar um passeio perto do rio. Lembras-te do quanto gostavas de nadar quando eras pequena?
- Sim, eu lembro-me como ficavas furioso quando eu estragava as tuas expedies de pescaria - riu Olivia. - Lembras-te quando eu ca...
- Como poderia esquecer? Apanhei um susto de morte. Apesar da tua me ter pensado que eu te empurrei de propsito.
- Aposto que muitas vezes quiseste faz-lo - brincou Olivia.
- Reconheo que tive algumas tentaes - reconheceu. - E no s de meter-te a cabea debaixo de gua.
- Ah, no? - Olivia franziu a testa, sem compreender.

- No - respondeu Saul carinhosamente. - No era isso que tinha em mente na noite em que te surpreendi a tomares banho nua.
Naquela ocasio, a exclamao de Olivia estava repleta de vergonha adolescente.
- Era a noite do solstcio de Vero e...
175
- Estavas de p sobre uma pedra no meio do rio, totalmente nua, fazendo reverncias  lua - interrompeu Saul, com voz rouca. - E parecias...
- Uma perfeita idiota - terminou Olivia. - No... uma nudista idiota - corrigiu com ar de gozo.
- Parecias uma jovem Afrodite, uma donzela que se oferecia em sacrifcio  lua, virginal e pura; to inocente como uma menina e to experiente como Eva. Tive vontade 
de tocar-te, de abraar-te. Tinhas estado a nadar e via a gua que escorria pela tua pele, pelos teus seios, pelo teu ventre, o... A luz da lua fazia com que o teu 
corpo parecesse de marfim, plido e quase translcido. Queria enterrar o rosto entre as tuas pernas e lamber as gotas de gua da tua pele. Queria unir-me a ti na 
tua nudez pag, no teu abandono sensual  noite e para a lua e, ento, voltaste a cabea, vestiste-te e...
- E ca  gua - terminou Olivia com voz trmula. Estava contente pela escurido que os envolvia, e no por Saul ter evocado a vergonha de adolescente que viveu 
naquela noite, mas por causa das sensaes e das emoes que sentia nas palavras dele. No sabia que podias ser to potico - conseguiu finalmente dizer, enquanto 
tentava reprimir a onda de calor que a invadia. Admitir que se naquela noite, h tantos anos atrs, Saul tivesse feito algumas das coisas que h pouco descrevera, 
o que teria completado a magia da noite, s serviria para reavivar um fogo muito perigoso.
Afinal de contas, ela descera at ao rio para cumprir uma velha tradio local, que dizia que se uma rapariga dirigir o seu pedido  lua no solstcio de Vero, a 
lua concede-lhe o amor do homem dos seus sonhos.
176
E, naquela altura, Saul... tinha sido o seu amor platnico da adolescncia.
Naquele momento, Saul estava vulnervel, pensou Olivia. O seu casamento acabara e estava a procurar nela, como parente que era, o apoio e o conselho que precisava.
- Ainda bem que foste tu quem me surpreendeu e no o av - comentou despreocupadamente. - Embora no tivesse sido um grande alvio naquele momento, agora penso na 
bronca de que me livraste. - estavam a atravessar o caminho que cruzava os jardins mais bonitos de Queensmead, at ao relvado que seguia at ao rio. - No h nenhuma 
possibilidade de Hillary e tu darem uma segunda oportunidade ao vosso casamento? - perguntou, mudando de tema.
- Uma segunda oportnidade? - riu Saul. - O nosso casamento j teve mais segundas oportunidades do que jantares quentes. No, Meg  o resultado da nossa ltima tentativa 
de darmos uma segunda oportunidade - reconheceu com franqueza. - E oxal no tivesse sido assim. Nenhuma criana deveria ser concebida como uma cura para um casamento 
doente.
- Saul... - hesitou Olivia, e automaticamente estendeu a mo para lhe tocar no brao com compaixo.

A diferena de idades j no era o imenso abismo que lhe tinha parecido aos quinze anos, quando Olivia estava loucamente apaixonada por ele. Nem Saul lhe parecia 
a criatura angelical e divina que naquela altura ela pensara que ele era. Preferia v-lo como o ser humano imperfeito que era, reconheceu, e embora a admirao que 
sentia por ele quando era uma rapariguinha tivesse desaparecido, a atraco fsica, no.
177
Imediatamente, soltou-Lhe o brao, e Saul parou para observar o seu rosto inundado pela luz da lua antes de agarrar-lhe a mo com fora.
- Caspar no teria nada a opor - disse. - Se  isso o que te preocupa. Ns somos primos.
- No  isso que me preocupa, e ns no somos... primos - referiu. - Pelo menos, no somos primos direitos, nem talvez afastados... Cus, comeo a ficar parecida 
com o av. Ele d sempre tanto nfase ao facto do teu pai ser apenas meio-irmo dele... Onde est Hillary? - perguntou. Estavam a chegar ao rio e podiam ver a superfcie 
a brilhar intensamente com a luz da lua.
- Saiu para jantar, acreditas? No fao ideia com quem - riu com amargura. - Sabes que no foi muito longe daqui que te vi naquela noite? - recordou.
- Ah, sim? - respondeu Olivia, que se virou de costas para o rio. -  melhor voltarmos, eu tenho...
- Livvy...
- Sim.
Adivinhava o que ia acontecer, claro. J no tinha quinze anos e sabia o que significava aquele tom na voz de um homem. Poderia ter fingido que no o tinha ouvido, 
poderia no ter respondido a Saul, mas em vez disso... Em vez disso, voltou-se para ele, e Saul deu um passo at ela e elevou as mos para Lhe acariciar o rosto 
com os seus dedos longos e esguios, com erotismo delicado e deliberado.
- Saul! - cobriu-lhe as mos para as tirar do seu rosto, mas j era muito tarde para parar o movimento descendente da cabea dele, a presso quente dos seus lbios, 
o beijo dele.
Olivia ps um fim ao beijo assim que conseguiu,
178
ordenando aos seus prprios lbios que no cedessem  tentao de responder; voltou-se depressa e comeou a caminhar com determinao pelo caminho que tinham acabado 
de percorrer, sem esperar por ele.
- Livvy, desculpa - Saul tentou desculpar-se quando a alcanou. - Eu no devia ter feito aquilo.
- No, no devias - afirmou ela, com naturalidade.
- Continuamos a ser amigos?
- Continuamos a ser amigos - repetiu Olivia, dando nfase  ltima palavra.
Saul sorriu enquanto lhe segurava na mo, mas ela afastou-se.
- Est bem, est bem, j percebi a mensagem - tranquilizou-a. - Caspar  um tipo com sorte - acrescentou. - Embora eu tivesse tido a impresso de que ele no gostou 
muito da ideia de ficares aqui para ajudar Jon.
- Ele disse-te isso? - perguntou Olivia rudemente.
- No com tantas palavras.

- No ser durante muito tempo. S drante algumas semanas, at o pai estar completamente recuperado - nem sequer perante Saul poderia reconhecer que no era s 
pelo seu pai que tinha sido forada a ficar. Era tambm pela sua me. At ao momento, no se tinha repetido a horrvel cena que Olivia tinha visto, mas a me dela 
era terrivelmente vulnervel; o modo como se agarrava ao tio Jon era prova disso. Precisava de algum ao seu lado.
Mas Olivia sabia que no fazia sentido tentar contar a Caspar como se sentia. Ele deixara muito claro qual a sua opinio sobre o distrbio da sua me. No
179
entanto... Caspar significava tanto para ela... No suportava a ideia de perd-lo e, na realidade, no havia qualquer razo para que tal acontecesse, disse para 
si mesma, enquanto acelerava o passo em direco a casa, ao seu carro, repentinamente desesperada e ansiosa por ver Caspar, por estar com ele.
Sim, talvez tivessem ideias opostas sobre o que estava a acontecer em Haslewich. Afinal, eram pessoas inteligentes e com carcter forte, que nem sempre tinham de 
coincidir em tudo. Na realidade, estariam sempre condenados a pensar e a sentir de formas distintas, e quanto mais importante era o problema, mais marcadas eram 
as diferenas, embora isso no significasse que eles no conseguissem entender-se e chegar a um acordo. Simplesmente, iria ter com Caspar a Filadlfia em vez de 
viajar logo com ele para os Estados Unidos e, at essa altura, ficaria a ajudar o tio Jon, enquanto Caspar retomava a sua vida na Amrica do Norte. Seriam apenas 
algumas semanas. Eles poderiam manter-se em contacto pelo telefone, apesar de no puderem...
As suas mos tremiam ligeiramente enquanto se despedia de Saul e abria a porta do carro.
- Quer falar comigo, av? - Max parou, irritado,  porta do escritrio de Ben.
Tinha estado a ponto de partir para Chester com a desculpa de pr aquele lado da familia ao corrente da evoluo de David, mas, depois de cumprir o seu dever, planeara 
passar o resto da tarde a divertir-se num hotel, longe da atmosfera de claustrofobia que se fazia sentir em Haslewich. Conhecia um clube no qual
180
a norma de admisso de scios era flexvel, sempre que algum podia permitir-se ao luxo de romp-la, e as mulheres... Ento, quando a sua me lhe disse que o av 
queria v-lo, Max tentou adiar o encontro com Ben at o dia seguinte pela manh, mas sabia perfeitamente que a me iria recusar mentir ao sogro.
Que diabos quereria o velho? Por acaso o namorado intrometido de Olivia teria feito alguma insinuao acerca da vaga do escritrio? Max comeou a suar ligeiramente. 
J devia estar em Londres, a tentar descobrir quem era a sua rival feminina e fazendo todos os possveis para sabotar as oportunidades dela em alcanar o que era 
dele. No entanto, Max no ousara partir at ter notcias mais concretas acerca do estado de David. Sabia muito bem o que Ben pensaria caso ele se fosse embora.

Nunca tinha visto o velho to transtornado. Mentalmente, Max pensou no seu discurso. O av concordaria com ele que era injusto que a vaga pudesse ficar com uma mulher. 
A opinio de Ben acerca do lugar das mulheres no Direito no era segredo para ningum. Max divertira-se ao ver Olivia tentar ganhar a aprovao de Ben. Para que 
 que ela se esforara? Nem Ben nem Jon a queriam no escritrio.
Por sorte, como se tinha formado para os tribunais superiores e no para exercer o cargo de advogado numa cidade pequena, no fazia sentido que se oferecesse para 
fazer um tal sacrifcio. A perspectiva de terminar como David, afundado em Haslewich, f-lo ter suores frios.
Ben tinha alguns documentos sobre a mesa. O corao de Max comeou a bater com mais fora
181
quando o velho lhe pediu para se aproximar e ele viu que papis eram.
- Tenho estado a rever o meu testamento - disse Ben, com a voz cansada. - Na minha idade,  uma precauo necessria, embora... - fez uma pausa e desviou o olhar 
para o fogo da lareira, enquanto Max tentava esconder a sua impacincia. Que raios queria o av? Caspar teria comentado alguma coisa ou no?
- Tal como as coisas esto, David, o meu primognito, herdar Queensmead e a maioria dos meus bens pessoais - comeou Ben a dizer com solenidade. Claro que especifiquei 
alguns objectos pessoais... existem algumas coisas para ti. Pelo menos at...
Max cerrou os dentes. J todas as pessoas sabiam aquilo, porque  que tinha de repetir tudo nova mente? Estaria a ficar senil? O seu crebro teria ficado afectado 
por causa do ataque de corao de David?
- Porm, o ataque de corao do teu tio muda tudo
- Ben falava lentamente, como se as palavras lhe doessem fisicamente. - Eu no posso ficar parado e esperar a possibilidade de David... - hesitou, e Max contemplou 
friamente o modo como Ben tentava controlar o tremor da mo, enquanto erguia o testamento. O velho estava cada dia mais frgil. Que idade tinha ele exactamente?
Max comeou a sentir-se relaxado. Ben no o tinha chamado por causa das dificuldades que ele es tava a ter em conseguir ocupar o lugar de scio do escritrio. Relaxou 
a postura, enterrou as mos nos bolsos e apoiou-se na parede com indiferena e indolncia.
- Eu no posso ignorar a possibilidade de David
182
morrer antes de mim. Em circunstncias normais, se isso acontecesse, Queensmead passaria para as mos de Jack, mas o menino s tem dez anos e a me dele... Bom, 
na minha opinio, as mulheres e os negcios no ligam. Poderia aparecer um canalha eloquente e sem escrpulos e Queensmead ficaria para sempre fora da nossa famlia. 
Eu no posso correr esse risco.
- David ainda no morreu, av - referiu Max.
- No - confirmou Ben. De repente, os olhos dele estavam cheios de lgrimas. - Meu Deus, o que se passa nesta famlia? Por que motivo temos que perder os que... 
Porque  que perdemos sempre os melhores? Quando o meu pai morreu, eu prometi-lhe que um dos meus filhos chegaria aos tribunais superiores e alcanaria o sonho que 
tinha sido negado a ele.
Max mexeu-se, impacientemente. J tinha ouvido mil vezes qual era a promessa que Ben fizera ao pai dele; o velho devia estar senil.
- David deveria ter tornado a minha promessa realidade. As circunstncias no o permitiram e ele no foi capaz, mas tu s. Vou modificar o meu testamento

- contou a Max, rudemente. - E deixar Queensmead para ti e a maioria dos meus bens, com a condio que tu estejas a exercer nos tribunais superiores no momento da 
minha morte.
Max teve dificuldades em controlar o choque... e a alegria. Meu Deus, e pensar que quando tinha ido ter com o velho tinha acreditado... Recomps-se rapidamente. 
Tlvez Ben estivesse a sofrer as consequncias do ataque de corao de David, mas continuava a ser um homem inteligente; lanaria tudo a perder se
183
o velho adivinhasse o que ele estava a pensar naquele instante, principalmente, os planos dele para Queensmead se algum dia tivesse a propriedade nas suas mos.
Talvez o seu av visse a casa e as terras como algo sagrado, mas ele no. Haslewich estava a crescer e, mais dia, menos dia, as terras de Queensmead despertariam 
o interesse dos construtores.
Meu Deus. Max sentia a alegria a correr pelas suas veias. Ganharia milhes de libras. Poderia esquecer os miserveis honorrios de um advogado. Mas, logo depois, 
recuperou a calma. Queensmead poderia ser dele, mas primeiro tinha de cumprir uma condio vital. Conhecia bastante bem o seu av e sabia que ele iria explicar tudo 
no testamento, como clusula irrevogvel. Estava outra vez a suar.
Se assegurar a posio de scio no escritrio era h uns minutos atrs importante, agora era totalmente crucial. Iria derrubar a outra mulher, e no se importava 
de usar qualquer estratgia para o conseguir. Tinha de assegurar a vaga, no podia dar-se ao luxo de perder mais tempo. David poderia sofrer um segundo ataque de 
corao no dia seguinte. O seu av poderia morrer com a mesma facilidade.
Em seguida, baixou a cabea, porque no queria que a sua expresso o denunciasse.
- O av  muito generoso - disse em voz baixa, e adoptou um semblante sereno antes de erguer a ca bea e olhar Ben nos olhos. - Eu prometo que farei o possvel para 
ser merecedor da... da confiana que est a depositar em mim.
- s um bom rapaz, Max - disse Ben, sinceramente. - s outro David.
184
Ah, no. Nunca seria outro David, pensou Max, decidido, triunfante. Nunca se deixaria agarrar, como David fizera, nunca deixaria que algum destrusse o seu futuro.
- Agora mesmo, daria qualquer coisa para estar no lugar de Olivia e ficar aqui... para ajudar - mentiu a Ben. - Mas eu no tenho tanta liberdade como ela. - astutamente, 
sabia que ao insinuar que Olivia tinha tanta liberdade era porque no se entregava tanto  profisso como ele, que era um irresponsvel por no se preocupar em voltar 
para o seu trabalho.
Era uma habilidade que tinha aperfeioado ao longo dos anos, e usava-a impiedosamente sempre que precisava. Por vezes era sincero, mas s quando isso lhe dava algum 
prazer. como naquele momento. Nunca gostara de Olivia. Ela era a boa menina. Pois se pensava que iria impressionar o velho ao ficar no escritrio...

- Tenho de voltar para Londres - continuou. Quanto mais cedo descobrisse a identidade da mulher que competia com ele para a posio no escritrio, melhor. - Queensmead 
estar segura comigo, av - mentiu novamente, enquanto apertava a mo do velho. - Prometo.
185
Dez
A luz do quarto estava acesa quando Olivia parou o carro em frente  casa. Abriu a porta com as suas chaves e subiu as escadas rapidamente, ansiosa por estar com 
Caspar, por contar-lhe o que tinha estado a pensar. Abriu a porta do quarto e ficou parada.
Era evidente que Caspar no tinha notado a sua chegada. Estava parado, de costas para ela, olhando pela janela. Ainda tinha a pele hmida do duche e pequenas gotas 
de gua deslizavam pelo seu tronco nu.
Olivia continuava com a garganta seca, as pernas trmulas e o corao aos saltos. Pela emoo que sentia, qualquer um diria que era a primeira vez que o via nu. 
Conteve o impulso de se aproximar e abra-lo e pronunciou o seu nome, sabendo que mesmo antes de ele se virar e olh-la nos olhos poderia adivinhar o que ela estava 
a sentir. Nunca tinha conseguido esconder o quanto o desejava, pensou.
- Caspar... - sussurrou com voz trmula e fingiu que no percebeu quando Caspar a tentou afastar do seu corpo hmido quando ela cedeu  tentao de o abraar com 
fora. - O que estamos a fazer connosco? Porque  que discutimos e lutmos quando...
186
- Quando o qu? - perguntou Caspar rudemente. Olivia sentia a presso das mos dela nos antebraos de Caspar, mas no se preocupou com o efeito que a pele hmida 
de Caspar poderia produzir nas roupas dela; a nica coisa que lamentou foi o facto de estar vestida.
- Quando podamos estar a fazer isto - disse com voz rouca; elevou o rosto at ele e colocou a sua mo na nuca dele, para guiar os seus lbios at aos dela.
Durante um momento, Caspar hesitou, e olhou fixamente para ela, enquanto Olivia sustinha o seu olhar com as pupilas dilatadas pelo desejo. Todo o seu corpo, todo 
o seu ser, estava inundado de um amor ardente que lhe deu uma certeza: o que sentiam um pelo outro, o que havia entre eles, era muito importante e forte para ficar 
em perigo com uma simples discusso. Juntos encontrariam uma forma de chegarem a um acordo.
Os lbios de Caspar estavam estranhamente imveis, frios e quase indiferentes, mas justamente quando ela comeou a franzir a testa e a afastar-se dele, Caspar segurou-a 
nos seus braos e beijou-a com fora. Olivia juntou-se a ele, ansiosa.
- Tens demasiada roupa - sussurrou Caspar com voz grossa entre beijos.
- Sim... Eu sei - disse Olivia, mas a necessidade de sentir os lbios de Caspar sobre os dela, de segurar aquela proximidade e intimidade, fazia-lhe recear afastar-se 
dele, ainda que fosse s para despir-se.
Por fim, o que ultimamente se tinha reduzido a um ritual necessrio antes de fazerem amor, tornou-se numa deliciosa agonia, num excitante jogo ertico de beijos 
roubados, carcias trocadas com dedos trmulos
187

e puxes rpidos. Finalmente, atiraram para o cho as roupas hmidas de Olivia e caram sobre a cama, num emaranhado de mos e pernas hmidas mas alegremente nuas.
- Hum... como s suave, como sabes bem - maravilhou-se Olivia enquanto lambia o peito de Caspar como se fosse uma gata.
- Como  bom ouvir-te dizer isso - gemeu Caspar, enquanto ela deslizava a lngua com erotismo ao longo das suas costas e depois fazia um crculo ardente em volta 
do seu umbigo. - Agora mesmo, o que me ests a fazer  mais do que... Ah - gemeu com os dentes cerrados quando ela deslizou a lngua at mais a baixo.
Olivia tentou atorment- lo, perguntando-lhe com voz rouca:
- E agora, que te estou a fazer? - apesar de na realidade estar to excitada com aquele jogo como ele.
Caspar voltou-se e, apanhando-a de surpresa, derrubou-a na cama para lhe perguntar:
- E que tal se eu te fizer uma demonstrao, para ver se gostas dessa tortura?
S que tortura no era a palavra que Olivia usaria para descrever o movimento sensual dos lbios de Caspar no corpo dela, acariciando de forma amorosa cada centmetro 
da sua pele.
- Caspar, no continues - sussurrou. - No posso esperar mais. Desejo-te. Quero ter-te dentro de mim... at ao fundo... agora.
Olivia estava a tremer dos ps  cabea quando Caspar parou para contempl-la.
Desde o princpio, o sexo entre eles sempre fora maravilhoso, perfeito... Olivia sentia-se inacreditavelmente bem ao acarici-lo intimamente, conseguindo ser directa 
e aberta com ele. Era aquela sinceridade, aquela concentrao no que estava a fazer que fazia com que a relao deles fosse to especial, e por isso detestava os 
desentendimentos dos ltimos dias.
A sensao de proximidade, de plenitude que sentia naquele momento, depois do culminar da unio sexual, fez com que os seus olhos se enchessem de lgrimas. Enquanto 
descansava nos braos dele, o seu corao estava a rebentar de tanto amor e felicidade que desejou conseguir transmitir a Caspar o quanto a relao deles significava 
para ela. Havia uma frase, um compromisso verbal que, embora para outros pudesse parecer insignificante, para Caspar mostrar-lhe-ia o quanto ela o amava.
Esticou a mo para viajar com o seu dedo pelo contorno das costas dele, pela sua boca, e disse suavemente:
- Caspar... Eu amo-te...
Durante um momento, Caspar ficou perplexo... quase chocado. Mas imediatamente abraou-a, com tanta fora que Olivia teve de protestar, entre risos, que no estava 
a conseguir respirar.
- Finalmente... finalmente - disse ele, triunfante.
- Diz-me outra vez, Livvy. Diz-me outra vez.
- O qu? - brincou Olivia, mas imediatamente voltou a sussurrar-lhe a palavra, primeiro ao ouvido e depois junto  boca. Quando viu o movimento dos lbios de Caspar 
ao responder com a mesma palavra, o desejo que acreditara j ter saciado completamente foi reavivado e eles comearam novamente a beijar-se e a acariciar-se novamente.
189

- Hum... Isto foi estupendo - sussurrou Olivia, enquanto se enrolava em Caspar.
- Isto?! - protestou Caspar com falsa indignao.
- Est bem, tu s fantstico - revelou Olivia, com voz sonhadora. - Estou to contente por j no estarmos a discutir... - a expresso dela ensombrou-se. Falei hoje 
com Saul. Ele disse-me que o seu casamento com Hillary acabou.
- Eu sei - afirmou Caspar, enquanto bocejava.
- Sabes? - perguntou Olivia, repentinamente alerta. Apoiou-se sobre o cotovelo e olhou para ele com a testa franzida. - Como?
Ver que ele hesitava antes de responder e que desviou o olhar fez com que os msculos do seu estmago contrassem e o observasse com desconfiana.
- Sei porque... Hillary contou-me, enquanto jantvamos.
- Jantaste com Hillary! Convidaste outra mulher para jantar sem me dizeres nada? - perguntou Olivia lentamente, ao mesmo tempo que a felicidade que sentira h momentos 
comeava a desaparecer. - Porque  que no me disseste nada? Porqu?
- Foi um impulso - respondeu Caspar, com raiva.
- Pelo amor de Deus, Livvy - disse ele, passando os dedos pelo cabelo com irritao. - J passa das duas da manh e, agora mesmo, a ltima coisa que eu quero  ser 
interrogado. Ainda agora disseste que no gostas quando discutimos e isto ...
- Eu no estou a discutir - interrompeu rudemente.
- No? Mas parece - replicou Caspar, de mau humor.
- Caspar, ns somos namorados, ns planemos um futuro em comum. Eu no sairia para jantar com outro homem sem te dizer.
190
- No, mas no te preocupaste em alterar os nossos planos e pores-me em xeque quando anunciaste que planeias ficar aqui mais tempo, para desempenhares o papel de 
filha e de sobrinha abnegada. Para ti isso  muito mais importante do que estar comigo, embora eles tenham mostrado que no querem nem precisam que faas esse sacrifcio 
- contra-atacou Caspar com ferocidade.
Olivia sentou-se na cama e olhou para ele, na escurido.
- Caspar, j te expliquei - referiu. - S sero algumas semanas. Pensei que irias entender e... e hoje  noite - mordeu o lbio antes de continuar. - Hoje  noite, 
ao dizer-te que te amo, pensei...
- O que  que pensaste? - interrompeu com fria.
- Que, ao fazeres o tremendo sacrifcio de te comprometeres verbalmente comigo, tudo ficaria bem. Que sou suficientemente estpido, suficientemente apaixonado por 
ti para ir embora e esperar pacientemente por ti at que estejas preparada. Isso explica o que aconteceu esta noite, Livvy? - perguntou com amargura. - Isso explica 
a paixo, o desejo, o sexo? Foi a tua maneira de me fazeres ficar calado? Bem lamento, mas no funcionou.
- Caspar - protestou Olivia, mas ele j se tinha voltado e deitado o mais prximo possvel da ponta da cama.
Podia chatear-se se quisesse, pensou Olivia, furiosa. Daquela vez, tinha deitado tudo a perder. Porque no lhe dissera que tinha jantado com Hillary? E pior ainda, 
alguma vez lhe teria contado caso no lhe tivesse escapado?
191
Ser que ele a amava realmente? Sem fazer barulho, ela tambm se deitou e virou-se de costas para ele.

- Olivia, posso falar contigo um instante? Olivia olhou para o outro lado da cozinha com hesitao. Quando tinha acordado para ir para o escritrio naquela manh, 
Caspar j se tinha levantado. Apesar de ser ainda muito cedo, j se tinha vestido e descido antes de Olivia, negando-lhe a oportunidade de falarem em privado na 
intimidade do quarto.
- Decidi telefonar para a companhia area esta manh - contou-lhe com aspereza.
Uma intensa m premonio invadiu Olivia.
- Podes ligar, mas pensava que no o faramos at regressarmos a Londres.
-  verdade - confirmou Caspar. - Mas ns no tnhamos pensado em ficar aqui mais do que um dia ou dois, para despedirmo-nos da tua famlia.
Olivia olhou para ele com desolao.
- Mas, Caspar, isso foi antes do meu pai ter o ataque de corao. No s capaz de... - mordeu o lbio inferior para manter a calma. - Caspar, por favor, no me faas 
isto... No nos faas isto... Caspar... - a sua voz tremeu tanto que teve de parar de falar.
- Livvy... Escuta, ainda temos uma oportunidade
- revelou Caspar, enquanto se aproximava dela e pegava nas suas mos. - Conta ao teu tio que mudaste de ideias e que no podes ficar. Eu reservarei lugares no primeiro 
voo que sair e...
- No... Sabes que no posso fazer isso - protestou Olivia, afastando-se. - Caspar, porque  que no
192
queres entender isso? - implorou, levando as mos  cabea para aliviar uma enxaqueca sbita. - Eu tenho de ficar.
- No  verdade - respondeu Caspar com crueldade. - Tu queres ficar. Tu, Olivia, mais ningum. Nem o teu tio nem o teu av precisam de ti. Tu queres ficar porque...
- Porque  o que devo fazer. O meu pai...
- O que deves fazer? - Caspar riu com amargura.
- J sabes o que eu penso sobre isso - disse com raiva.
- Nunca te tinha visto deste modo - protestou Olivia.
Os seus dentes batiam, apesar de no ter frio. Desde criana, nunca gostara nem de zangas nem de discusses. Uma das coisas que mais admirava em Caspar era a sua 
calma, a forma racional como resolvia os problemas, a capacidade de se abstrair das reaces emocionais e dos contratempos que tanto tinham marcado a infncia de 
Olivia.
- O que ests a tentar dizer - desafiou Caspar. -  que cometeste um erro... que te enganaste em relao ao homem que tens  tua frente. Bom, parece-me que o sentimento 
 mtuo. Para mim tambm no tem muita graa descobrir que tu no s como eu pensava que fosses - foram as suas duras palavras.
Olivia olhou-o de cima a baixo, incapaz de absorver completamente o que ele Lhe estava a dizer.
- Caspar - sussurrou, mas quando deu um passo at ele, Caspar retrocedeu.
- Talvez tenha sido para o bem de ambos que tenhamos entendido a verdade antes de chegarmos mais longe.
193

A verdade. Que verdade? Olivia amava-o... e ele amava-a a ela. No era isso a nica coisa que importava? Ou no? Se Lhe dissesse que tinha mudado de ideias, que 
quebraria a promessa feita ao seu tio e viajaria com ele para os Estados Unidos, era sobre essa base que ela queria construir o seu futuro, a sua relao? No estaria 
abrindo um precedente e, todas as vezes que tivesse de tomar uma deciso com a qual Caspar no concordasse ele esperaria que ela voltasse atrs? Como advogada, sabia 
melhor do que qualquer pessoa que nada era mais perigoso do que abrir qualquer tipo de precedente. Engoliu em seco.
Nunca tinha imaginado que Caspar, o seu Caspar, pudesse ser capaz de tanta maldade, de tanto egosmo... Nem que conseguisse sacrificar o amor que proclamava. A ideia 
doa-lhe fisicamente e, de repente, percebeu o que era sentir o corao partido. A dor era insuportvel mas, pelo menos, poderia apoiar-se no seu orgulho, o mesmo 
orgulho que a tinha aguentado durante os anos de preparao para a sua profisso, em que no tivera o apoio da sua famlia. Se tinha sobrevivido a isso, tambm sobreviveria 
ao fim da relao com Caspar. Embora no soubesse como...
- Se  o que queres... - disse em voz baixa, de forma a que ele no reparasse que ela estava prestes a desatar a chorar.
Sem esperar que Caspar dissesse mais alguma coisa, passou ao seu lado e subiu as escadas a correr. Embora tivesse lutado durante vrios segundos com o trinco, Caspar 
no tinha qualquer inteno de aproximar-se dela, abra-la ou de lhe dizer que estava enganado, que no suportava a ideia de se separar dela, que ainda a amava 
e a desejava.
194
Talvez tudo tivesse sido um erro, pensou. Talvez tivesse pensado que um sentimento superficial e efmero fosse amor verdadeiro. Mas, se fosse realmente um amor verdadeiro, 
um amor duradouro, o que acreditava partilhar com Caspar, ento no podia ser destrudo to facilmente.
Caspar viu Olivia a afastar-se, com as costas direitas. Quis cham-la, mas o seu orgulho no o permitiu. Ouvir Hillary falar de todas as suas reclamaes durante 
o jantar, no s de Saul mas da famlia inteira, tinha feito com que aumentassem as dvidas que Caspar tinha sobre a viabilidade da sua relao com Olivia, desde 
que tinham chegado  sua cidade natal... e, para ser honesto consigo mesmo, tambm tinha ressuscitado os fantasmas da sua infncia.
Ali estava Olivia a dizer que ele no era to importante para merecer a preocupao dela e que no o colocaria  frente da sua familia.
Caspar rejeitou instintivamente a proximidade emocional que unia os diversos membros da famlia de Olivia, ao ponto de fingir nem sequer ver os seus problemas e 
defeitos. No s rejeitou essa aproximao, como ela passou a ser uma ameaa para a sua relao com Olivia. Ao mesmo tempo, confirmou a sua crena de que a proximidade 
no era mais do que um engano e uma arma para controlar algum.
No era que tivesse cimes do compromisso de Olivia para com a sua famlia; simplesmente, no via sentido nenhum em desperdiar as suas emoes com uma mulher que 
no estava disposta a comprometer-se assim tanto com ele. Embora, ao regressar
195

aos Estados Unidos voltasse  sua cidade natal e  sua famlia, a vida que Caspar tinha planeado com Olivia limitava-se aos dois e s crianas que teriam. Iria relacionar-se 
com a sua famlia, claro, mas teriam vidas separadas e ningum teria permisso para interferir na vida privada deles. Da mesma forma que ele no pudera interferir 
na vida dos seus pais.
Na noite anterior, ao falar do seu marido e da familia dele, Hillary reclamara que sempre sentira que no fazia parte das suas vidas e que eles tinham feito tudo 
para que ela se sentisse diferente... uma intrusa. 
- Saul devia ter-se casado com uma rapariga inglesa, preferencialmente de Cheshire e, melhor ainda, da prpria famlia - contou a Caspar, com amargura. - Olivia 
teria sido a mulher perfeita para ele, claro - acrescentou com sarcasmo.
Claro. E a Caspar no lhe tinha passado despercebido o olhar de avaliao sexual de Saul ao contemplar Olivia.
Subiu as escadas e passou pela porta de Olivia, sem parar.
Em Londres, Max tambm acordou cedo, com inmeros planos a fervilharem no seu crebro. Tinha uma srie de coisas para fazer e o tempo no estava do seu lado.
Enquanto tomava um banho no seu moderno apartamento, pensou nos diversos planos que concebera na noit anterior, durante o caminho de volta para Londres. O importante 
era descobrir a identidade da sua rival. Rejeitou vrios planos, por no serem suficientemente prticos.
196
Enquanto fazia a barba, estudou o seu reflexo. Tinha herdado o nariz romano do av e a estatura e a corpulncia do pai e rlo tio. Tinha o cabelo escuro, quase preto, 
e os olhos de uma cor cinza plida, fora do comum. Em resumo, era muito bonito. Sorriu e deixou a descoberto os seus dentes brancos, fortes e regulares; ento, franziu 
a testa ao voltar a pensar no problema da identidade da sua rival.
No fazia sentido tentar sacar a informao do empregado do escritrio, que o desprezava. A maioria dos outros scios tambm no Lhe dispensava grande simpatia. 
Max sempre achara absurdo perder o seu tempo a ser amvel com uma pessoa que no lhe podia ser de grande utilidade. Alm disso, na opinio dele, sempre era mais 
fcil convencer uma mulher do que um homem, e Max tinha algumas vantagens adicionais que j explorava h anos.
As nicas mulheres que trabalhavam no escritrio eram as secretrias, duas delas j com idade para serem suas avs e com um temperamento azedo, o que as tornava 
imunes ao charme de Max. Visualizou mentalmente as outras trs.
No valia a pena tentar descobrir nada atravs de Laura, a secretria do assistente. Estava loucamente apaixonada por um dos scios mais velhos e iria logo contar-lhe 
assim que Max fizesse a primeira pergunta. Desta forma, s lhe restavam as outras duas: Wendy, a loira anmica e aptica, com dentes de coelho e hlito fedorento, 
e Charlotte, a sensual morena que j Lhe tinha mostrado que a sua ambio era tornar-se mulher de um advogado. Max no podia cometer o erro de subestimar a determinao 
de Charlotte.
197
Com as suas aspiraes sociais, ela seria uma boa esposa para um advogado, mas Max tinha os seus prprios planos e as suas prprias ambies matrimoniais.

Havia advogados e advogados, e ele sabia em que crculo se devia mover. Uma ajuda de um familiar influente no seria de rejeitar, nem uma esposa de uma familia rica 
que lhe permitisse introduzir-se na elite social. Mas ainda no estava preparado para se casar, de forma nenhuma.
Max, que conhecia a histria da famlia dele at ao ltimo e entediante detalhe, pensara frequentemente que, se estivesse na situao de Josiah, o seu bisav, teria 
cedido s presses familiares e deixaria que lhe escolhessem uma esposa.
Mal deixou a casa de banho, no perdeu o tempo e foi para a cozinha. Nunca se preocupava em tomar o pequeno-almoo. A despensa da sua casa raramente tinha alguma 
comida. Ou almoava e jantava fora ou comprava comida para microondas. At ao momento, nem o seu estilo de vida nem os maus hbitos alimentares lhe tinham prejudicado 
o fsico.
Olhou para o relgio enquanto vestia o casaco. Sempre Lhe parecera absurdo ter de ser pontual quando no havia ningum para apontar essa virtude, mas naquela manh 
tinha razes para querer chegar ao escritrio antes de todos. No se importava de folhear ele mesmo os arquivos do ajudante, mas para isso tinha de levar as chaves 
emprestadas, uma faanha que iria pr  prova as suas habilidades.
No. Tinha de ser Charlotte.
Fez uma expresso de agrado ao sentir a fragrncia
198
do perfume novo que tinha posto com deliberada generosidade. Fora um presente da sua ltima namorada e acreditava que Charlotte iria gostar.
Olivia estava nervosa como uma aluna antes de um teste. Devia ser por estar parada na rua,  frente do escritrio,  espera da chegada do tio Jon, pensou enquanto 
olhava para o relgio. Em seguida, olhou para o relgio da igreja para confirmar que no chegara demasiado cedo.
Tinha visto Caspar alguns instantes antes de sair de casa. Com uma atitude distante e fria, ele disse-lhe a que horas o seu voo saa para Londres, donde viajaria, 
alguns dias depois, para os Estados Unidos. Olivia queria chegar a um acordo com ele, mas o semblante dele desencorajou-a a tentar alguma coisa. Caspar no queria 
chegar a um acordo.
Assim, sara de casa sem sequer lhe desejar boa sorte e acabou por faz-lo meia hora mais cedo do que devia. Por isso estava h tanto tempo a dar voltas no passeio. 
Suspirou de alvio quando viu aparecer Jon de uma das muitas ruas que iam dar  praa. Eram oito e vinte e cinco.
- Olivia.
Ele no sorriu ao cumpriment-la. Parecia que no tinha dormido a noite inteira, pensou Olivia. A doena do seu pai envelhecera-oligeiramente e a sua face estava 
quase desfigurada.
Enquanto esperava que Jon abrisse a porta, Olivia desejou saber como Saul se estava a sentir naquela manh. Seria um capricho do destino que os dois estivessem a 
passar por dificuldades nas suas relaes ao mesmo tempo?
199

A loja onde Josiah Crighton abrira o seu escritrio j no existia; agora a familia era dona do edifcio inteiro. Mas, devido a um desejo de Ben, o escritrio continuava 
a ocupar o primeiro piso, como no tempo de Josiah, e os quartos de baixo tinham sido restaurados para darem lugar  recepo e  sala de espera.
Enquanto subia as escadas estreitas atrs de Jon, Olivia lembrou-se com nostalgia como gostava de ir ao escritrio quando era criana e como ficava fascinada com 
os volumosos livros jurdicos que cobriram as paredes do corredor.
Dos dois escritrios, o do seu pai sempre fora o maior, e Olivia parou com algum desconforto atrs da porta. Ento, virou-se para Jon.
- Se preferir o escritrio do pai... - sugeriu. Jon negou com a cabea.
- No, no te preocupes. Na realidade, eu prefiro o meu - acrescentou ao ver que ela continuava a hesitar. -  mais silencioso e tem mais luz.
Olivia abriu a porta do escritrio do seu pai com uma certa indeciso. Franziu a testa ao inspeccionar o interior; parecia muito mais espaoso do que se lembrava. 
Ento, percebeu que o armrio arquivador de metal pesado que ocupava uma parede inteira tinha desaparecido.
- Onde... - perguntou, apontando para o espao vazio.
- Mudmos o arquivo para o meu escritrio - explicou calmamente Jon, mas Olivia sentiu que, por alguma razo, a pergunta o tinha incomodado. - Ns estamos a informatizar 
tudo e, como fui eu que frequentei o curso, David pensou que seria melhor ter o arquivo mais  mo.
200
Uma explicao lgica e simples, mas Olivia sentia-se estranhamente intranquila. Algo do que o seu tio acabara de dizer no era completamente verdadeiro.
- Vou demorar alguns dias a habituar-me  rotina
- disse a Jon. - Terei de me familiarizar com os casos e com os clientes do pai e ler os arquivos. Sei que o tio se encarrega da parte notarial e das escrituras 
e trespasses e o meu pai dos fundos fiducirios e dos testamentos.
- Em termos gerais, sim - confirmou Jon, mas no estava a olhar para ela e, uma vez mais, Olivia sentiu uma tenso estranha na voz dele que, como suspeitou, se devia 
ao facto de ele no querer aceitar a ajuda dela.
No podia ser demasiado sensvel, pensou Olivia. Estava ali para ajuda, no para causar mais problemas.
- Bom, eu farei o que puder - disse, sorrindo. Vou precisar de uma lista dos clientes do pai e...
- Pois... Temo que ns no tenhamos feito as coisas com tantas formalidades - interrompeu Jon. No era necessrio e, muitas vezes, os casos acabavam por se sobrepor.
Olivia franziu a testa. No era assim que ela pensava que o escritrio funcionava. Sempre pensara que o trabalho estava distribudo claramente pelos dois irmos.
- Bom, se me der as chaves da secretria do meu pai, eu dou uma vista de olhos  agenda dele - sugeriu Olivia:
Vrios segundos passaram at que Jon lhe desse as chaves, e Olivia teve a sensao de que, na realidade,
201
ele no as queria dar. Angustiada, entrou no escritrio e fechou a porta com fora atrs de si.
Minsculas partculas de p agitavam-se atravs da luz solar que passava pelas janelas do escritrio. Olivia abriu uma delas de forma a deixar entrar o ar fresco. 
O quarto cheirava a cera com aroma de lavanda e madeira velha.

O tio Jon mencionara que eles estavam a informatizar os arquivos mas, julgando pela antiguidade do computador do seu pai, Olivia duvidou que ele o usasse muito.
Aproximou-se da mesa. Tinha mais de cem anos; era uma escrivaninha de madeira pesada com revestimento de couro. Ali trabalhara o seu av e, antes dele, o seu bisav. 
Acariciou suavemente o couro velho. O escritrio inteiro estava cheio de tradio, ela at conseguia respir-la. Talvez, se Caspar tivesse visto aquele escritrio, 
tivesse percebido.
Caspar... Olhou para o telefone. Ele s iria partir ao meio-dia. Ainda podia telefonar, ainda podia voltar para casa.
Com determinao, voltou as costas para o telefone e abriu as gavetas da escrivaninha. Imediatamente encontrou a agenda do seu pai e as gavetas estavam surpreendentemente 
limpas e ordenadas, como se algum j as tivesse inspeccionado, como se...
Sentou-se e abriu a agenda. No tinha compromissos durante aquele dia, graas a Deus. Assim poderia colocar-se ao corrente dos seus assuntos: Tambm no havia nenhum 
compromisso marcado para o dia seguinte, nem para o outro. Olivia franziu a testa ao ver que no havia compromissos nenhuns, alm de alguns encontros para jogar 
golfe.
202
Com intranquilidade, folheou a agenda para trs e ficou tensa ao ver as pginas em branco. O pai devia ter outra agenda e talvez s usasse aquela para marcar as 
partidas de golfe. Sim, devia ser isso, pensou com preocupao enquanto pousava a agenda na mesa e comeava a ver o resto das gavetas. Nada! No encontrou nada!
Abriu a agenda novamente e voltou a observ-la. Os compromissos eram abundantes no comeo de ano, mas tinham comeado a diminuir, passando a ser apenas dois ou trs 
por semana e, depois, at mesmo menos, o que significava...
- Olivia - ficou rgida quando a porta se abriu e Jon entrou no escritrio. - O correio chegou - disse.
- Se quiseres vir ao meu escritrio, podemos ver o que chegou... Ah, encontraste a agenda do teu paicomentou.
- Sim - confirmou Olivia. Inspirou profundamente e forou um sorriso. - Por sorte, no h nenhum compromisso esta semana, alm de uma festa de golfe.
- Ah, sim,  uma sorte - afirmou Jon tambm com um sorriso forado, embora parecesse estar mais relaxado quando ela subiu para o acompanhar at ao seu escritrio. 
Porque  que ele estava a querer mostrar-Lhe que ela ia trabalhar no escritrio, ou porque no tinha dado importncia ao facto da agenda do seu pai estar vazia?
Ao contrrio do escritrio do seu pai, o de Jon parecia menor do que antigamente e, claro, l estava o velho e grande arquivo. A sua sala tinha moblias e material 
informtico mais moderno. Enquanto a mesa de David estava quase vazia, a de Jon estava repleta
203
de arquivos e documentos, e a sua agenda, que estava aberta perto do teclado, estava a abarrotar de anotaes.
- Afinal o escritrio no se transformou num navio fantasma do oceano jurdico - gracejou Olivia.
- Que disseste?

- Que, por sorte, ainda temos alguns clientes, tio Jon - explicou Olivia, com alguma ironia. - Ao ver a mesa e a agenda do meu pai vazias, comecei a pensar que ns 
estvamos sem clientes.
- Ah, j... Percebo. Bom, j sabes como . s vezes, uma parte do negcio d mais trabalho do que a outra.
- Sim... Deve ser. Quer portanto dizer-me que ningum morreu em Haslewich este Vero?
Estava a ser injusta, reconheceu Olivia com remorsos ao ver o olhar atormentado do tio Jon.
- Peo desculpa- disse ela. -  que, pelo que Tiggy me tinha contado, eu ficara com a impresso de que o meu pai estava muito ocupado.
- Sim, sim... Ele estava.  que... Bom, vou ser sincero, Olivia. No outro dia eu vim c e...
- E limpou a mesa do meu pai - terminou no lugar dele, mas sabia que o seu tom tinha sido mais de acusao do que de aceitao por um gesto amvel.
- S quis ter a certeza de que no havia nada urgente - disse Jon com rigidez.
Talvez, depois de tantos anos a ser relegado para um segundo plano, tanto na famlia como no escritrio, o tio Jon se tivesse rebelado e. e encontrado a oportunidade 
para se afirmar e superar o seu irmo. Olivia tentou afastar aquele perturbante pensamento: O Jon que ela conhecia sempre apoiara o seu pai em
204
tudo. Mas, sem dvida, em algumas ocasies, deveria ter sentido um certo ressentimento, cimes ou at mesmo raiva por ser sempre o menos importante.
Lanou um olhar ao seu tio, enquanto ele comeava a verificar com ela o correio e lhe passava uma a uma todas as cartas, explicando a sua origem.
Uma hora depois, Olivia decidiu que no tinha motivos para suspeitar de qualquer coisa. As cartas pareciam bastante claras e ao escritrio no chegaram nem litgios 
complicados nem casos de direito comercial internacional, em que era especializada.
- Vou ter de sair. Tenho um compromisso com lorde Burrows s onze horas - informou Jon. - Ele quer rever alguns dos contratos de arrendamento dos seus fazendeiros.
Sim, era um trabalho totalmente diferente, reconheceu Olivia.
- E depois prometi  tua me que a acompanharia ao hospital
Pelo que parecia, o dia de Olivia consistiria em editar um testamento, consultar nos livros alguns dados para uma transferncia, clarificar os limites de uma propriedade 
e folhear a meia dzia de arquivos que Jon tinha deixado nas suas mos. Nada que fosse suficientemente complicado para ela conseguir manter-se absorvida no trabalho 
e deixar de pensar em Caspar... infelizmente.
205
Onze
O primeiro contratempo que Max experimentou naquele dia aconteceu ao entrar no pequeno escritrio no qual os dois secretrios trabalhavam e ver que Charlotte no 
tinha chegado.

- Ela foi ao dentista - disse-lhe Wendy, como se fosse uma criana a sussurrar nervosamente. Max aproveitava sempre para atorment-la, fingindo no a ouvir. Ele 
sabia que ela ficava nervosa com a proximidade dele e que no sentia grande simpatia pelo advogado. Da mesma forma, Max sabia que ela era demasiado tmida para protestar 
quando ele chegava  sua sala com documentos enormes para passar  mquina apenas cinco ou dez minutos antes da hora de sada.
Charlotte nunca se deixava enganar por ele e Max percebia a habilidade com que ela sempre deixava a maioria do trabalho para Wendy e, ao mesmo tempo, dava a impresso 
de que era a mais eficiente e trabalhadora das duas.
Charlotte e ele eram parecidos em muitos aspectos, muito mesmo, e por isso tratavam-se com um respeito considervel.
206
- Bom, quando ela voltar, diga-Lhe que eu quero falar com ela, est bem? - pediu a Wendy.
Ao entrar no escritrio de Wendy, a face e o pescoo da jovem coraram violentamente, de forma desagradvel. Seguramente, ainda era virgem, pensou Max, e continuaria 
a ser.
J dentro do seu escritrio, Max contemplou a escrivaninha repleta de casos, apesar de nenhum Lhe proporcionar mais do que umas mseras cem libras. Assim que ocupasse 
a vaga, tudo iria mudar, claro. Assim que a ocupasse. Olhou para o relgio. Quanto tempo iria demorar no dentista? Pelo amor de Deus, onde estava Charlotte?
Sentou-se e comeou a ler o primeiro processo impacientemente. Outro caso impossvel. Deus, porque  que aqueles desgraados se davam ao trabalho? Contemplou com 
desprezo a carta do conselheiro jurdico, na qual requeria a opinio do advogado sobre a viabilidade do pedido do cliente. At um menino poderia ver que aquele processo 
no tinha uma base slida. E, sem base slida, no haveria nenhum pedido e, sem pedido, no haveria nenhum honorrio.
Passou ao processo seguinte.
J era quase hora do almoo quando Charlotte entrou no seu escritrio a bambolear-se, com o penteado e a maquilhagem to imaculados como sempre, a saia um pouco 
mais curta do que seria aconselhvel e o casaco mais apertado do que usaria uma mulher que encarasse a profisso dela seriamente.
- Pediu para falar comigo?
Enrugou de forma provocativa os lbios pintados de vermelho, enquanto se aproximava dele e tinha a certeza de que ele poderia admirar as suas formas e a
207
curva generosa dos seus seios. Max recostou-se na poltrona, entrelaou as mos na nuca e olhou-a lentamente, de cima a baixo.
- Eu gosto sempre de a ver, Charlotte - assegurou, em tom de gozo. O olhar que ela lhe dirigiu sugeriu que no havia tempo a perder. - Voc sabe que dentro de dois 
meses se celebra o baile anual - comentou, enquanto viu o receio com que ela o observava.
O baile anual era um evento extremamente badalado, com entradas limitadas que s eram vendidas a convidados previamente seleccionados. Pela primeira vez, Max tinha 
conseguido duas entradas... de um modo ilegtimo, claro. A mulher de um certo juiz, que fazia parte da comisso de organizao e que tinha seduzido Max, inclura 
o seu nome na lista para o baile.

Charlotte, a menos que algum com entrada a convidasse, no teria oportunidade de assistir a um evento daqueles, e ambos sabiam disso. Ela tambm sabia que um evento 
daqueles era perfeito para a sua procura do marido ideal. Era inimaginvel o nmero de contactos e oportunidades que uma rapariga como Charlotte poderia obter num 
baile daqueles.
- Ah, sim? - respondeu Charlotte, com uma incerteza deliberada. Max esboou um sorriso tolerante.
- Tenho duas entradas, mas no tenho par - fez uma pausa. Charlotte estava ainda mais receosa. - Eu preciso de ajuda... de uma certa informao - continuou Max em 
voz baixa. Aquela era a parte arriscada. O salto de uma posio de fora e segurana para outra mais vulnervel. No havia garantias de que Charlotte aceitasse a 
recompensa. Poderia deix-lo agarrado e ento...
208
- Que informao? - perguntou com precauo. Max comeou a sentir-se relaxado.
- Uma informao razovel - tranquilizou-a. - S um nome...
- Um nome... Que nome? - perguntou Charlotte, com as sobrancelhas arqueadas.
- No sei bem qual nome - corrigiu Max, com arrogncia.
Aquele era o segundo risco; embora Charlotte tivesse acesso  informao, ela poderia decidir no lha dar. Fez uma pausa, recordando-se do que estava em jogo e decidiu 
falar sem rodeios:
- H outro candidato para a vaga do escritrio, uma mulher. Eu quero saber como  que ela se chama.
- S os scios tm acesso a essa informao - lembrou Charlotte.
- Os scios e o assistente do escritrio - afirmou Max, com fluncia. - Mas, em algum momento, ser necessrio marcar uma reunio, escrever uma carta...
-  Laura quem toma conta desse gnero de correspondncia - informou-o. Max elevou as sobrancelhas. - Est bem, eu farei o que puder - consentiu Charlotte. - Mas 
no lhe prometo nada.
- Nem eu - frisou Max. Ele olhou nos olhos dela.
- Terei de esperar at que Laura saia.
- Excelente. Ento, pode passar-me  mquina esses documentos?
Charlotte dirigiu-lhe um olhar de curiosidade e perguntou-Lhe com voz jovial:
- Essas entradas incluem o jantar ou s o baile?
- Incluem tudo - assegurou Max. - O baile, o jantar e o cocktail de boas-vindas que  servido 
209
primeiro. Eu espero que voc tenha um vestido apropriado.
Charlotte sorriu para ele.
Num certo sentido, era uma pena, pensou Max quando Charlotte se foi embora. Tinha tido muito trabalho para conseguir aquelas entradas e, em circunstncias normais, 
no as teria desperdiado com algum como Charlotte. Mas claro que, devido a tudo aquilo que estava em jogo, algum sacrifcio teria de fazer.

Os casos do escritrio no moviam as enormes somas de dinheiro com as quais Olivia estava habituada a trabalhar, mas eram sem dvida muito mais interessantes, concluiu 
depois de ler os antecedentes complicados de um deles. Era um litgio entre dois irmos que reivindicavam um pedao de terra herdado pelo tio deles. Ambos eram dois 
fazendeiros prsperos da zona, mas o pedao de terra que disputavam com tanta ferocidade tinha um rio, e era o acesso a este a verdadeira causa da disputa. O problema 
era at mesmo mais srio porque, em algum momento, um deles tinha perdido a pacincia, ou pelo menos assim assegurava um dos irmos, e o fluxo passou para as terras 
do outro irmo como que por artes mgicas.
Olivia tinha ocupado grande parte da manh a estudar mapas velhos e escrituras, uma tarefa com a qual no estava familiarizada e que exigiu toda a sua ateno. Os 
olhos comearam a doer-lhe, pelo esforo de ler aquela letra velha e sinuosa. Foi nessa altura que se lembrou de ter visto uma lente de aumento na escrivaninha do 
tio.
210
Jon j sara para ir para o seu primeiro compromisso, mas deixara aberta a pona do escritrio e Olivia poderia encontrar a lente perto de alguns documentos. Entrou 
e dirigiu-se para a mesa. Justamente quando esticou o brao para pegar na lente, chamou-lhe a ateno a pasta dos extractos de conta que estava em cima da mesa. 
Eles pertenciam ao seu pai, reparou Olivia, e era evidente que Jon os tinha estado a examinar porque comeavam no ms de Fevereiro. Havia uma linha do extracto marcada 
com um crculo vermelho e Olivia olhou instintivamente. Ficou perplexa ao descobrir que a linha marcada correspondia a uma entrada de quase duzentas e cinquenta 
mil libras.
O seu pai no era o tipo de homem capaz de guardar grandes somas de dinheiro. Como famlia viviam bem, muito bem, mas tanto o seu pai como a sua me eram um pouco 
esbanjadores; eles nunca se preocuparam nem com poupanas nem com investimentos, por isso, ou eles tinham recebido o dinheiro ou...
O seu corao comeou a bater com fora. Olivia sentou-se na poltrona do tio e examinou os extractos. O dinheiro tinha entrado atravs de uma transferncia. Da conta 
do av, talvez? Olivia sabia que, em alguma ocasio no passado, o seu pai tinha tido de pedir um emprstimo a Ben mas, sinceramente, ela pensava que a quantia que 
o seu pai pedira era muito menor. Sem pensar duas vezes, comeou a rever todos os extractos.
Quando terminou, estava com frio e as suas mos tremiam tanto que mal conseguia passar as folhas dos extractos. Nos ltimos cinco anos, o seu pai tinha recebido 
perto de dois milhes de libras. A ltima dessas rendas acontecera poucos dias antes de sofrer o ataque de corao, e tinha sido para cima de cem mil libras. Como 
tinha conseguido tanto dinheiro? Onde o teria gasto? Seguramente, devia t-lo desperdiado de um modo catastrfico. Sim, era fcil de imaginar como  que o dinheiro 
se tinha gasto, mas de onde tinha vindo?
Teve a sensao perturbante de que j sabia a resposta. Podia no saber a fonte exacta, mas j desconfiava da sua origem. Fechou os olhos e inspirou pro fundamente, 
para se tentar acalmar.
- Pai, como  que foste capaz? - sussurrou com voz trmula.
O olhar dela recaiu sobre um arquivo que tinha sido colocado debaixo dos extractos. Era parecido com um que Olivia tinha visto o seu tio a mexer no escritrio da 
casa do seu pai. Um pouco hesitante, pegou e leu o nome. Jemima Harding. Conta fiduciria".

Os seus dedos tremiam tanto que teve dificuldade em abrir o arquivo. Conhecia a famlia Harding, vivia em Haslewich. No princpio eles tinham sido os proprietrios 
das terras; durante a guerra arrendaram parte das terras para o exrcito americano se instalar e, h muito tempo atrs, venderam aquela mesma terra, em conjunto 
com o resto das propriedades da famlia Harding, a uma empresa farmacutica internacional que tinha a sede britnica a poucos quilmetros da cidade. A venda tinha 
transformado Jemima Harding em milionria. Tambm Lhe tinha permitido comprar para o seu nico filho o carro desportivo que acabara por lhe roubar a vida e, de acordo 
com os rumores,
212
esse acontecimento trgico fez com que ela se divorciasse do seu marido.
Era j uma velha senhora, na casa dos noventa anos e vivia num lar para idosos. Tambm era uma das clientes do pai, que era o seu nico testamenteiro e procurador. 
Ser que tinha sido atravs dela que o seu pai obtivera o dinheiro?, desejava saber Olivia, cujo corao estava mais apertado do que nunca. Teria ele tirado proveito 
da sua condio de procurador para transferir dinheiro da conta de Jemima para a sua? No teria sido difcil nem fazer nem esconder isto... at porque Jemima continuava 
viva e ningum questionava o que estava a acontecer aos seus bens.
O seu pai tinha roubado dinheiro, tinha trado a confiana de uma pessoa. Era igual aos ladres que arrombavam uma casa no meio da noite e que roubavam as poupanas 
e as penses dos homens velhos. Era.
Engoliu a saliva com dificuldade. E o tio Jon? Saberia daquilo? Teria adivinhado? Seria por isso que... A sua cabea estava a ponto de explodir.
De repente, Olivia desejou estar com Caspar. Se no tivesse visto aqueles extractos, se no tivesse aberto o arquivo... Se estivesse com ele naquele momento a viajar 
para Londres...
Estava surpreendida com ela mesma, que sempre tinha sido considerada uma mulher forte e independente mas, na hora da verdade, revelava ser uma autntica covarde 
que, em vez de divulgar o que tinha descoberto, preferia escapar-se e esconder-se, preferivelmente na segurana dos braos de Caspar.
Caspar! Olhou para o relgio. Ainda no era muito tarde para alcan-lo antes de partir, pensou de forma
213
alucinada. Se fosse directamente para o aeroporto, poderia chegar a tempo.
J tinha vestido o casaco e apanhado a mala enquanto pensava. Cruzou a sala de entrada do piso de baixo to depressa quanto possvel e apenas parou um momento para 
dizer  recepcionista:
- Eu vou... Vou ao aeroporto ter com um amigo. Volto depressa.
Cus, porque  que tinha olhado para aqueles extractos? O que estava a acontecer  vida dela? Porque tivera de descobrir aquelas coisas sobre os seus pais que preferia 
no saber? Nem sequer a ameaa silenciosa das mquinas fotogrficas dos radares da polcia a fizeram respeitar o limite de velocidade e avanar  frente dos outros 
veculos, com um descuido nada prprio dela. Estava apavorada por no conseguir chegar a tempo de ver Caspar. Tinha de v-lo... Tinha de...

O aeroporto tinha crescido desde a sua ltima visita, e Olivia cerrou os dentes enquanto procurava freneticamente um lugar no estacionamento; depois, deixou o carro 
de qualquer forma no primeiro buraco que encontrou e comeou a correr em direco  zona de partidas, enquanto rezava para que Caspar ainda no tivesse ido para 
a porta de embarque.
O elevador que a conduziu para a zona de chegadas e partidas estava cheio de pessoas e Olivia mexia nervosamente os dedos, durante a interminvel viagem. De repente, 
viu Caspar, que estava de costas, e ficou gelada.
Teve um forte impulso de cham-lo e teve de morder a bochecha para no o fazer. Apercebeu-se de que
214
ele estava a falar com algum. Caspar deu um passo para o lado e Olivia pde ver quem era.
Hillary.
O choque f-la tremer dos ps  cabea. Sentiu-se enjoada, nauseada, fraca... 
Hillary. O que estava ela a fazer com Caspar? Enquanto olhava para ele, Hillary ps-se em bicos de p e sussurrou algo ao ouvido de Caspar. Ele voltou a sorrir e 
Olivia sentiu o seu corao a dar um salto. Hillary moveu a cabea e comeou a beijar Caspar, enquanto se aproximava subtilmente dele. Caspar tinha uma mo no ombro 
de Hillary.
Olivia pensou por um momento que ia desfalecer. A incredulidade, a angstia e a fria ardente e cega uniram-se para produzir nela uma dor sem precedentes.
Hillary seria a razo pela qual Caspar tinha posto fim  relao? No, como a tinha acusado, porque duvidava da fora dos sentimentos dela, mas porque os sentimentos 
dele tinham mudado. Porque j no a amava nem a desejava. Por Hillary. Hillary que, como ele, era americana. Hillary que, como ele, no valorizava os laos e as 
responsabilidades que implicavam fazer parte de uma familia. Hillary que conseguia deixar para trs os filhos e o marido, da mesma forma que Caspar a tinha deixado 
para ir com ela. Mas se ele pensava que encontrara em Hillary uma pessoa que o colocaria  frente de tudo o resto, estava mesmo, mas mesmo muito, enganado, pensou 
com o corao a doer. Era o tipo de mulher que s se preocupa consigo prpria.
J estava na zona de chegadas e partidas, mas no
215
perdeu tempo a falar com Caspar. Pelo contrrio, caminhou em linha recta at  sada.
Caspar. O seu amor, o seu refgio... Comeou a rir com amargura.
- J no precisas de te preocupar com o trabalho, David, porque Olivia vai ficar e ajudar no escritrio e...
- No.
Tiggy olhou para Jon com nervosismo, como se estivesse a implorar-lhe em silncio que a ajudasse. Jon tinha-se oferecido para esperar l fora enquanto ela conversava 
com o seu marido a ss, mas Tiggy pediu-lhe que a acompanhasse.
Jon j a tinha avisado que se sentia incomodado e nervoso quando ia ver David, mas ela acreditava que muito poucas pessoas conseguiam manter a calma perante aquele 
cenrio de aparelhos mdicos. Tinham-lhes avisado que David no se poderia irritar, e era evidente que ele estava irritado naquele momento.

- No estejas preocupado, David - tranquilizou o seu irmo. Apertou discretamente o alarme para chamar uma enfermeira e amaldioou-se por no ter dito a Tiggy que 
no mencionasse a ajuda que Olivia estava a dar no escritrio.
Dez minutos depois, quando a enfermeira os obrigou a deixar o quarto, assegurando-lhes que David no estava a ponto de sofrer um segundo ataque de corao mas que 
precisava de descansar, Tiggy en roscou-se nos braos de Jon.
- Jon... eu tenho tanto medo... - soluou. - Eles
216
dizem que j no falta muito para David voltar para casa, mas tenho medo que quando isso acontecer...
- No te preocupes - consolou-a Jon. - Tenho a certeza de que os mdicos no permitiro que David deixe o hospital at que tenham a certeza de que ele est recuperado.
-  que ele j no parece o mesmo - insistiu Tiggy, ainda a chorar. - Porque  que ficou to zangado por causa de Olivia?
- Seguramente, est preocupado por isso poder afectar o trabalho dela em Londres - mentiu Jon. No te preocupes com isso. No te faz bem nem a ti nem a David.
- Jon, s to compreensivo... Jenny tem tanta sorte... - suspirou Tiggy enquanto se aconchegava junto dele. - Passava a vida a dizer a David para ele ter cuidado 
com o peso. Tu ests muito mais magro...
- ergueu a cabea e esticou o brao para tocar-lhe no cabelo. - Porque no experimentas outro corte de cabelo, algo mais moderno? - sugeriu timidamente. Iria favorecer-te.
- No me parece - respondeu Jon, rindo, ao imaginar os penteados do seu filho mais novo e dos seus colegas da escola. Mesmo assim, sentiu-se lisonjeado por Tiggy 
se ter mostrado interessada nele e Lhe ter feito um elogio. Jenny nunca lhe teria dito qualquer
coisa semelhante; sem dvida que, a Jenny, nunca Lhe tinha passado pela cabea elogiar um homem.
- Oh, Jon... - Tiggy sorriu, com os lbios trmulos. - Vais pensar que eu sou uma pessoa horrvel se te disser que, ultimamente, tenho pensado que me enganei no 
irmo?
Jon teve de engolir em seco enquanto a abraava.
217
Tiggy despertava nele as mesmas emoes que experimentara ao segurar pela primeira vez nos seus filhos recm-nascidos. S que havia um ingrediente adicional, uma 
carga de sensualidade e sexualidade que fazia com que ele se sentisse ao mesmo tempo extasiado e envergonhado.
A mulher dele era Jenny e Tiggy era a mulher de David. Que pior traio podia cometer do que desejar a esposa do seu irmo gmeo?
- No quero ir j para casa - sussurrou Tiggy. No podemos ir para algum outro lado?
- Tenho de voltar ao escritrio - comeou a dizer Jon, mas Tiggy agarrou-o com fora.
- Podamos almoar juntos. Todas as pessoas precisam de uma hora para o almoo. Por favor, Jon - implorou. - Eu no quero estar sozinha.
 medida que o avio comeava a subir pelo cu surpreendentemente azul de Manchester, Caspar olhou com semblante sombrio pela janela. S naquele momento reconheceu 
que, por irracional que parecesse, no fundo ele esperara at ao ltimo minuto que Olivia aparecesse.

Porm, o poder do menino furioso era to forte e ciumento que, mesmo reconhecendo que queria falar com ela, no tinha tido coragem de lhe ligar do aeroporto.
Se Olivia realmente o amasse, teria colocado as necessidades e os desejos dele antes de tudo o resto; aquela era a reivindicao obstinada do menino que havia dentro 
dele.
S que a voz interior do homem maduro dizia-lhe:
218
Pensa como te sentirias se estivesses no lugar dela, em como reagirias quele tipo de ultimato. Irias ceder  chantagem emocional? Quererias manter uma relao com 
uma pessoa to manipuladora?"
Com o esprito cansado, passou a mo pelo cabelo. De qualquer forma, nunca teria corrido bem. Olivia teria de estudar novamente para poder trabalhar como advogada 
nos Estados Unidos. O sistema era diferente, mais poltico, mais implacvel, e Olivia, apesar da sua inteligncia e destreza, irradiava uma suavidade feminina que 
para ele e, como suspeitava ele, para outros homens, era atraente. Porque  que os homens gostavam de mulheres vulnerveis? Caspar moveu-se com irritao no seu 
assento. Talvez tivesse um bom corao, mas no havia dvidas de que era obstinada. Porm, no seu lugar, no quereria ele mostrar-se perante os membros da sua familia 
e provar que podia trabalhar to bem ou melhor que eles? Um desafio irresistvel, no lhe parecia? Ento, porque esperara que Olivia recusasse?
Ele nunca tinha tido inteno de jantar com Hillary. Desde o primeiro momento, Caspar percebera que a mulher de Saul estava  procura de uma forma para justificar 
a ruptura do seu casamento e de algum que a apoiasse naquela deciso. Como americano e, principalmente, como pessoa desligada da famlia, era natural que ela se 
apoiasse nele, mas ao ouvi-la, no havia dvida de que ele prprio se tinha colocado numa situao terrvel. Ao encontrar-se com Hillary na noite anterior, impulsivamente, 
tinha-se aproveitado da oportunidade para aumentar o fosso que se tinha aberto entre Olivia e ele. Mas no
219
gostara muito de encontrar-se com ela por casualidade no aeroporto.
Graas a Deus, a familia de Hillary vivia no outro lado do pas, na costa oeste, por isso no era provvel que eles tivessem qualquer contacto no futuro. Ainda dispunha 
de alguns dias at abandonar Inglaterra definitivamente, pensou, enquanto o avio comeava a dar voltas em Heathrow. Ainda tinha tempo para que Olivia o contactasse... 
ou para ele a contactar.
Jon estava em p, no seu escritrio, quando Olivia entrou.
- Preciso de falar consigo - disse sem prembulos.
- Que se passa? - perguntou, depois de pedir-lhe para se sentar numa poltrona. - Mudaste de ideias e decidiste ir para os Estados Unidos com Caspar? Se assim foi, 
no te preocupes...
- No, eu no mudei de ideias - interrompeu Olivia calmamente. - Quis faz-lo, mas percebi que j era muito tarde.
Ao ver que no lhe dava mais explicaes, Jon mudou de postura, desconfortvel.

- No se preocupe, tio Jon - disse Olivia suavemente. - Agora sei porque  que no queria que eu trabalhasse aqui.
Olivia viu como ele ficou rgido e como desviou o olhar para o lugar da mesa onde deixara os extractos incriminadores. Nenhum dos extractos nem o arquivo continuava 
na mesa.
- Eu sei o que o meu pai tem feito - continuou Olivia, calmamente. - Eu sei que ele roubou dinheiro
220
da conta fiduciria da Jemima Harding. Desde quando  que o tio sabe o que est a acontecer?
Durante um momento, Olivia pensou que ele tentaria negar tudo. Jon inspirou profundamente, fez uma pausa e aproximou-se da janela antes de responder com voz cansada:
- J suspeitava disso h algum tempo mas, ingnuo, no queria... Pensei que... No deves julgar o teu pai com tanta dureza, Olivia - disse. - Deus sabe a quanta 
presso ele foi sujeito. Apenas desejo... deixou a frase a meio e moveu a cabea.
- Mas, tio Jon, como  que ele pde fazer isto?perguntou Olivia, deixando perceber as suas emoes. Estava to agitada que era incapaz de estar quieta, e comeou 
a deambular pelo escritrio. Como  que ele pde fazer algo assim?
- No acredito que ele tivesse planeado chegar to longe - tentou consol-la Jon. - Imagino que, ao princpio, ele s tenha querido tirar algum dinheiro emprestado 
e devolv-lo logo que fosse possvel, mas tal como as coisas se comearam a desenvolver.
- No conseguiu devolver o dinheiro e foi pedindo mais emprestado - interrompeu Olivia com amargura. - S que ele no estava a pedir nada emprestado, no  verdade, 
tio Jon? Ele estava a roubar
- respondeu com aspereza. - Continuo sem conseguir acreditar nisso.
Jon fez uma careta quando ouviu a frase de Olivia. Sentia-se to culpado... era to culpado quanto David. Nunca deveria ter permitido que ele tivesse tanto controlo 
sobre um cliente to vulnervel, principalmente quando soube... Mas isso pertencia ao passado
221
e, como irmo de David, jurara ao seu pai sobre a Bblia que o nico erro infeliz de David, a estupidez que cometeu quando estava em Londres, nunca mais fosse mencionado. 
David escapou na altura de uma acusao formal porque ningum, e muito menos o cliente importante que tinha, quis que o assunto se tornasse pblico, que um estagirio, 
um advogado ainda nem sequer inscrito na Ordem, tenha estado quase a roubar-lhe uma soma considervel de dinheiro.
Pelo contrrio, deitaram uma pedra sobre o assunto. David no tinha chegado a usar o dinheiro e devolveu-o. Comeou a trabalhar no escritrio e David jurou, entre 
lgrimas, tanto ao seu pai como a Jon, que nunca mais faria uma estupidez semelhante. Tinha sido unicamente a presso do estilo de vida que levava, as pessoas com 
quem se relacionava, o facto de Tiggy estar grvida, que o tinham levado a ceder  tentao. Nunca tivera a inteno de roubar o dinheiro, s de o usar, pedi-lo 
emprestado at receber os seus honorrios, nada mais.

Ben, claro, foi forado a acreditar nisso, a aceitar as desculpas e os remorsos dele porque, caso contrrio, teria tido que reconhecer que David no era a pessoa 
de quem ele tanto se orgulhava. E Jon tinha aceite o voto de silncio que Ben lhe tinha imposto porque... enfim, porque David era o irmo dele e tinha sido educado 
de uma forma protectora, semp com a certeza de que era o favorito do seu pai. Quem tinha culpa se David tinha dificuldades em suportar o peso daquela decepo? David 
ou Ben? E quem era ele para julgar o irmo que tinha aprendido a venerar?
222
Ao longo dos anos, tinham feito o possvel por no expor David quele tipo de tentao, mas um dia voltaram a confiar nele, a ficar mais relaxados e permissivos. 
Ele no evitara o que estava a acontecer porque no quisera ver, por culpa daquele relaxamento...
- Tio Jon, o que vamos fazer? - perguntou Olivia com a voz rouca. - Ns no podemos devolver o dinheiro, mesmo se o tivssemos... - abriu as mos com impotncia. 
- O meu pai  culpado de roubo... de fraude... e de falta de tica profissional.
Enquanto ele escutava a sobrinha e percebia a angstia na sua voz, Jon absteve-se de a recordar que o seu pai no chegara a conseguir o diploma de advogado, nem 
mesmo de assessor juridico e, por isso, a questo da falta de tica profissional no era a mais importante, pelo menos, como ela estava a pensar.
- O av vai ficar arrasado - sussurrou. - E isto...
ergueu a mo para apontar para o escritrio. - Ningum confiar... Vai destruir-nos a todos...  familia inteira.
Jon no podia neg-lo. Quem iria querer contratar os servios de uma firma de advogados na qual um dos scios tinha sido acusado de fraude? O apelido Crighton, do 
qual o seu pai se orgulhava tanto, ficaria desacreditado. No havia um lugar to confortvel e seguro para viver como numa cidade pequena, mas nenhum lugar era to 
cruel quando algum quebrava as normas morais. E o mundo do Direito era, em muitos sentidos, bastante parecido com uma cidade pequena; os rumores espalhavam-se com 
uma velocidade enorme e de um modo letal. S o facto da nica pessoa, alm do cliente, que tinha tido conhecimento
223
da primeira transgresso de David ter morrido de apoplexia poucos dias depois de ter acusado o seu irmo, faziam com que Jon se tivesse sentido mais seguro.
Mas, naquela ocasio, eles no podiam esconder a verdade. Jemima Harding tinha oitenta e nove anos e uma sade muito dbil; ela no poderia viver eternamente. Mais 
cedo ou mais tarde, algum comearia a querer saber mais sobre o desaparecimento de dois milhes de libras da conta dela.
- Ns no podemos fazer nada - disse Jon com um suspiro e, pela primeira vez, ao olh-lo nos olhos, Olivia viu a carga enorme que o seu pai deixara em cima do irmo 
gmeo.
- Algum ter de contar a Jemima Harding, e ao banco, e...
- Sim - confirmou Jon. - Eu j tenho uma reunio marcada com os contabilistas - disse em voz baixa. Eu conheo bastante bem o scio mais velho.
Olharam um para o outro, num silncio tenso. Olivia entendeu que Jon no tinha outra sada. Se escondesse a fraude de David e no a denunciasse, na prtica seria 
to culpado quanto ele, quanto ela.

- Quer que eu o acompanhe... quando tiver a reunio com o contabilista? - ofereceu. Jon dedicou-lhe um sorriso terno.
- No  preciso - respondeu suavemente. -  melhor que ningum, alm de ns, tenha conhecimento desta conversa. Na realidade, teria sido melhor se no a tivssemos 
tido - acrescentou.
- Tio Jon... - Olivia moveu a cabea, enquanto corria para o abraar. - O tio est sempre mais preocupado com os outros do que consigo... Est sempre a tentar proteger-nos.
224
Enquanto Lhe devolvia o abrao, Jon pensou com remorsos que o que Olivia dissera no era verdade. Ele no pensara em proteger Jenny na noite passada, quando abraou 
Tiggy. Porque  que o tinha feito? No sabia o que se estava a passar. Nos ltimos meses, descobrira aspectos da personalidade dele que o deixaram desconcertado 
e at mesmo alarmado. Era como olhar-se a um espelho e ver um reflexo desconhecido, ou dobrar a esquina de uma rua familiar e ver uma paisagem totalmente nova, uma 
experincia ao mesmo tempo inquietante e preocupante.
Deitado na cama,  noite, junto a Jenny, incapaz de dormir, s vezes surpreendia-se a questionar para onde  que a vida os levava e, mais importante ainda, porque 
tinham cue continuar juntos, sem serem felizes.
Em breve, as crianas j no precisariam deles. O casamento deles, a vida em comum, tornara-se numa simples rotina. Mas, enquanto antes a estabilidade e a monotonia 
da vida Lhe ofereciam conforto e segurana, ultimamente sufocavam-no. Tinha cinquenta anos e era como se, de repente, tivesse acordado para a realidade da vida e 
reparado que perdera tudo. O caos e a agitao dos seus prprios pensamentos confundiam-no e transtornavam-no; a intensidade das suas emoes, na maioria novas e 
desconhecidas, desconcertavam-no.
Em vez da lealdade e do amor que aprendera a sentir por David, experimentou uma raiva inexprimvel e incompreenssvel, no s contra David e contra o seu pai, mas 
contra quase todo o mundo, incluindo ele mesmo.
Apenas Tiggy, com a sua vulnerabilidade, com as
225
suas faltas de defesas, conseguiu reacender nele as velhas emoes de afecto e compaixo que antes caracterizavam a sua personalidade. Em parte, desejava poder contar 
a Jenny como se sentia, poder partilhar com ela a confuso, a raiva, a dor e a desorientao, mas tinha medo de o fazer, no porque temesse as criticas de Jenny 
mas, sim, as suas crticas para consigo prprio.
Olhou para o relgio e disse calmamente a Olivia:
- J passa das seis horas.  melhor ires embora. A tua me no gosta de estar sozinha.
- Ela deve ter ido fazer compras - disse Olivia, fazendo um esforo para sorrir, mas ao lembrar-se da origem do dinheiro que satisfazia o consumismo e as necessidades 
da sua me, franziu a testa.

Enquanto contemplava Olivia a deixar o escritrio, Jon pensou com esprito sombrio que, embora no tivesse uma ideia clara do que queria fazer durante o resto da 
sua vida, sabia que no podia continuar a viver daquela forma. Mais que qualquer coisa no mundo, precisava de tempo e de espao para pensar. Tempo longe do olhar 
triste e recriminatrio de Jenny e da verdade que se interps entre eles. Talvez tivesse sido melhor que eles no se tivessem casado. O que era mais covarde? Manter 
um casamento porque j estava consumado ou reconhecer a verdade e confrontar a realidade, como ele se tinha visto forado a fazer em relao a David?
Havia uma imobiliria do outro lado da praa.
Ao passar por l, tinha visto que eles alugavam casas...
226
Doze
- Ol... no esperava ver-te hoje - sorriu Guy com afecto para Jenny, quando ela entrou na loja.
-  que eu fui ao hospital - contou.
Guy observou-a com ateno. Tinha perdido peso durante os ltimos dias o que Lhe ficava bem, pois realava a elegante estrutura ssea da sua cara e exaltava a sua 
cintura. Sempre tivera umas pernas e uns tornozelos bem definidos; Guy, que dava importncia a essas coisas; reparou logo nisso no dia em que se conheceram.
Para ele, Jenny tinha uma elegncia natural que superava amplamente as poses teatrais de Tiggy.
Na sua imaginao, Guy podia transform-la na mulher que poderia chegar a ser, na mulher que deveria ter sido: com o cabelo escuro um pouco mais comprido e penteado 
de outra forma, de modo a que a ondulao natural realasse a forma da sua face; com roupas de tons pastel que salientassem a sua pele morena.
Embora no fosse comum num homem viril, Guy tinha gosto pelas cores e pelo design, uma sensibilidade para o estilo que fazia revoltar-se quase fisicamente
227
quando testemunhava a cegueira de outras pessoas para a harmonia visual.
Surpreendia-o que Jenny, capaz de escolher o mvel, o quadro e os acessrios ideais para decorar um lugar, falhava redondamente na escolha do seu guarda-roupa. Confiara 
que a sua viagem triunfante at  loja Armani mudasse as coisas, mas ainda no a tinha visto usar outra vez o vestido que comprara.
- Como est David? - perguntou por educao. Nunca tinha sentido especial simpatia pelo cunhado de Jenny, que considerava um homem fraco e convencido.
- Teve uma ligeira recada, mas j est estvel outra vez - respondeu Jenny. Enrugou a testa ao pensar no que a enfermeira lhe tinha contado. David ficara furioso 
durante a visita de Tiggy e eles tiveram de pedir-Lhe para se ir embora.
- O que se passa? - perguntou Guy suavemente. Ela lanou-lhe um olhar cauteloso e, depois, moveu a cabea.
- Nada.
Expressar por palavras os seus medos e a confuso que sentia face  mudana de atitude de Jon s serviria para dar-lhes ainda mais fora. Tinha havido muitos momentos 
durante o seu casamento em que se sentira isolada, s e vulnervel, mas nunca como naquele momento, em que sabia instintivamente que o casamento deles estava em 
vias de acabar por culpa de outra mulher.
De propsito no, claro. Tiggy nunca poderia
ter tanto sangue frio, mas... Era assim to estranho que
228

Jon se sentisse atrado por ela? Ela era tudo aquilo que Jenny nunca poderia ser. Alm disso, sempre soubera que ele no se casara com ela por amor ou, pelo menos, 
no por amor a ela, corrigiu mentalmente; nunca tinha existido entre eles a chama da paixo nem atraco sexual. Por outro lado, eles partilhavam uma harmonia que, 
pelo menos no caso de Jenny, tinha compensado as outras coisas que faltavam na relao deles.
- Tenho de voltar - disse a Guy. - Jon ir para casa daqui a pouco e...
- Eu vi-o  hora de almoo. Estava no restaurante italiano com a esposa de David.
- Sim - afirmou Jenny, com uma atitude distante.
- No me surpreende.
Guy olhou para ela com ateno e perguntou-se se ela saberia o que ele queria insinuar ao dizer aquelas palavras. Tinha visto com os seus prprios olhos a intimidade 
que Jon e Tiggy partilhavam, com Tiggy a pousar o garfo no prato para pr a mo no brao de Jon, talvez no como uma amante mas, de certo modo, aquele gesto denunciara 
o que ela sentia por ele. E se Jon no tinha correspondido com um gesto ntimo semelhante, tambm no fizera nada para se afastar dela.
Com uma expresso solene, observou Jenny a afastar-se da loja. Ainda era muito cedo para fazer ou dizer qualquer coisa. J esperava h muitos anos, podia esperar 
um pouco mais.
Jenny chegou a casa; estava cansada. O seu corao deu um pulo ao ver o carro de Jon estacionado em frente  casa. No era frequente que regressasse
229
to cedo a casa e o seu instinto preveniu-a de que a sua presena no iria trazer nada de bom.
Ele estava  espera dela na cozinha.
- Tenho uma coisa para te dizer - anunciou, com uma expresso sombria.
-  muito importante ou pode esperar at depois do jantar? - perguntou Jenny, com uma expresso de felicidade forada.
- Eu... eu no vou jantar c. Tenho uma reunio em Chester.
No era verdade, mas Jon sabia que no podia sentar-se  mesa e suportar a mesma rotina sufocante sem quebrar a promessa que tinha feito a si mesmo de no fazer 
nem dizer qualquer coisa que pudesse ferir os sentimentos de Jenny.
- As crianas. - comeou a dizer Jenny, mas Jon negou com a cabea.
- As meninas esto l em cima, a fazer os trabalhos de casa, e o Joss foi visitar a Ruth.
- Ah, bom. Ento, vou pr ga a aquecer...
- Jenny... - a impacincia contida que a sua voz reflectia f-lo parar. - No... eu j no consigo continuar aqui. Preciso de estar s. Esta casa, a nossa vida.
Tu, poderia ter dito, pensou Jenny enquanto o escutava em silncio.
- O que  que ests a tentar dizer-me, Jon? - perguntou com toda a tranquilidade que conseguiu. Que o nosso casamento acabou, que queres o divr cio? - apesar das 
boas intenes dela, a sua voz fa Lhou ao pronunciar as ltimas palavras e Jon fez uma careta ao sentir a dor dela.
230
- No... isso no. O divrcio, no... a separao.
- E o que vai acontecer com as crianas? - protestou Jenny.

- Eles vo aguentar. J no vo precisar de ns durante muito mais tempo - disse Jon, a quem a culpa estava a conduzir  raiva. - E, de qualquer forma, eles sempre 
foram mais apegados a ti do que a mim.
Jenny mordeu o lbio.
- Que queres dizer? Que os tenho monopolizado, que...
- No - negou Jon, cansado. - Jenny, eu no quero discutir. Se ns formos sinceros um com o outro, ambos sabemos que... - fez uma pausa. - Eu sei que nos casmos 
pela mais nobre das razes, mas...
- Mas? - interrogou Jenny com determinao. Preferia que ele o dissesse. Que lhe dissesse o que ela sempre soubera, sempre temeu... Mas era evidente que ele no 
era capaz de o fazer. Jon baixou o olhar e encaminhou-se para a porta... para a sada, para a sua fuga.
- Para onde vais? - perguntou, mas lamentou imediatamente t-lo feito. J sabia, claro. Iria ter com Tiggy. Porm, a resposta de Jon surpreendeu-a.
- No... No sei. Vou procurar algum apartamento para alugar. Ser o melhor, Jenny - disse num tom quase melanclico. Jenny ouviu a splica na sua voz e no teve 
pena apenas de si prpria mas, por absurdo que parecesse, tambm teve pena dele. Quis abra-lo, como teria abraado um dos seus filhos, consol-lo e assegurar-Lhe 
que o entendia e perdoava.
231
Mas como poderia faz-lo quando no era isso que sentia, de forma alguma?
- Quando... - humedeceu os lbios - Quando  que irs embora? - perguntou em voz baixa.
- No sei. Logo que encontre alguma coisa. No faz sentido prolongar esta situao. Entretanto, vou dormir no quarto de hspedes - viu a forma como Jenny o observava 
e fez uma careta pela segunda vez.
- As crianas - sussurrou. - Que vamos dizer-lhes?
Jon moveu a cabea.
- No sei...
- Posso dizer-lhes que... que  s uma situao temporria - sugeriu com voz rouca. - Talvez assim seja mais fcil de aceitar.
- Diz-lhes o que achares melhor - respondeu Jon. Estava a observ-la quase com piedade, pensou Jenny, e o seu orgulho veio  tona.
Tu  que te vais embora", sentiu-se tentada a dizer-lhe. Explica-lhes tu". Mas o instinto e o hbito impediram-na de o dizer e mantiveram-na em silncio. Sentia-se 
estranhamente fraca e doente, sem foras para lutar ou discutir com ele.
- Ser melhor que eu comece a preparar o jantar - disse, como se no tivesse acontecido nada fora da comum. - Joss disse a que horas volta?
Estava a comportar-se como uma personagem de uma pssima pea de teatro, pensou, enquanto reprimia o desejo quase histrico de desatar a rir. A esposa estpida, 
inspida, aborrecida, que estava prestes a ser deixada pelo marido, uma mulher demasiado absorvida na monotonia da vida para perceber o que acontecera.
232
- No, no disse nada - respondeu Jon.
Jenny no olhou para ele enquanto ele abria a porta e saa para o corredor. No conseguia.

Max tocou com os dedos na sua escrivaninha. Eram quase sete horas, muito depois da hora habitual de sair do escritrio. Horas antes, s cinco e meia, ao ver que 
Laura no dava sinais de estar prestes a sair, ele cerrou os dentes, amaldioou o seu pai e lanou um olhar de advertncia a Charlotte, quando esta comeou a ficar 
com um ar mal-humorado.
- Ainda aqui, Charlotte? - comentou Laura com um olhar glido. - No  costume.
- Charlotte aceitou ficar mais um bocado para terminar de passar-me alguns textos  mquina - referiu Max.
- A srio? - respondeu Laura, num tom ainda mais frio. - Ests a surpreender-me.
S por se recordar do que estava em jogo tinha feito com que Max no respondesse. Finalmente, j passava das seis e trinta quando ela resolveu ir-se embora, apesar 
de contrariada.
- Espera - advertiu Max a Charlotte, agarrando-a pelo brao ao ver que ela queria aproximar-se da secretria mal Laura sara do escritrio - Espere uns dez minutos 
- disse ele. - Para o caso de ela decidir voltar.
Laura no voltou, mas Max tinha-se retirado at ao seu escritrio enquanto Charlotte tirava as chaves e abria a escrivaninha de Laura.
J eram quase sete horas e ainda... Max ficou rgido ao ver a porta do escritrio a abrir-se.
233
- Penso que achei o que deseja - anunciou Charlotte. - O scio mais velho almoou com uma tal Madeleine Browne trs vezes nos ltimos dois meses, e ele tambm escreveu 
as iniciais dela na agenda antes da hora da reunio de direco.
Madeleine Browne... Rapidamente, Max puxou da memria para ver se o nome lhe lembrava alguma coisa. No era o caso.
- Ah, e a propsito - disse Charlotte, com gozo evidente. - H algo mais que deveria saber. A tal Madeleine Browne... - fez uma pausa. - Por acaso ela  afilhada 
do chefe. Agora - acrescentou com nfase. Em relao ao baile...
A afilhada do chefe, devia ter imaginado. Max voltou furioso ao seu apartamento. Bom, pelo menos, j sabia quem era a sua rival. O que deveria fazer a seguir era 
p-la fora da corrida e a forma mais fcil seria desacredit-la aos olhos da direco. Ainda no sabia como conseguir isso, mas j tinha encontrado uma soluo. 
Havia sempre uma.
Afilhada do chefe ou no, igualdade de direitos para a mulher ou no, estava escrito que seria ele a ocupar a vaga no escritrio, e no a menina Madeleine Browne.
- Tia Ruth.
Ruth baixou a viso para contemplar o seu sobrinho-neto. Estavam a passear na pradaria, perto do rio, na mesma pradaria em que ela, quando era pequena, tinha caado 
coelhos. Agora j no havia coelhos na pradaria, embora Joss e ela tivessem 
234
organizado uma campanha secreta para reintroduzi-los no habitat natural.
- Porque  que a tia acha que uma pessoa que parece normal... sim, normal, de repente parece: bom, diferente?
Ruth franziu a testa ao notar a preocupao contida na voz de Joss.
- A que pessoa te referes, Joss?- perguntou suavemente. - A ti?

- No, no a mim - respondeu, movendo a cabea vigorosamente. Ruth suspirou de alvio. Continuava a estar actualizada, lia revistas e jornais, via os programas de 
notcias e coisas do gnero, mas no se sentia preparada para responder s perguntas de crianas em relao a sexo ou a drogas.
- No? Ento, de quem falas?
- Do pai - reconheceu Joss, arrastando a sola do sapato pelo cho.
- Do teu pai? - Ruth franziu a testa. - Bom, eu suponho que ele est muito preocupado com David.
- Ele passa muito tempo na casa do tio David - informou Joss, com naturalidade. - Com a tia Tiggy.
Ruth ficou estupefacta.
- Ah, sim? Bom, eu imagino que Tiggy precisa de ajuda para resolver muitos assuntos.
- Sim, isso  o que a me diz - confirmou Joss. Ruth hesitou, sem saber o que dizer, o que perguntar. Por fim, decidiu que, dado que fora Joss quem tinha puxado 
o assunto, devia dar-lhe a oportunidade de expressar a sua preocupao evidente. Assim, em vez de lhe mostrar como algumas plantas estavam bonitas, perguntou:
- E tu no achas que seja por isso?
235
- O pai est diferente - admitiu Joss, com a voz embargada. - Est diferente de... Bom, desde muito antes do tio David ter tido o ataque de corao.
- Diferente em que sentido, Joss? - indagou Ruth.
- No sei, diferente. No parece o pai. Eu no sei,  como se... Penso que ele possa estar a ter problemas com a me - declarou. - Muitas crianas da escola tm 
pais divorciados - comentou naturalmente.
Ruth notou como a preocupao se transformava em alarme e confuso.
- Os teus pais no se vo divorciar, Joss - disse. Posso saber de onde tiraste essa ideia?
Joss encolheu de ombros e olhou de repente para a tia, com os olhos sombrios e tristes.
- No sei. Pensei nisso.
- E falaste com eles? - perguntou.
- No, porque... - hesitou, com dor na voz. - Eu no acredito que a me se queira divorciar, mas... a tia Tiggy  muito bonita, no ?
Ruth no tentou mentir-lhe.
-  verdade - respondeu calmamente. - Mas a tua me... as pessoas nem sempre se apaixonam pelo aspecto fsico de uma pessoa, Joss - lembrou.
- Eu sei. Mas a tia Tiggy precisa de algum que cuide dela, agora que o tio David no est em casa. o pai gosta que as pessoas precisem dele - acrescen tou com a 
perspiccia de uma pessoa madura que a deixou perplexa, embora j soubesse o quanto inteligente e astuto o seu sobrinho era.
- A tua tia Tiggy  casada com David e o teu pai casado com a tua me - conseguiu dizer finalmente enquanto digeria o que Joss lhe tinha contado.
Seria aquele medo fruto da imaginao frtil
236

de um menino ou teria razes mais profundas? Estariam Jenny e Jon a ter problemas no casamento deles? Jenny no lhe tinha contado nada a esse respeito, e pensar 
que Jon poderia estar a pensar em divorciar-se, tal como sugerira Joss, era uma ideia confusa para ela. David, por outro lado...
- Tia Ruth, posso ficar c esta noite em vez de voltar para casa? Podamos ir ver os texugos - tentou persuadi-la com o seu charme de menino.
- Joss, no me parece que seja uma boa ideia - comeou a dizer mas, ao olhar a sua face, mudou de opinio. - J veremos o que a tua me diz, de acordo?
- Eu sei que a me no se vai importar. Vou ligar-Lhe quando chegarmos a casa, est bem?
Ruth contemplou-o de forma pensativa. Esperava que Joss estivesse enganado e que as suas suspeitas fossem infundadas.
Tinha pensado em visitar Ben no dia seguinte: Saul e a sua me partiriam para Pembrokeshire pela manh e, embora soubesse que Ben no o iria reconhecer, sabia que 
ele sentiria a falta da companhia deles. No se atrevia a pensar, porm, em como reagiria Ben face  possibilidade de uma relao, uma aventura, entre Jon e Tiggy. 
Jon deveria saber com quanta fria e ferocidade se oporia Ben a qualquer inteno por parte de Jon de substituir David na vida de Tiggy, e o mero facto de contemplar 
a ideia levou-a a ver como aquela histria poderia ser verdadeira.
Os sentimentos de Tiggy no a preocupavam muito, alis, no a preocupavam nada. Tiggy gostava de ser uma bonita planta trepadora que precisava de
237
apoio constante, sem se preocupar com quem lhe dava esse apoio. As suas emoes eram como as razes jovens, superficiais e fceis de mudar.
Mas Jon... Jon era totalmente diferente e o facto de ele, que sempre colocara as necessidades de David antes das suas, querer conquistar a sua esposa no lhe parecia 
de todo credvel.
Olivia ouviu o telefone a tocar enquanto estava a tirar a roupa que vestira para ir trabalhar. Era como se a descoberta a tivesse sujado, apesar de saber que aquela 
sensao se devia unicamente ao p do escri trio.
Quando a sua me lhe disse que a chamada era para ela, o seu corao comeou a bater mais depressa. Caspar! Tinha de ser ele! Quando desceu as escadas em roupa interior, 
j estava a ensaiar o que lhe ia dizer.
S que no era Caspar, mas, sim, Saul.
- Saul - repetiu mecanicamente, com a voz montona e um entusiasmo fingido.
- Pareces abatida - disse Saul. - Tiveste um mau dia no escritrio? - brincou. - Queres contar como foi o teu dia enquanto jantamos?
- Saul, ests a ser muito amvel, mas no me
parece...
- Escuta, se o que te preocupa  o que aconteceu
ontem  noite, esquece - declarou suavemente. Estou a falar a srio. No vou...
O que tinha acontecido na noite anterior? De que  que ele estava a falar?, desejou saber Olivia. 
- No te preocupes, no te vou pressionar - 
238

continuou Saul. - Entretanto, j encontrei duas amas. A Louise ofereceu-se para cuidar das crianas e a minha me ainda no se foi embora.
Saul pensou que ela estava a hesitar com medo que ele tentasse cortej-la. Olivia no sabia se havia de rir ou de chorar. Mas no podia ferir os seus sentimentos 
ao dizer-lhe que praticamente se tinha esquecido do que acontecera junto ao rio.
- Por favor.
Olivia hesitou. Que sentido fazia ficar em casa  espera que Caspar lhe ligasse? E se ele no o fizesse? Nada poderia alterar o que ela tinha visto.
- Sim... Bom, est bem - consentiu.
- Pelo menos, podias mostrar um pouco mais de entusiasmo - disse Saul, com uma gargalhada. - Vou buscar-te daqui a meia hora.
- O jovem Saul foi jantar esta noite com Olivia - anunciou Ben rudemente.
Ruth olhou para o seu irmo. S mesmo Ben poderia referir-se a Saul como jovem", como se ele no fosse mais do que um adolescente.
Ele j a tinha informado do fim do casamento de Saul e Hillary e, como adivinhou o que o seu irmo estava a pensar, foi forada a dizer:
- Olivia est comprometida com Caspar, Ben.
- Tolices, ela depressa recuperar o bom senso. Americanos. No h nenhum que seja de confiana, e tu sabes disso.
Ruth comeu a sentir-se tensa. Embora j tivesse prometido mil vezes que no voltaria a discutir com Ben, o seu irmo conseguia sempre provoc-la at ao
239
ponto de a fazer esquecer da sua promessa. Aquela vez no era uma excepo.
- s o homem com os preconceitos mais tolos que eu conheo - disse-lhe sem rodeios. - As pessoas so indivduos, Ben, sejam de onde forem. H cem anos atrs, no 
terias deixado que a tua filha se casasse com algum que no fosse deste estado, quanto mais do pas. Olivia est apaixonada por Caspar e a relao deles  muito 
diferente da que eu tive... eu... eu cometi um erro - respondeu com voz tensa. - Mas isso no significa que todos os americanos sejam...
- Uns aldrabes e mentirosos - terminou Ben com raiva. - E que me dizes da mulher de Saul, que deixou os seus trs filhos aqui? Que me  capaz de abandonar os seus 
filhos?
Ruth fez uma careta.
- s vezes, no resta mais nenhuma sada - respondeu calmamente. - E o facto de Hillary ser americana no tem nada a ver com a sua deciso de deixar Saul. E foi 
ele que quis ficar com as crianas, como sabes. Os trs nasceram em Inglaterra, este  o seu pas, e, ao deix-los aqui com Saul, Hillary est a pensar no que  
melhor para eles.
- Tolices - atirou Ben. - So todos iguais. E Olivia descobrir a verdade... como aconteceu contigo.
- Espero que no - respondeu Ruth. No desejava

a ningum o que ela tinha passado, muito menos a al gum como Olivia. - O facto de Grant me ter dito que no era casado, que era livre de... - hesitou e engoliu 
a saliva com ferocidade antes de continuar. - O facto de ele me ter mentido no tem nada a ver com a nacionalidade dele. Qualquer homem, seja ingls, escocs, gals, 
francs, polaco ou dinamarqus, 
240
qualquer homem, poderia ter feito a mesma coisa. Por acaso calhou Grant ser americano.
- So todos iguais - protestou Ben, mal-humorado. - Eles vieram para c, divertiram-se a mentir e a fazer armadilhas, seduzir jovens inocentes, fazerem-se de inocentes... 
No penses que no sei.
- No sabes no, Ben - contradisse Ruth suavemente. - Por exemplo, no princpio, fui eu que procurei Grant, e no ao contrrio - sorriu com tristeza ao ver a sua 
mudana de expresso. - Sim,  verdade. J sei que para o teu orgulho de Crighton te custa ouvir isto, mas eu desejava Grant, e muito. Era como uma corrente de ar 
fresco, um man irresistvel, to diferente dos outros homens que eu conhecera...
- No sabes o que dizes - respondeu Ben com dureza. - Ainda estavas a chorar a morte de Charles.
- No - disse Ruth firmemente. - Chorei a morte de Charles,  verdade, mas como amiga, no como mulher. Sim, eu sei que ns estvamos comprometidos, mas era s isso. 
S o estvamos porque j tinha sido acordado. Eu era jovem e bastante tola. Fui vtima das pressas provocadas pela guerra. Charles ia para o campo de batalha e queria 
ter algum  sua espera, para ter a certeza de que voltaria. Para ele eu era uma garantia, nada mais. Fiquei triste quando morreu, claro, mas nunca chorei por ele 
como amante. Nunca chorei por ele como chorei pelo Grant - acrescentou baixinho.
- O americano seduziu-te - insistiu Ben com ferocidade.
- No - corrigiu Ruth, com determinao. - Se queres saber a verdade, Ben, fui eu que o seduzi - um sorriso carinhoso apareceu nos seus lbios ao 
241
record-lo. - Grant  que teve reservas, que foi responsvel...
E tambm era ele que era casado e tinha um filho. Mas nunca o confessou a Ruth, pelo menos, no lhe disse nada quando ela o derrubou no campo e o atormentou com 
a curva macia dos seus seios, uns seios que, como ambos sabiam, estavam nus debaixo do vestido leve que trazia. Tambm nunca lho contou depois, quando fez amor com 
ele e gritou de pura alegria ao senti-lo dentro do seu corpo. No, nunca chegou a dizer-lhe.
Foram o seu pai e o seu irmo que lhe contaram a verdade. Durante muito tempo, Ruth pensou que a dor por o ter perdido nunca a abandonaria, mas a intensa agonia 
inicial foi reduzida a uma dor surda e montona que, com os anos, acabou por ser apenas uma pontada. Uma pontada que a trespassava sempre que pensava nele. Grant. 
Nem sequer sabia se continuava vivo, e nem sequer queria saber, pensou.
242
Treze
Madeleine Browne. Um sorriso triunfante e cnico surgiu nos lbios de Max ao contemplar o nome que assinalara com um crculo. Durante as trs semanas relativamente 
curtas que tinham passado desde que descobrira o seu nome, Max tinha descoberto muitas
 coisas sobre ela.

A primeira coisa, e o maior obstculo para expuls-la do seu caminho em relao  vaga no escritrio, era que o seu av materno era um dos juzes do Tribunal da 
Cmara dos Lordes e, portanto, tambm era lorde; o seu pai era juiz do Tribunal Superior de Justia; e, para cmulo, no era apenas Madeleine Browne, mas sim Madeleine 
Francomb-Browne em bora, aparentemente, durante os anos da universidade, ela tivesse decidido prescindir da primeira parte do seu apelido.
Vivia, como era de esperar, numa pequena casa do elegante bairro de Chelsea, junto ao rio. A casa pertencia ao seu pai e Madeleine partilhava-a com uma amiga, provavelmente, 
uma antiga colega da universidade. Em resumo, era o tpico resultado de uma familia da classe mdia-alta, o tipo de rapariga que h
243
trinta ou at mesmo h vinte e cinco anos atrs nunca teria sonhado com qualquer outra coisa seno arranjar um bom marido, e Max desejava de todo o corao que assim 
fosse.
Porm, no meio de toda aquela informao previsvel e desanimadra que tinha reunido  custa de diversas fontes, havia um facto que brilhava de forma resplendorosa, 
como um refinado e esculpido diamante. E esse facto era que, sabe Deus por que razo, durante umas frias da universidade tinha trabalhado a tempo parcial, de certeza 
como secretria, no escritrio de Luke Crighton, em Chester. Max no conseguia entender por que razo ela decidira trabalhar l quando, graas  influncia da famlia, 
poderia t-lo feito em qualquer outro lado, se por acaso precisasse de trabalhar; mas o que entendia era que encontrara um filo de boa sorte e esperava tirar a 
maior vantagem possvel disso.
J fizera todos os deveres, tinha verificado todos os seus dados, planeado uma estratgia com meticulosidade e, finalmente, chegara o momento de levar a cabo o seu 
plano.
Saiu do escritrio  hora do costume, foi at ao seu apartamento, tomou um duche, mudou de roupa e ps-se a caminho de Chelsea. Madeleine no demorou muito a responder 
ao seu telefonema. Talvez tivesse pensado nas vantagens sociais, pensou Max, enquanto a observava e via que ela no era nada do outro mundo.
Tinha o cabelo curto e liso, de cor castanha, olhos castanhos, um rosto pequeno e redondo, a condizer com o seu corpo, tambm pequeno e suavemente arredondado. Ao 
ver que ele a observava, Madeleine corou e ficou nervosa.
244
- Desculpe - desculpou-se, e dirigiu-lhe o seu sorriso mais cativante, o que mostrava a covinha deliciosa do seu queixo e que o fazia parecer ainda mais atraente 
e jovem do que era, como Lhe tinha dito numa ocasio uma das suas namoradas. - Luke disse-me que voc era baixa, mas eu no pensei...
- Luke? - perguntou, de forma abalada e curiosa enquanto mordia o anzol.
- Sim, Luke Crighton, o meu primo - explicou, no referindo que, na realidade, Luke era seu primo em quarto ou quinto grau, e no um primo directo. 
- Luke Crighton? - Madeleine estava a franzir a testa ligeiramente, e parecia envergonhada e confusa.
Max deu dois passos at ela, o que fez com que Madeleine retrocedesse e lhe permitisse entrar na sua casa. Era uma manobra simples que tinha sido de grande utilidade 
para Max em inmeras ocasies.

- O que eu imaginava - explicou com suposto pesar. - Eu disse a Luke que, seguramente, voc j no se lembraria dele. Voc trabalhou h algum tempo atrs no escritrio 
dele, em Chester. O pai dele, o meu tio, era...
- Ah, sim... - a confuso dela desapareceu. Claro, Luke...
Ela estava cada vez mais corada e parecia lisonjeada e transtornada ao mesmo tempo, e Max sabia perfeitamente porqu. Resistiu  tentao de rir. Aquela rapariga 
inspida e enfadonha acreditava mesmo que Luke se teria lembrado dela?
- Ento voc  primo de Luke... Entre, por favor. Com algum desconforto, conduziu-o para uma sala de estar decorada com elegncia e cuja mobilia deveria valer mais 
do que Max ganhava num ano inteiro de trabalho. Quanto dinheiro estava desperdiado naquela decorao. Ali respirava-se riqueza familiar e posio social, e o ressentimento 
que sentia por ela intensificou-se. Por que raios no se tinha conformado com o que as mulheres da sua classe sabiam fazer? Viver no campo e dar descendentes  familia, 
foi para isso que foi educada. S tinha de fixar-se naquelas coxas suavemente arredondadas...
- Quer... Quer beber alguma coisa?
- Obrigado - acedeu Max rapidamente: - Um xerez seco, se tiver.
Claro que tinha, e Max gostou de ver como a sua mo tremia consideravelmente ao dar-Lhe o copo.
- Bom, como  que Luke est?
- Bem. Ainda vive em Chester, claro. Estive com ele h algumas semanas atrs, quando fui a casa para uma celebrao familiar. Os dois recordmos a nossa juventude 
perdida e foi a que mencionou o seu nome e sugeriu que eu passasse por aqui para a cumprimentar.
- Ah, compreendo... Que amvel. Estou surpreendida por ele se ter lembrado de mim, na realidade - disse com franqueza. - S estive no escritrio dele durante um 
Vero e no nos mantivemos em contacto. No sabia que... E voc, trabalha em que rea?
- perguntou educadamente.
- Neste momento estou a estagiar num escritrio - disse. - Bom, para dizer a verdade, estou  espera de uma vaga - fez uma expresso irnica. - Podia trabalhar no 
escritrio de Chester, claro, mas eu prefiro ser independente, abrir caminho pelos meus prprios meios em vez de me apoiar na famlia - dedicouum sorriso falso e 
esperou.
246
- Sim, claro - confirmou, gaguejando um pouco.
- No... No podia estar mais de acordo.
- Hum... este xerez  muito bom - comentou, enquanto olhava descaradamente para as pernas dela. Madeleine reagiu  insinuao tomando mais um pouco da bebida para 
se acalmar.
Tinha os tornozelos delicados, prprios das jovens rechonchudas, e eles pareciam estar bronzeados, por debaixo das calas de seda.
- E o que me conta de si? - perguntou, enquanto aceitava mais uma bebida e a poltrona confortvel que ela lhe indicou. Enquanto ele se sentou com indiferena, ela 
f-lo com nervosismo, apoiando-se no brao da poltrona. - Luke disse-me que voc planeava entrar para a Ordem dos Advogados quando terminasse a faculdade.

- Ah, sim? No sabia que ele estava a par de... No pensava que... - Max conteve o alento ao reparar na incerteza no seu tom de voz. O seu plano viria abaixo se 
Madeleine anunciasse que s tomara aquela deciso depois de ter estado a trabalhar em Chester. Max sempre preferira correr riscos do que jogar com precauo, e acreditava 
que, com a origem que ela tinha, a sua escolha profissional seria automtica e inquestionvel, tal como as mentiras dele em relao  suposta conversa com Luke.
- Bom, sim... eu passei nos exames e agora estou a trabalhar como estagiria - reconheceu, pelo que Max comeou a relaxar. - Mas eu no tenho a certeza... Quero 
dizer, ainda no sei se  mesmo isso que quero... Os meus pais pensam que eu poderia tirar um ano para descansar antes... - mordeu o lbio com intenso nervosismo. 
- A minha me pertence  direco
247
de uma organizao beneficente a nvel mundial, que ajuda as crianas sem casa, e ela quer que eu a acompanhe na prxima viagem. Eu gostava, mas... Enfim, sou filha 
nica e penso que devo ao meu pai... continuar a tradio familiar. Nem ele nem o meu av me forariam a fazer algo que eu no quisesse, claro, mas sinto que  o 
meu dever.
- A mesma coisa acontece na minha famlia, principalmente com o meu av - respondeu Max com outro sorriso falso. - Deve ter alguma coisa a ver com a educao que 
receberam.
- Ah... O que faz o seu av?
- Bom, agora est reformado - respondeu Max com fluncia. No era necessrio mencionar naquele momento que o velho apenas fora um advogado de cidade. - Mas eu entendo 
o que voc quer dizer em continuar a tradio familiar. Como Crighton que sou, todos esperam que encaminhe a minha vida para o Direito. Como voc diz, a pessoa sente 
um certo dever, uma certa responsabilidade - dirigiu-lhe um olhar de orgulho que foi recompensado com um sorriso tmido.
-  agradvel falar com algum que percebe isso, que entende... - comeou a confiar nele, mas continuava hesitante. - Nem sempre  fcil, no  verdade? s vezes, 
no consegue controlar a situao, fica dividido entre a familia e...
- E as pessoas que pensam que, graas  sua famlia,  sua origem e aos seus contactos, tudo  muito mais fcil - afirmou Max, com ar entendido. Ela dirigiu-lhe 
outro sorriso.
- Sim, sim, exacto. E, no entanto, em muitos sen tidos  muito mais difcil, porque sente... - desdobrou
248
as mos. - Eu s vezes sinto-me culpada - admitiu. - Principalmente quando vejo quantas pessoas tm de fazer um esforo para conseguirem um emprego. At me sinto 
culpada por... Enfim, no  fcil encontrar um lugar num escritrio e h pessoas com muitas qualificaes que no...
Voltou a interromper a frase e olhou para ele. Tinha o hbito de deixar as frases a meio,  espera que otra pessoa as terminasse no lugar dela, algo que mostrava 
que ela sempre tivera algum ao seu lado para completar as tarefas mundanas por ela, concluiu Max com amargura. Mas escondeu o ressentimento e manteve a postura 
de compreenso.

- A minha... A minha amiga Claudine, que vive comigo, tem notas excelentes, mas como no tem familiares no mundo do Direito est a ser muito difcil conseguir um 
lugar num escritrio, embora eu saiba que ela seria uma excelente advogada.
- Quem sabe o seu pai possa ajud-la - sugeriu Max, com facilidade. No tinha o menor interesse na sua amiga, fosse quem fosse, e muito menos nos seus problemas 
em ascender naquela complicada profisso. Por que diabos iria interessar-se por ela? Ele prprio j tinha bastantes problemas.
- Bom, sim... - afirmou Madeleine, um pouco desconfortvel. - O meu pai poderia fazer algo, mas...
Mas ele no queria usar as suas influncias para beneficiar algum que no era da famlia. Afinal de contas, era assim que funcionava o sistema, a prpria vida, 
reconheceu Max com cinismo, mas no deixou reflectir os seus pensamentos e contemplou com aparente pesar o copo vazio de xerez antes de se levantar e dizer  sua 
inocente anfitri:
249
- Tenho de ir. J ocupei muito do seu tempo. Espero no t-la interrompido. No estava quase a sair?
- No... No estava. No pensava sair e... e foi uma conversa muito agradvel - disse Madeleine com timidez. - D... D cumprimentos meus a Luke da prxima vez que 
o encontrar.
- Ah, no - disse Max suavemente, disposto a entrar a matar. - Acho que no poderei faz-lo - ela olhou para ele com perplexidade. - Eu tambm gostei muito da nossa 
conversa - continuou no mesmo tom macio e insinuante. - Na realidade, gostei tanto que... Gostaria de sair comigo para jantar? -Ah... Sim, claro... adoraria.
J a tenho, rejubilou Max em silncio, triunfante. Claro que nunca duvidara disso. Madeleine no era o seu tipo de mulher: muito inspida, muito sem graa, demasiado 
agradvel. Se conseguia fazer com que ela corasse e tremesse s ao olhar para ela, a sua experincia sexual devia ser inexistente. E as virgens tmidas e recatadas 
no exerciam nenhuma atraco em Max. Mas, claro, no era a sua virgindade que lhe queria tirar.
- Sim... eu tambm gostaria muito - afirmou sua vemente. Enquanto ela corava e o observava de forma confusa, ele rematou a jogada. - Na
quinta-feira estou livre, se estiver bem para si. Era dentro de dois dias, mas ele no queria dar-lhe
tempo para ter dvidas ou questes e, certamente; no queria que ela lhe arruinasse o fim-de-semana.
- Na quinta-feira? Sim... Sim, na quinta- feira pa rece-me bem.
Max sorriu.
250
- Ento, at quinta-feira - franziu a testa ao ouvir que algum abria a porta.
- Maddy... Ah... Desculpa. No sabia que tinhas visitas.
A mulher que entrou pela porta era tudo aquilo que Madeleine nunca seria: esbelta, elegante e alta. Tinha o cabelo castanho dourado, longo, forte e ondulado; a face, 
de pele lisa e perfeita; os olhos azuis; e uma boca que o fazia pensar automaticamente em sexo.
- Ah, Claudine... Este  Max... Max Crighton... Max, esta  Claudine, a minha amiga.

- Max Crighton - os olhos da rapariga reflectiram um escrutnio passageiro, um distanciamento frio e uma certa hesitao, ao que Max reagiu olhando para ela com 
prazer mas sem mostrar qualquer interesse.
Era o tipo de mulher que dava por adquirido o facto de a sua beleza a transformar sempre no centro das atenes de qualquer homem, e aquele ar de frio distanciamento 
no era mais do que um truque para aumentar o desejo masculino. Bom, naquele caso, estava a perder tempo. Max no lhe prestou ateno e virou-se para Madeleine.
- Virei busc-la - disse-lhe carinhosamente. Pode ser s sete e trinta?
- Sim, sim, s sete e trinta parece-me bem - afirmou Madeleine com a voz rouca.
Claudine esperou que Max sasse para conversar com a sua amiga.
- Max Crighton... Sabes quem , no sabes? - perguntou sem rodeios.
251
- Sim... Sim, sei - afirmou Madeleine em voz baixa. - Mas, Claudine...
- O que estava a fazer aqui?
- Max... Eu conheo o primo dele.
- No me tinhas dito nada.
- No... No pensei que...
- Tens a certeza de que queres v-lo novamente?
- Sim... Sim, tenho a certeza.
- Tem cuidado, Maddy - avisou Claudine. - J sabes que...
- Eu gosto dele, Claudine - interrompeu Madeleine com a voz rouca, e voltou-se para que Claudine no visse a sua expresso.
Para Claudine era tudo muito fcil; os homens rendiam-se aos seus ps e ela nunca se sentia tmida nem nervosa na presena deles. Nunca teve de sentar-se num canto 
e sentir-se excluda, indesejada, nada atraente. No tinha de suportar o peso de saber que os seus pais estavam desapontados com ela, pela sua falta de sensualidade. 
Mas Max fizera-a sentir-se especial, diferente... e nem sequer olhara para Claudine. Madeleine estava a observ-lo, esperando ver a familiar reaco masculina  
beleza da sua amiga" mas Max nem reparara em como Claudine era bonita. Por outro lado, tinha estado a conversar com ela e era com ela que queria jantar.
Claudine franziu a testa enquanto contemplava as costas rgidas da sua amiga, dividida entre o desejo de expressar as suas suspeitas e preveni-la e a certeza de 
que iria ferir os seus sentimentos se insinuasse que Max Crighton deveria ter uma razo oculta para a convidar para sair.
Madeleine sempre fora uma boa amiga e Claudine
252
sentia-se na obrigao de a proteger; apesar de todas as vantagens sociais e materiais que tinha, era uma rapariga tmida e solitria que se deixava intimidar e 
dominar por todos.
- Foi muito amvel comigo, Claudine, simptico... - continuou Madeleine com a voz afogada, sem se voltar.
Claudine reprimiu as suas dvidas.
- Isso  bom - encorajou-a, mas conseguiu reprimir a sua curiosidade. - Quem  exactamente o primo dele? E porque  que nunca me falaste dele?

Era deprimente a facilidade e a velocidade com que uma pessoa se adaptava novamente  rotina, pensou Guy com esprito escuro, enquanto se dirigia para a loja logo 
pela manh, no seu regresso de frias. Trs semanas a navegar pelas ilhas gregas tinham-lhe escurecido ainda mais a pele e tinham tambm fortalecido os msculos 
que no precisava de usar no trabalho.
Bom, tinha estado trs semanas fora, mas em Haslewich continuava tudo igual. Mesmo assim, estava contente por naquele dia Jenny estar na loja. Tinha pensado muito 
nela durante as frias mas, claro, isso nem sequer era uma novidade.
Sabia que muitas pessoas ficariam surpreendidas ao conhecerem a intensidade do seu amor por ela. s vezes, ele mesmo ficava surpreendido. Afinal, era uma mulher 
vrios anos mais velha do que ele, serena e alegremente casada, e no o tipo de mulher que ele associava com sentimentos no correspondidos de paixo e de luxria.
253
Dentro de alguns dias iria acontecer uma feira de comrcio numa cidade prxima e Guy desejava saber, como em muitas ocasies passadas, que possibilidades teria de 
convenc-la a ir com ele. Uma estada de um dia em algum hotel romntico e apertado poderia... Quem  que ele estava a tentar enganar?, pensou enquanto chegava  
loja e procurava as chaves no bolso.
Franziu a testa quando colocou a chave na fechadura e viu que j estava aberta. Girou o trinco, entrou e a sua testa ficou ainda mais franzida ao ver Jenny a surgir 
na porta das traseiras. Estava diferente, mais magra, mais frgil, e o seu habitual sorriso quente e generoso no resplandecia. Por outro lado, parecia cansada, 
tensa e irritada.
- Jenny - exclamou carinhosamente. - No esperava encontrar-te aqui to cedo. Pensei que gostarias de ter algumas horas livres depois das trs semanas em que estive 
fora.
-  que eu vim deixar Joss na paragem do autocarro da escola - disse rudemente. 
Guy observou-a, pensativo. Quando Jenny no podia levar Joss directamente  escola era Jon quem trazia a criana at  paragem, no Jenny.
Jenny tinha-se voltado e estava a limpar o p a uma figura de porcelana pequena e delicada.
- As frias foram boas, Guy? - perguntou a si mesmo com amabilidade, e com os olhos postos em Jenny. - Sim, Jenny, foram ptimas, obrigado.
S queria espevit-la um bocadinho. No era muito caracterstico dela no fazer a pergunta, no ter mostrado genuinamente interessada nele mas, em vez de v-la rir 
e desculpar-se, como esperara,
254
os seus dedos comearam a tremer e a figura caiu no cho e partiu-se em vrios pedaos.
Guy ajoelhou-se imediatamente para os apanhar, mas parou ao olhr para Jenny e ver que ela estava imvel junto a ele, com uma expresso de perplexidade e desespero 
e os olhos cheios de lgrimas. Arrependido, levantou-se e ps-lhe a mo no brao para a consolar.
- Jenny, no  mais do que uma figura de porcelana - lembrou suavemente. - E nem sequer era muito valiosa - sorriu para a tranquilizar.

Estava a chorar, e as lgrimas deslizavam em abundncia pela sua face. Enquanto a contemplava, triste, ela cobriu o rosto com as mos e comeou a tremer enquanto 
as lgrimas passavam entre os dedos dela. Tanta dor no podia estar relacionada com a perda de uma pea de decorao.
- Jenny, o que se passa? O que aconteceu? - perguntou.
Durante um momento, pensou que ela no lhe ia dizer nada. O seu estmago estava encolhido de impotncia e fria ao ver aquela angstia silenciosa, muito mais enervante 
por causa do silncio dela, como se a dor fosse to grande que no conseguia express-la por palavras. Automaticamente, aproximou-se dela e abraou-a.
Tinha razo; tinha perdido peso e os ossos j se conseguiam sentir. Parecia minscula e frgil, muito frgil.
- Jenny - pressionou-a, desejoso de a abraar com mais fora, embora tivesse medo de a perturbar.
- Estbem - consentiu, interpretando mal o motivo da splica. - Para tua informao, Jon deixou-me.
255
Guy ficou rgido de incredulidade e de surpresa.
- Jenny - murmurou com a voz rouca, incapaz de expressar a sua perplexidade.
- Jenny o qu? - perguntou, chorosa.
- Jenny, no pode ser verdade.
- Mas . No tardar vais comear a ouvir os rumores - Guy no conseguia ver a sua face, mas parecia-lhe que tinha parado de chorar. Mesmo assim, os seus braos 
tremiam, como se o seu corpo no conseguisse aguentar tanta dor e indignao. -  o tema de conversa da cidade inteira... Mas, se eles agora j falam tanto, espera 
s at saberem porque  que ele se foi embora - voltou a chorar novamente, soluos amargos e horrveis. Guy abraou-a com fora.
- Porque  que ele se foi embora, Jen? - perguntou suavemente, como se estivesse a falar com uma criana, como se soubesse que, pela primeira vez na vida dela, Jenny 
precisava de poder comportar-se instintiva e no racionalmente.
- Apaixonou-se pela Tiggy... pela Tania - revelou com dor. Ela afastou-se um pouco e olhou para o rosto dele, com os olhos cheios de tristeza e desolao. - E quem 
o pode acusar? Basta olhar para ela para.
- Aquela mulher no te chega aos ps, Jen - disse Guy com aspereza. - Meu Deus, se ele te deixou por causa dela,  um idiota.
- No, no  idiota. Ele no est a fazer mais do que o que sempre lhe ensinaram a fazer. Passou a vida a assumir as responsabilidades de David e agora que David 
est to doente, o que mais poderia ele fazer seno assumir a responsabilidade de tomar conta da mulher de David? - soltou uma risada estridente e
256
perigosa, uma risada quase histrica. Guy sentiu o seu corao apertado. Ele queria consol-la, mas suspeitava que ela no aceitaria o conforto dele. Sempre soubera 
o quanto ela amava Jon e sempre Lhe parecera que Jon lhe correspondia. Ainda assim, no podia desperdiar a oportunidade que o destino lhe estava a oferecer.
- Escuta, porque no fechamos a loja durante uma hora? Normalmente no temos clientes s segundas-feiras de manh. Vamos tomar um ch enquanto me contas tudo.

- Guy... - novas lgrimas deslizaram pelas suas bochechas. - Eu ainda no consigo acreditar que o Jon partiu. Ele diz que  s uma separao temporria, que precisa 
de tempo para pensar. As crianas, todas as pessoas, pensam que... - mordeu o lbio. Todos pensam que  pelo David, pelo choque que sofreu com o ataque de corao 
do irmo e que est...
- Que est a atravessar uma crise de maturidade provocada pela doena de David - disse Guy. - Tal vez seja mesmo assim.
Jenny negou com a cabea.
- J no sei... j no sei nada.
- Talvez seja s algo temporrio - sentiu-se forado a dizer. - Vocs esto casados h muitos anos e...
- Jon casou-se comigo porque foi forado a faz-lo, no porque me amava - interrompeu Jenny com voz tensa.
Guy olhou para ela de cima a baixo. Foi a primeira vez desde que se conheciam que Jenny mencionou a gravidez que tinha precipitado o seu casamento. Na poca correram 
alguns rumores, claro. Ele
257
nunca prestou muita ateno ao assunto e depois, devido ao facto de o beb ter morrido logo aps a nascena, ele pensou que a recordao era to dolorosa que ela 
no queria falar no assunto. Nunca pusera em causa a felicidade do casamento.
- Talvez se tenham casado porque estavas  espera de um filho de Jon - afirmou. - Mas...
- No - Jenny moveu a cabea, com os olhos distantes enquanto contemplava no Guy mas, sim, o passado. - No - continuou. - No esperava um filho de Jon, mas de 
David.
Guy fez um esforo para no reflectir a sua perplexidade e para no fazer mais perguntas. Pegou na mo de Jenny, acariciou-a suavemente e disse calmamente:
- Vamos... Vamos tomar a tal chvena de ch. Seguiu-o com a docilidade de uma menina, observando como ele fechava a loja e a guiava pela rua abaixo.
Guy sabia perfeitamente onde pensava lev- la... ao nico lugar onde poderiam desfrutar da privaci dade de que Jenny precisava, mas resolveu dar uma
volta. Geraes inteiras de Cookes tinham aprendido a valorizar o sigilo e a precauo para salvarem a
pele. Naquele momento, no era sua a pele que estava em jogo, mas sim a reputao de Jenny. Haslewich continuava a ser uma cidade pequena e Jenny, ao estar separada 
do seu marido, encontrava-se numa situao vulnervel.
Notou como ela estava tensa enquanto percorriam o labirinto de ruas que os conduzia at  sua casa; mas Jenny permaneceu em silncio.
- Nunca tinha estado na tua casa - comentou en quanto entrava.
258
- No - reconheceu Guy.
Ele desejou saber como Jenny reagiria se lhe dissesse com que frequncia a tinha imaginado ali, e no apenas na sala de estar do piso de baixo, mas tambm em cima, 
na velha e enorme cama antiga que praticamente ocupava todo o piso de cima. Quando a comprou, teve de partir as paredes dos pequenos quartos que existiam para no 
apenas acomodar a cama como tambm ter espao para construir uma casa de banho.

Desde a sua pequena e arrumada cozinha, conseguia ver Jenny em p, no centro da sala de estar, contemplando lentamente a decorao. Ser que ela se apercebera do 
que lhe tinha revelado? Tinha tido inteno de diz-lo ou...
A gua estava a ferver. Fz o ch, serviu duas chvenas, colocou-as numa bandeja e levou tudo para a sala de estar.
- Agora - disse. - Senta-te e conta-me tudo.
- J te contei - suspirou Jenny. - Jon deixou-me, est apaixonado por Tiggy.
- Onde vive ele agora? Com ela? - Guy franziu a testa ao tentar imaginar a reaco do velho Ben ao saber que Jon tinha usurpado o lugar do seu irmo na sua prpria 
cama matrimonial.
- No, no... Alugou uma casa... Ele continua a fingir e a dizer que no  por causa de Tiggy, mas eu sei - afirmou com ferocidade. - Sei que  apenas uma questo 
de tempo, que...
- E David? Ele sabe?
Jenny negou com a cabea.
- No, no acredito que ele saiba. A menos que Tiggy lhe tenha contado. Deixou o hospital, mas
259
ainda no voltou para casa. Est numa clnica. O especialista era da opinio que ele precisava de descansar e evitar tenses e, claro, Tiggy concordou. Era de esperar, 
no? - acrescentou com amargura.
- Ento no  s Jon que... Tiggy tambm sente o mesmo? - Guy odiou-se por ter formulado aquela pergunta ao ver a careta que Jenny fez e como ela mordia o lbio 
inferior.
- Sim - afirmou baixinho. - Sim... Parece estar to apaixonada por Jon como ele por ela.
- Jen... - Guy fez uma pausa com delicadeza. Na loja disseste que... pelo menos, insinuaste que...
- Que quando Jon se casou comigo eu estava grvida de um filho de David - terminou com voz cansada. - Sim,  verdade. Foi isso que aconteceu - elevou a viso para 
o tecto, de forma a controlar as lgrimas que ameaavam cair. Naquela manh, a ltima coisa que tinha tido em mente quando sara de casa era contar aquele segredo 
a Guy. Na realidade,
estava com medo do seu regresso e desejara ardentemente que ele no voltasse. Ultimamente, adquirira
uma habilidade especial para evitar as pessoas, para impedir que elas se aproximassem o suficiente para lhe fazerem perguntas ou oferecer consolo. At tinha repudiado 
Olivia e Ruth.
Ela no queria consolo, apenas queria recuperar o seu marido e a vida de sempre. E, claro, no tinha tido inteno de falar com Guy sobre o filho de David. Comeou 
a tremer ligeiramente. Ainda no sabia porque  que lhe tinha contado a verdade apesar de, depois da partida de Jon, j no fazer sentido manter o segredo. Era como 
se a culpa e a vergonha que tinha sofrido, tanto no dia do seu casamento como ao
260
longo de todo o matrimnio, no por ter concebido um filho de David, mas por ter consentido que Jon sacrificasse a sua vida para a proteger a ela, ao beb e, claro, 
a David, lhe tivesse surgido na cabea naquela manh como uma ferida infectada que estava a espalhar o seu veneno.
- O que foi? - perguntou ferozmente ao ver o modo como Guy a observava. - Surpreendi-te?
- No, no  isso - negou Guy calmamente. -  que nunca pensei... No s...

- No sou o qu? Esse tipo de mulher? - sorriu Jenny com amargura. - No, penso que no, mas isso no muda as coisas. David e eu j namorvamos h bastante tempo 
quando eu entendi que o que tinha pensado que era amor no era mais do que uma paixo estpida de adolescente da minha parte e uma forma de passar o tempo antes 
de ir para a universidade por parte de David. Separmo-nos de uma forma civilizada, quando David foi para Oxford e eu voltei  escola - encolheu os ombros. - A minha 
me precisava de mim em casa para tomar conta dela, porque tnhamos descoberto que a doena dela era terminal. Jon e eu ramos... amigos, nada mais. Sim plesmente 
amigos. Quando eu descobri que estava grvida... - fez uma pausa e mordeu novamente o lbio.
- Contaste-Lhe porque era irmo de David?
- Sim, por causa disso - afirmou Jenny. - Apesar de ser estranho, acabou por ser Jon a dizer-me. Um dia desmaiei quando ele estava na minha fazenda. Nunca me passou 
pela cabea que estava grvida, mas Jon adivinhou imediatamente. Quando sugeriu que nos casssemos, senti-me to aliviada que 261
concordei - olhou para Guy. - Eu sei que ests a pensar que eu sou uma pessoa egosta, que usei Jon, que mereo perd-lo agora...
- No, no estou a pensar nada disso - garantiu Guy com determinao.
Quantos anos teria Jenny naquele tempo? Dezassete ou dezoito, no mximo; era uma jovem amedrontada cuja me estava a morrer e no tinha ningum a quem recorrer.
- Sabia que Jon no me amava... Como poderia amar? Mas ele convenceu-me que era a coisa mais correcta, que a criana, o filho de David, tinha direito a ser educado 
entre os seus familiares. Disse aos pais que ele era o pai da criana, quando Ben tentou dissuadi-lo. Penso que... Sempre pensei que a me dele sabia a verdade, 
mas mesmo que assim fosse, ela nunca disse absolutamente nada. Sarah foi muito amvel comigo desde o princpio e... - Jenny engoliu a saliva e reprimiu as lgrimas 
novamente. - A gravidez decorreu com tanta normalidade que eu no podia acreditar que o menino... - inspirou profundamente, com a garganta quase fechada por causa 
das lgrimas. - Disseram que o corao dele falhou, que...
Jenny teve de calar-se ao reviver aquela dor.
- Tudo foi em vo, entendes? - disse a Guy, triste.
- Em vo. Jon no tinha nenhum motivo para continuar casado comigo porque, afinal, no havia nenhum beb.
- Jen, por favor, querida, no... - implorou Guy, incapaz de continuar a assistir ao seu sofrimento.
- Depois... Depois do funeral, ofereci a Jon a sua liberdade de volta, mas ele no quis e eu... - elevou a
262
cabea e olhou-o nos olhos. - Nessa altura, j me tinha apaixonado por ele. Ele era e  tudo aquilo que David nunca ser e amava-o profundamente, mas ele nunca me 
correspondeu. Nunca me disse nada, mas eu sempre soube.
Guy no sabia o que dizer, no encontrava palavras para a consolar.
Jenny tinha terminado o ch. Contemplou a chvena vazia e disse em voz baixa:
- Temos de voltar para a loja. J  quase hora de almoo.

Estava completamente marcada, percebeu enquanto caminhava para a porta sem parar para conferir se Guy a seguia. Sentia-se vazia, quase purificada, e estranhamente 
separada de si mesma, como se tivesse alcanado a habilidade de sair do seu corpo temporariamente... O seu corao deu um pequeno salto. Temporariamente... Que apropriado. 
Tudo na vida era, afinal, temporrio. A vida era mesmo instvel, passageira e nada segura.
263
Catorze
David pegou no comando da televiso e sentou-se melhor no sof. Devia estar a fazer mais exerccio. O especialista tinha-o avisado no dia anterior quando foi at 
 clnica para conferir a evoluo dele. Segundo ele, era aconselhvel que os pacientes vtimas de ataques de corao no passassem muito tempo na cama, mesmo tendo 
sido um ataque to grave como o de David.
O doutor Hayes hesitara um pouco quando David lhe pediu que o transferisse para uma clnica em vez de voltar para a sua casa directamente mas, finalmente, David 
acabou por convenc-lo.
- Conseguiu escapar por uma unha negra disse-lhe o especialista.
Conseguido escapar... Oxal fosse assim. Ele dera-lhe tempo para respirar, nada mais. Cedo ou tarde, comeariam a pedir-lhe explicaes. Naquela altura, Jon j deveria 
ter descoberto as suas manobras. Quase teria sido melhor no ter sobrevivido, pensou. Levantou-se do sof e caminhou at  janela. A clnica estava rodeada por jardins 
imaculados e caminhos suficientemente largos para uma cadeira de rodas.
264
Tiggy fora v-lo naquela manh mas David fingiu estar a dormir. No tinha demorado muito tempo a
 ir-se embora, graas a Deus. A desvantagem principal da sua vida actual  que tinha demasiado tempo para pensar, e tomara uma deciso implacvel: fosse qual fosse 
o resultado da confuso financeira na qual se tinha metido, no podia continuar a viver com Tiggy. Por acaso ningum se apercebia das cargas que ele suportava, do 
modo como tinham controlado a vida dele? O seu pai, o seu irmo, Tiggy... com as suas expectativas e exigncias.
Ben sufocara-o com uma mistura intolervel de ressentimento e culpa, silenciara-o com o peso implacvel do amor dele, da determinao em que ele fosse tudo aquilo 
que ele no pudera ser. Meu Deus", tremeu ao pensar no que eles se tinham sacrificado para lhe conceder todo o tipo de prmios e recompensas sempre que ele ficara 
a desempenhar o papel que seu pai criara para ele.
Mas ele no era o gmeo do seu pai, que morrera. No era o seu av. Se tivesse tido oportunidade de escolher, a ltima profisso que escolheria seria a de advogado. 
No fundo, no fundo da sua alma, se tal existisse, sentia um desejo, um intenso anseio por desafios e mudanas, por horizontes ilimitados, por aventuras e at mesmo 
por perigo.
Durante os dias que passara na cama sob o efeito de medicamentos, tinha sonhado com rios grandes a atravessarem a selva tropical, tinha-se imaginado a

descer rios perigosos e raivosos quase at ao limiar da morte... a aventura definitiva. Ento, compreen deu que no podia continuar a viver assim.
E Jon... Jon, com o seu olhar atento e sereno, com
265
a sua lealdade. Deveria ter sido ele o eleito. Devia ter sido assim... Jon que, desde criana, o protegera e su portara os castigos por muitas das suas asneiras. 
Jon,
a quem por vezes odiava por tanta generosidade para com ele e por quem sentia inveja por ele no ser o filho favorito do pai. Jon tambm era um peso, uma recordao 
viva das suas prprias fraquezas e debilidades, de tudo o que ele jamais poderia chegar a ser.
E por ltimo Tiggy, a sua mulher. Ela era a carga mais pesada. No poderia viver novamente com ela. No podia voltar  sua vida de sempre. Nem pensar.
- Ainda no houve mais notcias dos contabilistas da Jemima Harding? - perguntou Olivia a Jon, semanas depois de ter descoberto as aces desonrosas de seu pai.
- Ainda no. Cancelaram a primeira reunio e, aparentemente, o scio que trata dos assuntos de Je mima est de frias. Ontem fui at ao lar v-la. No
se encontra nada bem - contou Jon com um tom sombrio.
- Que se vai passar se... quando ela morrer? - perguntou Olivia com preocupao. Mas j sabia a resposta  sua prpria pergunta. - O meu pai... O meu pai j lhe 
contou alguma coisa sobre...
Novamente, Jon negou com a cabea. Para Olivia era incompreensvel que o seu pai continuasse a manter-se de boca fechada. Sem dvida, ele deveria imaginar que as 
aces fraudulentas e o roubo j tinham sido descobertos.
Olivia contemplou o seu tio enquanto este revia o correio. Quando descobriu que Jenny e ele tinham
266
decidido separar-se, ficou estupefacta. Eles sempre tinham parecido to felizes... Ela estava incomodamente atenta ao facto de a sua me comear a apoiar-se em Jon 
e a depender dele desde o ataque de corao do seu pai e esperou que...
At ao momento, que ela soubesse, no se voltara a repetir nenhuma das orgias alimentares da sua me. Talvez tivesse sido apenas um caso pontual e ela no tivesse 
realmente motivos para se preocupar.
Jon tinha um julgamento em Chester com um dos seus clientes e Olivia ficara inquieta ao ouvir a sua me dizer que planeava ir com Jon, para fazer algumas compras.
Saul tinha voltado para Pembrokeshire, mas manteve-se em contacto e telefonava-lhe quase diariamente. Eram chamadas alegres e divertidas, em que falavam acerca do 
problema que ele estava a ter para encontrar uma ama adequada para as crianas.
- Parece-me que no eras capaz de ter pena de mim e vir salvar-me - brincou numa ocasio.
- Claro que no - recusou Olivia.
- Ah, ento tambm j ouviste essas histrias, verdade?
- Que histrias? - perguntou Olivia com curiosidade.
- J sabes, essas em que o pai sempre se apaixona pela ama - respondeu, com um tom malandro.

Cuidado", pensou Olivia quando terminaram a conversa. Seria muito perigoso ressuscitar a sua fantasia de adolescente com Saul, us-lo para curar as feridas e preencher 
o vazio que sentia.
No tinha tido notcias de Caspar e, embora no as esperasse, por absurdo que parecesse, o seu corao
267
batia mais depressa sempre que o telefone tocava. Mas, mesmo que ele a contactasse, de que serviria? Ela tinha poucas possibilidades de obter uma permisso de trabalho 
nos Estados Unidos, ou at mesmo um visto, ainda para mais agora que o seu pai estava em vias de se tornar num criminoso.
Num mundo em que a interveno humana era um factor decisivo, era surpreendente descobrir que o destino, a natureza, a sorte ou o azar ainda tinham um efeito devastador 
e inesperado nas vidas das pessoas.
- Que tal sentires um bocadinho de pena de mim e jantares comigo hoje  noite?
- Saul... Como  que eu posso jantar contigo?perguntou Olvia, que riu ao atender o telefone e ouvir a voz do seu primo. - Tu ests...
- No - interrompeu-a suavemente. - Estou aqui, em Haslewich. Bom, quase...
Olivia sentiu o afecto na voz dele e foi apanhada por uma intensa desolao e solido.
- Que... Que fazes aqui? - perguntou com a voz rouca. - Pensava que...
- Negcios. Tenho uma reunio em Chester amanh de manh. Vou passar a noite no Grosvenor. Podia passar para te apanhar e...
- No, no... Eu vou ter contigo a Chester - respondeu Olivia. Apetecia-lhe sair um bocado. H j muitas noites que pensava nos seus mil problemas que no tinham 
soluo.
- Boa menina - disse Saul em voz baixa. Quando virs?
O Grosvenor ficava mesmo no centro de Chester. O
268
porteiro recebeu-a com um sorriso e um olhar passageiro de admirao. Olivia entrou no salo de entrada e viu Saul em p,  sua espera.
Estava perigosamente atraente com o seu elegante fato escuro, e Olivia notou que ele a olhava como que a avali-la enquanto a cumprimentava. O seu batimento cardaco 
acelerou de um modo traioeiro, enquanto o seu prprio corpo notava o interesse de Saul e respondia a ele.
- Hum... D vontade de comer-te - disse Saul, que no prestou ateno  inteno de Olivia de manter-se a uma certa distncia e inclinou a cabea para a beijar nos 
lbios. - Tenho tanta vontade - murmurou enquanto elevava a cabea. - Que...
- Saul - repreendeu-o Olivia.
- Est bem - disse, a rir-se. - Mas no me podes culpar por tentar. Gosto do teu vestido, a propsito - comentou. - O preto fica-te bem. Tiveste notcias de
Caspar?
Olivia negou com a cabea.
- E tu? Soubeste alguma coisa de Hillary?
- Fui contactado pelos advogados dela - respondeu com ironia. - Eu diria que est muito ansiosa por se divorciar. Gostava de saber porqu. Provavelmente j encontrou 
a prxima vtima.

O corao de Olivia comeou a bater com fora. Saberia Saul alguma coisa sobre Hillary e Caspar? - Saul... - comeou a dizer, mas antes que conseguisse terminar, 
Saul j estava inclinado para ela a sussurrar:
- Tens os lbios um pouco borrados.
- E de quem  a culpa? - perguntou Olivia com indignao. - Agora vou ter de ir  casa de banho para me retocar.
269
- Tenho uma ideia melhor... - enquanto lhe apertava o lbio inferior suavemente com o polegar e olhava directamente nos seus olhos, Olivia viu neles a mensagem inequvoca 
do desejo; inspirou profundamente e deu um passo atrs, decidida.
Sentia-se como se tivesse bebido um copo de champanhe de um nico gole e, como resultado, estava um pouco tonta. A expectativa, juntamente com a atraco sensual 
e sexual, espalhava-se suavemente por todo o seu corpo, e teve a tentao de deixar de lado as preocupaes e comportar- se de um modo irracional, at mesmo irresponsvel. 
Imaginou a sensao do calor dos braos de Saul em volta dela, o contacto ntimo dos lbios dele nos seus, a presso forte e masculina do corpo dele...
Tem cuidado, tentou prevenir-se. Saul  da famlia,  um parente, um amigo... no um possvel amante". Tinha ido a Chester com a nica inteno de jantar com ele 
e de conversar. Nada mais, recordou com determinao. Nada mais.
- Quase no tocaste na comida. Queres que pea outra coisa?
Jenny negou com a cabea e olhou com uma expresso de desculpa o empregado que se aproximou para recolher os pratos, o dela quase intacto e o de Guy completamente 
vazio.
-  que eu no tenho muita fome - reconheceu. Eu jantei com as crianas antes de vir - mentiu.
Ainda no sabia o que estava a fazer com Guy no restaurante de luxo de Knutsford, quando podia estar em casa a passar a ferro e quando, afinal de contas,
270
eles passavam o dia quase todo juntos. Apenas sabia que, quando Guy lhe tinha telefonado e convidado para jantar, por alguma razo e sem ter tempo para pensar, tinha 
aceite.
Por alguma razo... ela estava a tentar evitar a verdade. Sabia o que a tinha levado a aceitar o convite de Guy. Tinha sido Olivia que a tinha informado, de modo 
inocente, que Jon tinha ido para Chester com a sua me. Lgrimas ardentes inundaram-lhe os olhos. Muitas vezes ao longo dos anos tinha sofrido sabendo que, apesar 
de leal, atento e compassivo, Jon no conseguia am-la. No entanto, era a primeira vez que todo o seu corpo reflectia a agonia emocional por t-lo perdido e os cimes 
amargos que sentia de Tiggy. Conhecendo Jon como conhecia, sabia que devia ser muito doloroso para ele ter-se apaixonado pela mulher do seu irmo.
Sim, tinha visto os olhares de piedade pouco sincera que as pessoas lhe lanavam na rua, mas o mais irritante e humilhante de tudo era ver como algumas mulheres, 
que antes considerava amigas, faziam tudo
para evit-la, como se o abandono do seu marido fosse uma doena contagiosa que ela pudesse transmitir aos outros. E nem mesmo a Ruth pudera confiar o seu sentimento 
de fracasso e de desespero. Era como se sempre tivesse sabido que aquilo aconteceria algun dia, que Jon acabaria por perceber que perdera a sua vida a proteg-la 
a ela. No, a ela no, corrigiu, mas sim para proteger David.

Jon contemplou o jardim na escurido desde o largo alpendre da casa que tinha alugado. A casa estava em silncio, num silncio quase sufocante, sem
271
o alvoroo e o barulho a que estava habituado. Tinha graa! Se Lhe tvessem perguntado antes, ele teria
dito que o barulho era o que menos falta lhe faria. E ali estava ele, a desejar ouvir as crianas a baterem palmas enquanto desciam e subiam as escadas ruidosamente, 
fazendo barulho, gritando, pondo msica em altos berros e discutindo a plenos pulmes. E, por cima de toda aquela confuso, a voz macia, quente e reconfortante de 
Jenny.
Jenny... Fechou os olhos e apoiou a testa no copo. Ainda se lembrava do olhar de perplexidade e incredulidade dela na noite em que lhe contara que ia sair de casa; 
ainda ouvia a dor na voz dela. Mas, mesmo sabendo que a tinha ferido profundamente, Jon tinha encontrado uma soluo para satisfazer as suas prprias necessidades 
pela primeira vez na vida.
Tinha visto Louise algumas horas antes, naquela mesma tarde, em Haslewich, mas, ao v-lo, a sua filha atravessou para o outro lado da rua e recusou-se at a olhar 
para ele. Isso acontecera depois de voltar
de Chester.
Chester. Soltou um pequeno gemido quando pensou no que aconteceu naquele mesmo dia.
Tinha sido ideia sua convidar Tiggy para almoar no restaurante do Grosvenor e, naquele momento,
sentiu vergonha ao reconhecer que tinha gostado de ver os olhares de inveja dos outros homens ao entrar com ela pelo brao. Estar com Tiggy fazia-o sentir-se diferente, 
como se fosse a pessoa que sempre acreditara poder ser mas que nunca Lhe tinham permitido ser; um Jon diferente, no o Jon bom, humilde e merecedor de confiana, 
mas o Jon que sempre estaria acompanhado por uma mulher como Tiggy, o Jon
272
que almoaria em locais como o restaurante do Grosvenor em vez de comer uma sandes no seu escritrio.
Que tolo tinha sido ao criar uma imagem fantasiosa de si mesmo que, afinal, no seria capaz de manter... de modo nenhum.
Tiggy apenas comeu um bocado porque, segundo dissera, no tinha fome, mas bebeu vrios copos de vinho e, sem dvida, essa tinha sido a razo pela qual depois do 
almoo ela lhe tinha proposto que, em vez de ela ficar nas compras e ele ir para o tribunal, o melhor era passarem o resto do dia juntos.
No princpio, Jon no suspeitou das suas inten es. S quando Tiggy brincou, afirmando que eles
nem precisavam de um nome falso-porque eram o senhor e a senhora Crighton,  que percebeu o que Tiggy queria fazer. E que faria agora depois de ter estado semanas 
a comportar-se como um adolescente apaixonado, insistindo em que a sua deciso de deixar Jenny no tinha nada a ver com Tiggy? Por acaso aproveitaria a oportunidade 
que Tiggy lhe estava a dar de consumar o seu amor por ela?
No, de forma nenhuma. Gemeu novamente. Ainda no conseguia acreditar em como tinha sido
covarde e pattico.
O seu corpo, em vez de ficar inflamado de paixo, sucumbiu a um terror incontrolvel e, pior ainda, at

mesmo aquela parte que deveria estar cheia de excitao sexual sucumbiu. Para tornar a situao pior, ele comeou a dizer tolices sobre a impossibilidade de fazer 
algo assim, e inventou desculpas atrs de desculpas enquanto Tiggy se limitava a escut-lo e a observ-lo com incredulidade. E em relao s suas emoes?!
273
Jon abriu os olhos e afastou-se da janela. Aquele tinha sido o golpe mais duro porque, em vez de sentir
uma onda de prazer e excitao, de amor e de encantamento, ao ouvir a sugesto de Tiggy, apenas sentiu uma onda de nojo e choque, e percebeu com clareza total que 
a ltima coisa que queria era fazer amor com Tiggy e que o nico corpo que desejava era o da sua mulher.
Nos lcidos seis ou sete segundos que tinha demorado a assimilar aquelas revelaes, ficara to chocado e distrado que nem se preocupara em como Tiggy se estava 
a sentir.
Na realidade, no podia culp-la pela cena que fizera ou pelas acusaes que lhe tinha lanado, e nem mesmo por se ter recusado voltar a Haslewich com ele. Jon fez 
uma careta. No percebia por que raios se tinha sentido pelo menos remotamente atrado por ela.
Que diabos tinha feito, e porqu? Finalmente,
soube a resposta.
Durante anos tinha tido cimes de David por ser sempre o segundo. Ele tinha sido um idiota, um perfeito idiota, e naquele momento daria qualquer coisa para poder 
apagar as ltimas semanas, pegar no carro e voltar para casa. Voltar a viver com Jenny e com as crianas... viver com Jenny. Fixou o olhar no telefone e franziu 
a testa ao ver que estava a comear a tocar.
- Tio Jon?
- Sim, Jack? - cumprimentou o filho de David e Tiggy.
-  a me. Pode vir c a casa? No... no est muito bem.
274
- Jack, o que aconteceu? O que se passa? - perguntou, mas o seu sobrinho j tinha desligado.
Imediatamente, pegou nas chaves do carro e saiu pela porta.
Guy estava a ponto de perguntar a Jenny se ela queria um licor, quando ela levantou-se com rudeza e disse-Lhe:
- Guy, lamento, mas... Quero ir para casa. Ao princpio, pensou que Jenny no se estava a sentir bem e chamou imediatamente o empregado, levantando-se. Enquanto 
saam, Jenny no conseguia olhar para os olhos dele, ao caminharem a passos largos para o carro. Sentia-se muito culpada, mas no tanto como se teria sentido se 
tivesse passado mais tempo com ele.
- Jenny, o que se passa? Ests bem? - perguntou Guy com preocupao, enquanto lhe abria a porta.
- Estou bem, a srio - disse. -  que...  que isto no est bem. Para mim, no. Lamento, Guy - desculpou-se. - Eu sei que ests a tentar ajudar, mas...
Como poderia explicar-lhe que tudo aquilo era estranho para ela, o vazio e a esterilidade que sentia perto dele e no de Jon? Por muito solitria que se tornasse 
nos prximos anos, a solido era muito mais

prefervel do que tentar preencher o vazio que sentia com outro homem, apesar de ser um homem to amvel e bondoso como Guy.
- Acho que... que sou mulher de um nico homem
- disse, e tentou forar um sorriso, mas deduziu pela expresso de Guy que no o conseguira enganar. Lamento - repetiu, girou a cabea  procura da janela.
275
Guy gemeu para dentro e desejou poder responder: Mais lamento eu", mas fez um esforo para reprimir a amargura e a frustrao. No era assim que imaginara que aquela 
noite terminaria.
Em Chester, Olivia e Saul tinham terminado de
jantar. O restaurante estava quase vazio; s estavam
eles e outro casal que saboreava um licor, sem vontade de pr fim quela noite.
- No, no acredito - disse Olivia, e moveu a cabea em sinal negativo, enquanto Saul terminava de
contar uma histria divertida sobre uns clientes estrangeiros da empresa dele.
-  verdade - respondeu, ainda a rir. - Ah, quase
me esquecia. Tenho algumas fotografias para Ruth
no meu quarto. Tinha-lhe prometido. Algumas so
das crianas e outras dos arranjos florais da festa. Podes entreg-las?
- Sim, claro que sim - consentiu Olivia. - Parece-me que os empregados esto  espera que nos
vamos embora, Saul - disse, em sinal de advertncia.
- J no est mais ningum a jantar.
- O qu... - Saul olhou  sua volta e moveu a cabea com incredulidade. - No pensei que fosse to
tarde - reconheceu enquanto ambos se levantavam.
Uma vez fora do restaurante, dirigiram-se para os
elevadores.
- Nunca me senti bem dentro destes caixotes - admitiu Olivia quando as portas se fecharam e o elevador comeou a subir.
- Sim... Percebo-te - disse Saul. - Mas claro que
276
no me importaria de ficar aqui preso contigo, Livvy
- brincou.
Ambos desataram a rir, enquanto o elevador parou suavemente no piso do quarto de Saul.
-  por aqui - indicou quando saram e ele tirou a chave do bolso quando chegaram  porta do quarto. Depois de abri-la, deixou Olivia passar. O quarto era espaoso 
e estava decorado com elegncia, mas claro, Olivia no teria esperado menos do Grosvenor.
As cores e os motivos tinham sido cuidadosamente escolhidos para o tornar quente e acolhedor; a cama de casal j estava desfeita; observou. Ao v-la, teve de reprimir 
um bocejo.
- Cansada? - perguntou Saul. - Estas ltimas semanas devem ter sido muito duras para ti.
O seu afecto e compreenso eram to diferentes da atitude de Caspar... Porque  que Caspar no podia ter sido igualmente compreensivo?
- Livvy... - ouviu Saul perguntar. Olivia moveu a cabea e disse-Lhe:
- Est a ficar tarde, tenho de ir. Se me deres as fotografias...

- As fotografias? Sim, claro. Deixa ver... Onde  que as pus? - murmurou Saul, enquanto foi at  cmoda e abriu a primeira gaveta.
Tinha tirado o casaco ao entrar no quarto e, enquanto o observava, Olivia pensou perigosamente no homem que ele era, no quanto as suas costas eram musculadas por 
debaixo da fina camisa branca.
- Onde  que as terei deixado? - murmurou novamente Sal, ao fechar a gaveta. - J sei - anunciou com uma atitude triunfante, e estalou os dedos antes de dar uma 
volta.
277
Esquecendo que a cama estava exactamente atrs,
Olivia retrocedeu, tropeou nas franjas do tapete e
caiu.
- Cuidado - advertiu Saul, mas quando os dedos
dele agarraram de forma protectora o antebrao de
Olivia, a expresso dele mudou, e a alegria desapare" ceu do seu olhar ao ser substituda por um intenso desejo, que a fez tremer.
- Saul... - preveniu-o, com voz trmula.
Olivia ouvia as batidas fortes do seu prprio corao. As suas pernas estavam quase a fraquejar
quando viu como Saul olhava para os seus lbios.
 - Saul, no - protestou com a voz rouca.
- No resistas, Livvy - disse-lhe suavemente. - 
o que ambos desejamos, o que ambos necessitamos.
- No - respondeu Olivia. - S dizes isso porque... pelo que aconteceu, porque eu estou aqui.
E Saul continuou a agarr-la, aproximando-se cada
vez mais, e ela no se ops.
- Livvy, tu sabes que... - ento, interrompeu a
frase e nos seus olhos surgiu um desejo feroz; tomou
a face dela entre as suas mos. - Devia ter feito isto
h anos - murmurou, enquanto afundava os dedos no
cabelo de Olivia e ela sentia o seu hlito quente prximo da boca. - Aquela noite, quando eu te vi no rio.
Nessa altura, no terias dito que no, verdade,
Livvy?
- No, por favor - protestou novamente, mas j
era muito tarde. Os lbios de Saul j se estavam a
mover contra os seus e Olivia estava a responder ao
beijo. Desejava tanto aquele tipo de proximidade, de
intimidade fsica, agradava-lhe tanto... Era agradvel
ser abraada, acariciada, beijada... e desejada.
278
Fechou os olhos e abraou-o com fora, enquanto saboreava o seu calor. Comeou a tirar-lhe a camisa com mos impacientes. O corpo dele era forte e quente. Ouviu-o 
gemer, sentia a vibrao do gemido no seu peito, enquanto lhe tocava. A pele do seu corpo era sedosa, suave e...
Franziu a testa, porque um pensamento errante estava a tentar intrometer-se entre o tremor de prazer sensual que estava a experimentar. Sentia as mos de Saul no 
seu corpo, tocando-a com firmeza e, ao mesmo tempo, com hesitao, como se precisasse de obter uma confirmao fsica de que as suas carcias estavam a ser bem recebidas.

Olivia deu-lhe essa confirmao. Suspirou suavemente e voltou-se ligeiramente, de forma a que a mo de Saul descansasse nos seus seios. Foi tudo o que Saul precisou 
para comear a beijar-lhe o pescoo e o ombro, enquanto lhe tirava o vestido, deixava os seus seios visveis e comeava a acarici-los com as mos. Saul no lhe 
estava a exigir nada, no a estava a obrigar a nada, estava a dar, sem esperar receber.
- Livvy. - ouviu-o dizer prximo dos seus seios.
- No sabes o quanto eu quis fazer isto... o quanto te desejei.
Olivia estava a tremer com fora, tanto pela emoo como pelo desejo. Flutuava numa nuvem de prazer; sentia-se desejada. Saul acariciou-lhe o mamilo com o polegar 
e ela tremeu ostensivamente.
- Olivia...
Ao olhar para ele, viu como o desejo Lhe tinha dilatado as pupilas dos olhos. A sua expresso habitual desaparecera e tinha a pele ligeiramente corada
279
e quente. Saul enterrou o rosto entre os seus seios e comeou a beijar o macio vale que existia entre eles.
No parava de beij-la, de sabore-la, de falar com ela, de dizer-lhe com a voz embargada pelo desejo o quo bonita ela era. Para Olivia era impossvel permanecer 
imune quele desejo... Saul sentia a sua excitao, viu a forma como os mamilos dela ficaram duros e se enchiam de um modo provocante, convidando as carcias dos 
lbios e da lngua de Saul.
Saul tinha desabotoado a camisa e com a outra mo estava a lutar contra o cinto.
 - Ajuda-me - implorou a Olivia com voz rouca. Despe-me, Olivia...
Olivia deixou que Saul lhe pegasse na mo e pegou no seu cinto, com os dedos a tremer ao ouvir como ele inspirava e tremia, ao sentir o contacto dos dedos dela na 
pele nua sobre a fivela.
Olivia tirou-lhe o cinto com destreza. Saul tinha o ventre firme e liso, e o tacto dos seus plos excitaram-na enquanto o acariciava. Fechou os olhos e elevou a 
face at ele. Ultimamente, sentia-se to cercada
pelos problemas... era agradvel sentir-se daquela forma, desejada, e a hostilidade e a raiva foram substitudas por risos e afecto.
Deixou os seus pensamentos viajarem enquanto ele continuava a beij-la, e tentou esquecer-se de tudo alm do prazer que partilhavam mas, no fundo do seu ser, uma 
vozinha melanclica no se silenciava.
Algo no estava bem. Sim, a sua pele, o seu corpo, os seus sentidos respondiam a Saul, agradeciam a sensualidade das suas carcias. Em parte, 
280
desfrutava do calor e do desejo que viu nos olhos dele, mas algo no estava completamente bem. Faltava alguma coisa e, enquanto tentava responder com paixo ao beijo 
dele, Olivia entendeu o que era.
- Caspar.
Ela no percebeu que tinha pronunciado o nome dele at que viu que Saul se afastava suavemente, mas com determinao, e no a olhava com paixo, mas sim com tristeza.
- Eu... Lamento - balbuciou Olivia. - Eu no pensei... No queria...

- No faz mal, Olivia - tranquilizou-a Saul suavemente. - Eu percebo - olhou ainda fugazmente para os seus seios nus, antes de solt-la e cobri-la novamente com 
muito afecto. Quando terminou, olhou directamente para os seus olhos e sorriu. - No faz mal - repetiu com nfase. - Eu entendo.
- No queria...  que...
- Eu sei, eu sei - consolou-a. - Mas isto no fez com que eu perdesse as iluses - acrescentou com tristeza. Tocou-lhe ligeiramente na face com as pontas dos dedos 
e comeou a vestir a camisa.
- No devia... - comeou a dizer Olivia, que se sentia cada vez mais culpada. Saul estava a ser muito querido e amvel. Se tivesse algum bom senso, esqueceria Caspar 
e...
Pelo que parecia, no possua aquela qualidade admirvel, porque a pessoa que mais desejava no mundo era. Caspar.
- No, eu  que no devia - ouviu Saul dizer enquanto Lhe pegava nas mos. - Digamos que isto - passeou o olhar pelo quarto. - Foi o resultado de um vinho muito 
bom e de um pouco de iluses... pelo
281
menos, para mim - em seguida, inclinou-se para ela e deu-lhe um beijo na bochecha. - E agora, deixa ver... Onde  que eu pus as fotografias?
- Oh, Max...
Max fez uma careta de impacincia ao ouvir a voz entusiasmada de Madeleine e sentir o calor das lgrimas dela na sua pele. Se havia algo que odiava imensamente era 
que as mulheres chorassem depois do orgasmo. Devia ter imaginado que Madeleine era uma dessas, da mesma forma que tinha imaginado que ela
seria inexperiente, por sorte, demasiado inexperiente para no se aperceber de como o seu desejo por ela era artificial. Ao contrrio da sua companheira de casa, 
Claudine... Ela sim teria percebido e, sem dvida, no teria chorado.
Reprimiu o pensamento com irritao. Nunca se tinha sentido atrado pelas morenas e, certamente, no por morenas como Claudine. Estava demasiado segura de si mesma, 
muito...
- Oh, Max... Oxal pudssemos estar sempre juntos...
Max ficou tenso; aquela era a deixa que precisava, a oportunidade pela qual tinha estado  espera e para a qual tinha trabalhado.
- Oxal - mentiu com destreza, e estendeu a mo para secar-lhe as lgrimas, num gesto de ternura fingida, enquanto lhe dedicou o seu sorriso de crocodilo. - Mas 
j sabes a situao. No sou... Quase que no consigo manter-me sozinho, quanto mais com outra pessoa.
Notou como o corao de Madeleine batia mais
282
forte, de um modo traioeiro, e sentia como o seu prprio corpo comeava a relaxar-se com a sensao de vitria. Tinha sido to simples... Muito mais simples do 
que tinha previsto. Quase aborrecido. Madeleine tinha engolido cada uma das mentiras que tinha tido o cinismo de inventar e olhava para ele com os olhos muito abertos, 
como que a adr-lo, enquanto ele abria caminho de modo implacvel na sua vida e no seu corao.

Antes de conhec-la, no tivera nenhuma ideia clara de como alcanar o seu objectivo, mas assim que a viu... era muito influencivel e malevel, e o desprezo que 
sentia por ela tinha-se expandido aos seus pais, principalmente ao senhor Browne. Eles realmente acreditavam que a filha podia ser advogada? Sim, tivera a formao 
necessria, mas no era possvel imagin-la a falar num tribunal; nem mesmo a defender um caso, nem que fosse de direito fiscal... E mesmo assim, s por ser quem 
era, ou melhor, por o seu pai ser quem era, ela tinha poder para ficar com a vaga, se assim quisesse.
Astutamente, Max tinha fingido ignorar a identidade do seu rival em relao  vaga, ao mesmo tempo que reconheceu abertamente e com charme que a vaga era realmente 
importante para ele. Como era de esperar, Madeleine tinha ficado nervosa e vermelha como um tomate, e perguntara-lhe mesmo se no podia ascender a scio noutro escritrio. 
Max sentira-se tentado a falar-lhe com rudeza, mas conseguira controlar-se. Teria a oportunidade de dizer-lhe tudo o que queria quando a vaga fosse dele.
- Bom, haver sempre uma vaga para mim em Chester - mentiu com facilidade.
283
Na realidade, o orgulho de Ben nunca lhe permitiria aceitar qualquer favor do outro lado da famlia, que vivia em Chester, nem mesmo para o seu neto favorito. Ah, 
no! Para Max nunca seria suficiente poder ser comparado com os primos de Chester, pois deveria super-los. Mas Maddy, claro, no sabia nada disto nem de muitos 
outros aspectos da vida dele... e nunca saberia.
- Chester? - perguntou Maddy com preocupao.
- Mas isso significaria que terias de viver l e...
- E o qu? - brincou Max, antes de comear a beij-la continuamente, at que os protestos dela o detiveram.
Sim, tinha lanado o anzol com muito cuidado e aquela noite tinha caado a presa. No deixara nada ao acaso, nem o champanhe que tinha posto no frigorfico antes 
de partir para ir busc-la para o jantar, nem os lenis limpos e passados que pedira  empregada para colocar nem as flores que comprara para o quarto.
- Hum... - murmurou Max, enquanto lhe mordis cava a orelha suavemente. - Eu no estou muito ansioso por conhecer o teu pai. No ter grande impresso de mim como 
futuro genro, no achas? Pelo menos agora, que nem tenho um emprego decente...
Notou como ela estava imvel nos seus braos e, quando elevou a cabea para a olhar nos olhos, a mistura de esperana, incredulidade e adorao que viu neles f-lo 
sorrir com alegria.
- Oh, Max... - sussurrou Madeleine. - No sabia... No pensava... Oh, Max, amo-te tanto... - abraou-o com fora. - O pai ficar encantado contigo - sussurrou novamente, 
com voz trmula. - Da mesma
284
forma que eu. E quanto a no teres um trabalho decente...
- Sim... - disse Max, entre beijos. - Podemos viver de amor,  o que queres dizer?
Madeleine sorriu.
- Bom... Eu tenho... Eu tenho algum dinheiro - disse com timidez. - E...

- No - respondeu Max com ferocidade, mas amoleceu a voz e a presso das mos ao ver o choque dela. - No, amor, eu no sou o tipo de homem capaz de viver s custas 
de uma mulher. Eu sei que  um bocado machista e antiquado da minha parte mas, enfim,  assim que eu sou.
- Oh, Max... no sabes o quanto eu te amo - suspirou Madeleine. - No te preocupes em relao  vaga - tranquilizou-o, e dedicou-lhe um sorriso feliz e misterioso. 
- Eu sei que tudo correr bem... - os olhos dela brilharam de felicidade enquanto elevou a face para ele. - Por isso, por favor, pra de te preocupar e beija-me.
- Jack, que aconteceu? Onde est a tua me?perguntou Jon com preocupao quando o seu sobrinho abriu a porta. Tinha ido para a casa de David e Tiggy, assim que recebeu 
a chamada de Jack, com o estmago revolvido pela preocupao e pelos remorsos.
- Est... Est na cozinha - respondeu Jack com tristeza, mas, enquanto Jon avanava para a porta fechada da cozinha, notou que o seu sobrinho estava parado, como 
se estivesse relutante em acompanh-lo.
285
No imaginava o que o esperava atrs da porta
mas, certamente, aquela no era a cena que ele esperava encontrar.
Tiggy estava sentada no meio da cozinha, cercada
pelo que parecia ser o contedo de um caixote de
lixo. Vestia uma camisa de dormir justa e transparente, atravs da qual poderia olhar brevemente para
o corpo dela, mas era impossvel faz-lo porque a camisa estava manchada de comida. Era evidente que
em algum momento da noite ela tinha vomitado; conseguia cheirar o odor nauseabundo do vmito, o que
fez com que ele prprio sentisse nuseas.
- Tigy.
Quando pronunciou o nome dela, Tiggy fixou a
viso nele, mas no deu sinais de o reconhecer. Tinha
o olhar perdido, como se fosse um animal. Enquanto
Jon a observava com mais ateno, reparou que ela
no tinha apenas a roupa manchada de comida mas
tambm o cabelo e a face. De comida e tambm de
restos de vmito.
Tinha o estmago s voltas e teve de cerrar os dentes para reprimir as prprias nuseas. Enquanto olhava
para aquele cenrio, incapaz de compreender o que estava a ver, ela comeou a afastar-se e a encolher-se...
como um animal amedrontado. No parou de olhar
para ele enquanto esticou uma mo, como se fosse
uma garra, para pegar num pedao de bolo j trincado:
Para grande surpresa de Jon, meteu o bolo dentro da
boca sem sequer olhar, como uma criatura selvagem.
Meu Deus... O que estava a acontecer? O que estava
ela a fazer a si mesma? Instintivamente, soube que no
era um incidente isolado, uma nica situao 
s presses externas ou aos nervos originados
286
pelo ataque de corao de David. Pela segunda vez na vida, soube o que era sentir piedade pelo seu irmo.

A primeira vez acontecera na noite em que Harry nasceu, quando ele teve o privilgio de testemunhar o milagre do nascimento e todo o seu ser se encheu de amor e 
carinho perante aquela criatura indefesa e minscula que nascera h pouco. Apesar de naquele momento ter sentido piedade pelo irmo, no sentira tanto como naquele 
dia.
- Tiggy!
- No serve de nada. Ela no consegue ouvi-lo... Nunca consegue quando fica deste modo.
Ao ouvir o sobrinho, deu meia volta. Meu Deus, nenhum menino deveria testemunhar aquele horror e, porm, Jack parecia sereno, maduro.
- Tiggy... - tentou outra vez, mas ela j estava a comer outra coisa e recusava-se a olhar para ele.
- Daqui a pouco ter comido tudo - disse Jack com indiferena. - E... E ento ficar bem. A menos que... - fez uma pausa e olhou para Jon. - s vezes, no  o suficiente 
e tem de comer mais, e ento...
Jon viu como a face do menino comeava a enrugar. Automaticamente, abraou-o e embalou-o. Meu Deus, estava to magro... Muito mais magro do que Joss.
Havia mais de cem perguntas que queria formular, mais de cem detalhes que precisava de saber. No fazia ideia de como abordar aquela situao. Pelo canto do olho, 
viu Tiggy a rastejar pelo cho. Naquele momento, tinha uma faca na mo. O seu corao comeou a bater mais depressa.
Quanto daquilo era culpa sua, obra sua? Quanto tinha contribudo para precipitar Tiggy para o abismo
287
escuro no qual ela habitava? No podia aguentar aquilo sozinho. Precisava de ajuda... Precisava...
Com o brao  volta dos ombros de Jack, levou-o para fora da cozinha. No corredor, pegou no telefone e marcou um nmero.
- Para quem est a ligar? - perguntou Jack com preocupao. Jon abraou-o enquanto ouviu a voz familiar do outro lado da linha.
- Jenny - disse com voz rouca antes de fazer uma pausa para clarear a garganta. - Jenny, sou eu, Jon.
Ao ouvir a voz do seu marido, Jenny fechou os olhos e apoiou-se na parede. Teve de fazer um esforo para no chorar.
- Jon, sim - respondeu. - O que aconteceu? - Eu estou em casa de David e de Tiggy - disse Jon. Ouviu como ela susteve a respirao e apressou-se a tranquiliz- la. 
- No, Jen. Por favor, no desligues. No ... no  aquilo que pensas, Jenny.
Por favor, escuta-me - implorou.
Jenny segurou no telefone com fora. Meu Deus, que queria ele dizer? Porque estava a ligar-lhe? Para
lhe dizer que ia viver com Tiggy?
- Jen... Eu preciso da tua ajuda. Podes vir? Imediatamente, por favor - Jon olhou para Jack, que estava em p ao seu lado. -  Tiggy - continuou. Est... Est... 
H um pequeno problema - disse. Vem, por favor, Jen. Imediatamente.
- Sim, sim... vou agora mesmo - prometeu Jenny.
Olivia cruzou-se com a ambulncia na estrada principal, enquanto voltava para casa. Depois de se despedir de Saul, entrou no carro como um rob e
288
conduziu pelas estradas escuras no meio do campo, com a face repleta de lgrimas suscitadas pela dor e pelo desespero.
Deveria ter adivinhado. Ela j sabia, mas tinha tentado no pensar nele, convencer-se de que, se Caspar podia substitu-la to facilmente, ento ela tambm poderia 
fazer a mesma coisa.

Mas no. Ainda o amava... Ainda o desejava com toda a sua alma, embora a sua cabea reconhecesse a impossibilidade de resolver as suas diferenas ou de ele a aceitar 
tal e qual como ela era.
Ao seguir o caminho da entrada, viu que a casa estava inundada de luz. Havia quatro carros estacionados com descuido, cinco, se inclusse o da sua me. Reconhecia 
dois deles. O seu estmago encolheu-se enquanto saa do carro com as pernas trmulas e comeou a correr para casa.
Jenny tinha-a visto chegar e estava  porta,  sua espera. Olivia soube o que se passara ao ver o rosto da tia.
-  Tiggy, no  verdade? - indagou e, embora cinco minutos antes tivesse jurado que no tinha mais lgrimas para derramar, rebentou em soluos.
Jenny abraou-a e embalou-a da mesma forma que Jon tinha abraado e embalado Jack.
- No se passa nada, Livvy. No se passa nada - tranquilizou-a. - Entra e senta-te. Jon, pe gua a aquecer, pode ser? - pediu ao marido ao v-lo aparecer  porta, 
mas Olivia moveu a cabea.
- Eu estou bem - sussurrou. - Eu acho que sei o que aconteceu.
Atrs de Jon viu outros dois homens. Um deles reconheceu vagamente. Era o mdico da cidade.
289
- Foi Tiggy, no foi? Teve outro... - engoliu saliva
e mordeu o lbio. - Est...
- A tua me sofre de um distrbio alimentar,
Livvy - disse Jnny suavemente. - O doutor Travers
diz...
- A sua me precisa de receber um tratamento especializado - contou o mdico a Olivia. - Preparei
tudo para que seja hospitalizada hoje. Com este tipo
 de distrbio, existe sempre o perigo de ela se engasgar com a comida ou com o prprio vmito.
- Eu sabia... Sabia que ela o tinha feito, mas quis
 acreditar que era um incidente isolado. No... - Olivia olhou para Jenny com impotncia. - Queria contar-lhe, mas...
 - Livvy, no  culpa tua - assegurou Jenny.
- Eu vi-a - continuou Olivia com desespero. Logo depois de voltar para casa, encontrei-a uma
noite na cozinha. Caspar disse-me que ela precisava
de ajuda, de tratamento, mas... mas acabmos por
discutir. Eu no podia acreditar, no queria acreditar.
Devia t-lo ouvido, devia ter feito algo. Devia ter sabido...
- As pessoas como a sua me so muito habilidosas a esconder o seu vcio - disse o mdico, com um
tom compreensivo.
- Olivia, por favor, acredita, no  culpa tua - repetiu Jenny.
- Que... Que vai acontecer com ela? - perguntou
Olivia ao mdico com hesitao. Ele trocou um olhar
com Jenny e com Jon.
- Ns concordmos em internar a tua me numa
clnica privada especializada neste tipo de distrbio - respondeu Jenny calmamente.
290

- Ainda  muito cedo para saber como ir responder ao tratamento. A bulimia no  um problema fcil de tratar, nem para o paciente nem para a famllia - explicou 
o mdico.
- Ser necessrio contar ao teu pai, claro - acrescentou Jenny, e olhou para Jon.
- Sim. Mas eu falarei primeiro com o especialista
- disse Jon.
Quando o mdico partiu, Olivia comeou a agradecer a Jenny e a Jon o que tinham feito, mas Jenny interrompeu-a.
- Sinto-me muito culpada porque ns no nos apercebemos do que estava a acontecer - reconheceu.
- No poderia saber, tia - consolou Olivia. Jenny moveu a cabea.
- S relacionamos os distrbios alimentares com os adolescentes. Mesmo assim, ela deve ter dado indicaes, mas todos ns estvamos muito absorvidos pelas nossas 
vidas para percebermos. Livvy, tens a certeza de que ficas bem aqui sozinha? - perguntou antes de partir.
Eles j tinham concordado que Jack iria para a casa de Jenny, a pedido do menino.
- Sim, eu fico bem - assegurou Olivia.
291
Quinze
Jenny percebeu que Jon a tinha seguido at casa quando j estava a estacionar o carro em frente a casa. Disse a Jack para ir entrando e ficou  espera do seu marido 
l fora, enquanto desejava saber o que quereria ele.
As ltimas semanas tinham-lhe conferido um ar de autoridade; parecia um pouco mais alto, e quando tinha falado com o mdico, fizera-o num tom mais determinado do 
que era habitual. Talvez, pela primeira vez na vida, tivesse deixado a sombra de David e, por conseguinte, estivesse a ser julgado pelos prprios mritos em vez 
de estar simplesmente rotulado como o gmeo de David. A mudana ficava-lhe bem, dava-lhe um ar msculo, de confiana em si mesmo.
Jenny baixou os olhos enquanto ele deixava o carro e caminhava para ela.
- Jenny - comeou. - Podemos falar?
Ela ficou surpreendida.
- Depende do assunto - disse finalmente, fazendo um esforo para o olhar nos olhos. - Se desejas chorar no meu ombro por causa de Tiggy... - fez uma
292
pausa e baixou os olhos antes de continuar novamente. - Eu percebo o que sentes por ela, Jon. Eu sei... Eu sei que pensas que a amas...
- No, ests errada. Eu no a amo. No sei de que me devo envergonhar mais - disse com um tom sombrio, enquanto ela olhava para ele de cima a baixo. Se de ter cado 
na armadilha que apanha os homens maduros to facilmente, se por ter acreditado que a vida estava a dar-me uma oportunidade para me apaixonar pela ideia de estar 
apaixonado por mim, ou por ter percebido com tanta velocidade que no queria nada disto.
- Deve ter sido um choque encontr-la daquela forma - disse Jenny simpaticamente. Estava a fazer o possvel para no pensar nas prprias emoes e por se colocar 
no lugar de Jon, mas no era fcil, porque ainda tinha o corao destrudo.

- Se esse  um modo diplomtico para dizeres que pelo menos voltei a ter bom senso ento, graas a Deus, j tenho algo para alegar em minha defesa. No - moveu a 
cabea com resoluo. - J me tinha apercebido antes... esta tarde, na realidade. Tinha de ir ao tribunal e levei Tiggy comigo at Chester. Almomos juntos. Ento... 
Bom, digamos que quando a oportunidade surgiu de... de consumar a nossa relao, eu descobri que no era aquilo que eu queria. Sem rodeios, vou dizer-te, Jen, que 
o meu corpo me disse com clareza com quem queria estar, e no era com Tiggy. No, no era sobre ela que queria falar contigo - olhou-a nos olhos. - Eu sei que no 
te mereo e vou perceber se me recusares, mas se h alguma possibilidade de ns podermos... de podermos... eu quero voltar, Jen. Sofri muito e as crianas
293
tambm. E... eu tenho feito muitas tolices nestas ltimas semanas e, embora no tenha sido fcil, eu finalmente aceitei que, no fundo, inconscientemente, sempre 
invejei David. Agora eu vejo os cimes que tinha dele, quanto sofria por as necessidades dele estarem sempre  frente de tudo.
- Mas foste tu que sempre insististe para que ele fosse a primeira coisa - respondeu Jenny. - Sempre deixaste evidente a tua lealdade para com ele, o teu amor por 
ele, era a coisa mais importante.
- Porque sabia que era isso que esperavam de mim, mas no fundo... O meu filho, a minha mulher, o meu pai, os meus amigos, todos gostam mais de David do que de mim, 
por isso quando algum, a prpria esposa de David, parecia preferir-me a mim... No estou a tentar procurar desculpas - disse. - No o posso fazer. Eu odeio-me pelo 
que fiz. Acho que acabei por pensar: Bom, pode ser que Jenny te prefira a ti, mas Tiggy, a tua esposa, prefere-me a mim...
- Ah, no, isso no te serve de desculpa - interrompeu Jenny rudemente. - Eu no preferia... No prefiro David.
- Casaste-te comigo porque esperavas um filho dele - lembrou Jon, em voz baixa.
- Eu casei-me pela mesma razo que tu te casaste
- voltou a dizer Jenny. - Para o bem do filho de David, para poder dar-lhe uma famlia, um pai e a proteco de que ele precisava, da mesma forma que te casaste 
comigo para dares a David a proteco que acreditavas que ele merecia. Eu no interessava para nada. Poderia ter sido qualquer mulher.
Jon franziu a testa ao ouvir a desolao na sua voz.
294
- Isso no  verdade - assegurou.
- No me amavas - acusou Jenny.
Jon afastou o olhar. Ele fechou os olhos.
- No,  um facto que no - reconheceu finalmente. Deu um passo at ela e pegou-lhe nas mos, enquanto ela o observava com surpresa. - Nessa altura, no, mas... 
Lembras-te da noite em que Harry nasceu? - perguntou com voz rouca.
Jenny disse que sim. Claro que se lembrava. Como poderia esquecer? O seu primeiro filho, a longa luta para o dar  luz, a felicidade quando o puseram no seu colo.
- Foi nesse dia que me apaixonei por ti - disse suavemente. - Quando eu me apaixonei por ambos. Sim, at ento, o nosso casamento tinha sido apenas uma responsabilidade, 
um dever para com David, para com o filho que esperavas, mas, quando o vi nascer, de repente, senti que ele era meu filho. Eu no posso explicar muito bem isto, 
mas foi assim que me senti.

- Nunca... Nunca me disseste nada - referiu Jenny com a voz fraca e carregada de lgrimas, e no s pelas recordaes que Jon tinha evocado.
- Nunca houve oportunidade - disse com simplicidade. - Harry viveu to pouco tempo e ento... Bom, ento, quando me disseste que no tnhamos de continuar - juntos, 
eu pensei... Pensei que era uma parvoce contar-te o que sentia.
- S queria fazer a coisa correcta, dar-te a tua liberdade - explicou Jenny.
- Dar-me a minha liberdade - sorriu Jon, com tristeza. - J era muito tarde. O que realmente eu queria era que me desses o teu amor.
295
- Jon...
- No  culpa tua - tranquilizou-a. - Ningum pode amar por imposio, e a ltima coisa que queria era que fingisses...
- Mas, Jon. Eu amava-te. Eu amo-te - afirmou Jenny. - No comeo do casamento, no. Penso que no conseguia amar ningum naqueles momentos de tanto sofrimento, entretanto, 
quando Harry... Sofreste tanto... E eu amei-te desde esse momento - reconheceu. - Mas sentia que j tinha posto muita carga nos teus ombros e no queria continuar 
a sobrecarregar-te.
- Quantos anos temos? - perguntou Jon. - H quanto tempo estamos casados? E foi necessrio tudo isto para dizermos um ao outro o que sentimos.
- Pensei que no me podias amar, principalmente quando me comparava com Tiggy. Ela  to...
- Tu s linda - interrompeu-a Jon com rudeza, e acariciou a sua face com os dedos. - Eu sempre achei isto. Senti-me terrivelmente ciumento na noite da festa. Estavas 
to bonita. Aquele vestido...
- Eu pensei que no tinhas gostado - admitiu Jenny. - No me disseste absolutamente nada.
- Eu no fui capaz - reconheceu Jon. - Eu queria faz-lo, mas no fui capaz.
- Jon...
- Eu fiquei doente ao ver-te danar com David... Preferia ser eu a danar contigo. At Guy parecia no estar a achar muita graa.
- Guy  apenas meu scio - afirmou Jenny com convico. Em silncio, deu graas a Deus por ele no ser nada mais, embora h algumas horas atrs...
- Sinto-me quase culpada do que sentimos... De tudo
296
aquilo que temos - sussurrou depois a Jon com voz rouca, quando ele terminou de a beijar. - Pobre David, pobre Tiggy... O que achas que vai acontecer?
- No sei... Jen, h algo que eu ainda no te contei.
Jenny esperou em silncio.
-  David. Tem tirado dinheiro da conta de um cliente - explicou brevemente a Jenny o que aconteceu.
- Jon - sussurrou, chocada, quando ele terminou.
- Como  que ele pde fazer uma coisa dessas? O que acontecer? No podemos devolver o dinheiro se vendermos tudo e...
- Eu sei, eu sei - afirmou Jon, enquanto a apertava nos seus braos. - Quando eu voltei de Chester, tinha uma mensagem no escritrio. Jemima Harding morreu esta 
manh. Agora, ser necessrio contar aos contabilistas e ao banco.

- Jon... - Jenny levou os dedos aos lbios. - Contaste alguma coisa a David?
Jon negou com a cabea.
- Ns ainda no falmos disso. No posso, pelo menos por enquanto.
- E ao teu pai?
Novamente, Jon negou com a cabea.
- Jon... - repetiu Jenny com tristeza enquanto apoiou a cabea no seu peito.
Era um padro que se repetia ao longo dos anos: David sempre ensombrou os seus momentos de felicidade e de intimidade. Embora, naquela ocasio, no s estivesse 
a ensombrar a vida deles, como tambm ameaasse destru-los. Embora Jon no tivesse dito isso, Jenny j sabia. Talvez fosse David quem
297
roubara o dinheiro e trara a confiana de uma pessoa, mas seria Jon quem pagaria por isso. Era sempre assim...
Olivia partilhou de boa vontade a sua sandes com o pssaro que a observava. De qualquer forma, nem sequer tinha fome, reconheceu com esprito taciturno enquanto 
espalhava as migalhas no relvado. Estava um dia quente e ensolarado e tinha descido at  praa para almoar, mas no tinha apetite.
O mdico tinha-lhe ligado naquela manh, para inform-la que a sua me estava estvel e que a transfeririam para a clnica naquela mesma tarde. Tambm lhe disse 
que ela no podia receber visitas durante alguns dias, at estar em condies para os receber.
Jon tinha-a informado de que Jemima Harding tinha morrido. Uma lgrima deslizou pelo seu rosto, seguida de outra. Inclinou a cabea enquanto procurava na mala um 
leno de papel.
- Olivia?
Ficou rgida ao ouvir a voz de Ruth, mas j era muito tarde. A sua tia j tinha visto as lgrimas.
- Livvy, querida, soube o que aconteceu com a tua me. No imaginas o quanto lamento - comeou a dizer em tom compassivo, enquanto se sentava perto dela no banco 
de madeira e lhe passava o brao pelos ombros.
- No, no  isso... No estou a chorar pela Tiggy, mas para mim - disse Olivia com tristeza. - Eu sinto tanto a falta de Caspar... Odeio diz-lo, mas estou arrependida 
por me ter oferecido para ficar e no ter ido com ele.
298
- Livvy... Ainda no  demasiado tarde - consolou-a Ruth. - Podias...
- No, ele j no me ama. Caspar acredita que amar algum supe antepor aquela pessoa a tudo o resto, por isso pensa que eu j no o amo. Pelo menos, no o suficiente, 
porque, de acordo com ele, eu no demonstrei o meu amor por ele. E, embora eu o deseje muito, no sei se podia viver deste modo, com essa ideia a martelar na minha 
cabea. E tambm... comeou a chorar outra vez; tentou engolir o n que tinha na garganta e fez um esforo para refrear as lgrimas. - De qualquer forma, eu no 
podia partir agora. Agora que o meu pai.
- O teu pai j passou a fase pior e, como afirmam os mdicos, ele est a recuperar-se muito bem. Deve estar novamente a trabalhar em menos de um ms... Olivia, querida, 
o que se passa? - perguntou Ruth com desolao quando Olivia enterrou a caba entre as mos e comeou a chorar compulsivamente.

- Oh, tia Ruth...
- Olivia, o que est a acontecer? Posso saber o que se passa? Disse alguma coisa de mal?
- Eu no posso falar disto consigo - respondeu Olivia, ainda a chorar. - Nem o deveria ter mencionado.
- Claro que podes falar comigo - afirmou Ruth, determinada. - Podes e deves, e eu no vou sair deste banco enquanto no o fizeres.
Olivia dedicou-lhe um sorriso choroso.
- Assim est melhor - encorajou-a Ruth. - Agora, diz-me o que se passa.
Detestando-se por ser to fraca e ceder  tentao de abrir o seu corao, Olivia contou tudo sobre o
299
roubo do seu pai. Ruth deixou-a falar sem a interromper, e quando a jovem terminou, ela olhou em silncio para o outro lado da bonita praa.
- No... No devia ter contado nada. Est horrorizada e...
- No, no estou horrorizada - respondeu Ruth com naturalidade. - Nem mesmo demasiado surpreendida. Agora fui eu que te apanhei de surpresa, verdade? Lamento, Olivia, 
mas acho que conheo o teu pai um pouco melhor que tu. Achas difcil acreditar que ele possa ter feito algo assim to. condenvel. Uma menina precisa de poder confiar 
nos pais e respeit-los,  normal.
- Mas eu j no sou nenhuma menina.
- Claro que no, mas nem sempre  fcil desprendermo-nos da educao e dos padres de comportamento que adquirimos. Para veres, para mim, o teu pai sempre foi e 
sempre ser o menino obstinado e egosta que evitou as responsabilidades conscientemente. Deixou Jon fora da Ordem e usou o seu charme e a tendncia infeliz do seu 
pai de educ-lo mal para seu prprio benefcio - manteve-se silenciosa durante um momento, absorvida nos seus pensamentos. - Jon j falou com os contabilistas?
- No, ainda no - disse Olivia com voz cansada.
- Bem - Ruth voltou-se e olhou na direco da outra zona da praa, para a janela do escritrio de Jon. - Ento,  melhor eu ir falar com ele - disse com determinao 
e com um sorriso na face.
- Porque  que quer v-lo? - Olivia franziu a testa. - Mas.
- Sabes o que eu acho que devias fazer, Livvy?interrompeu Ruth. - Devias ligar para o teu homem.
300
O homem que tu queres - lembrou-lhe. - Sim,  capaz de no ser perfeito, claro que ainda tens problemas para resolver, mas diz-me, o que  pior? Viver com ele e 
com os problemas, ou viver sem problemas e sem ele? No desperdices a vida com lamentaes absurdas, Olivia, querida. No faas como... Liga-lhe. Eu insisto.
- Ruth? - Jon levantou-se quando o seu secretrio levou Ruth at ao escritrio. A tia morava do outro lado da praa, mas ele no se lembrava da ltima vez que ela 
tinha ido ali.
- Senta-te, Jon - falou num tom enrgico. - Temos de falar. Olivia contou-me a histria de David - anunciou sem rodeios. - Eu deduzo que, por enquanto, mais ningum 
da familia sabe disto.

- No, ainda no - reconheceu Jon com um suspiro. - Muito bem. Agora diz-me, quanto dinheiro pediu David emprestado  Jemima Harding? - Pediu emprestado? - Jon olhou 
para ela com ironia. - David no pediu nada emprestado. Ele roubou... - No, no roubou - corrigiu Ruth com autoridade. - David, com uma falta total de profissionalismo, 
no h nenhuma dvida, pediu um emprstimo a Jemima. Ou melhor, uma srie de emprstimos. Eles tinham acordado verbalmente que ele devolveria o dinheiro quando ela 
quisesse. Agora que ela morreu, parece que chegou o momento de devolver os emprstimos, embora eles no tenham definido nenhuma data.
301
Jon moveu a cabea.
- Oxal... David pudesse devolver aquele dinheiro. Os dois sabemos isso.
- David no - afirmou Ruth. - Mas eu sim. Jon olhou para ela, espantado.
- Ruth - explicou-lhe com pacincia. -  muito generoso da sua parte fazer essa sugesto, mas David tirou dois milhes de libras a Jemima.
- Eu sei disso - declarou Ruth com serenidade.
Jon olhou para ela sem entender.
- Ruth no tem dois milhes de libras.
- No - reconheceu. - Penso que da ltima vez que contei eram quase cinco milhes.
- Cinco milhes! Ruth tem cinco milhes de libras?
- Jon, por favor, no te ofendas, mas no teu lugar eu no estaria boquiaberta. No te favorece nada, pelo menos na tua idade - brincou com o sobrinho. E, no, eu 
no estou senil - dedicou-lhe um sorriso alegre. - Eu tenho o dinheiro, embora reconhea que me aborrece ter que us- lo para salvar a pele de David, mas no  s 
a pele dele que est em jogo, certo?
- perguntou suavemente a Jon. - Jenny e tu e, principalmente, Joss so muito especiais para mim... em particular, Joss. Na minha idade j tenho direito de ter preferncias 
e eu no quero que o futuro dele fique arruinado por causa da estupidez e fraqueza do David.
Fez uma pausa e sorriu.
- A irm da minha tia deixou-me uma herana abundante - revelou com um sorriso. - No cinco milhes de libras, de forma alguma. Mas h muitos anos atrs eu descobri 
com surpresa que tenho talento
302
para jogar na Bolsa. Ters de falar com o banco e com os contabilistas, claro. Ns no podemos deixar isso nas mos de David. Podes explicar-Lhes o acordo privado 
que David e Jemima tinham.
- Eles nunca vo acreditar que Jemima quis emprestar o dinheiro a David.
- No fundo, no - admitiu Ruth. - Mas eles estaro ansiosos por resolver o problema com a mxima discrio. No melhorar a imagem profissional deles se descobrirem 
que David tirava dinheiro da conta da Jemima debaixo dos narizes deles, no achas? - perguntou a Jon num tom prtico.
- No se esqueceu de uma coisa? - perguntou Jon  sua tia depois de um silncio breve.
- De qu?

- Que eu tenho um dever para com a minha famlia e tambm para com a minha profisso. A minha honra diz-me para denunciar David e...
- No - interrompeu Ruth com determinao. Claro que a tua honra te fora a denunciar as tuas suspeitas, mas  apenas isso que elas so, Jon. Afinal de contas, no 
tens prova nenhuma de que David no fez um acordo privado com Jemima, pois no?
- Ruth... - protestou Jon.
- Tens as provas? - insistiu.
- No. Mas ambos sabemos...
- Ambos sabemos que David pediu o dinheiro emprestado a Jemima e nada mais. Eu percebo-te, Jon - continuou, com mais suavidade. - Mas, embora aplauda a fora moral 
que faz com que sacrifiques a tua profisso e a tua vida, eu no posso pr no mesmo saco as consequncias que esta acusao teria para a nova gerao. Vai marc-los 
a todos.
303
- Ruth, no me faa isto - implorou Jon com um tom cansado. - A Ruth sabe...
- Eu sei que s um homem honesto, Jon, e isso  tudo aquilo que eu preciso saber. Agora vou para casa para falar com meus corretores da Bolsa, e eu quero que contactes 
com o banco e com os contabilistas para lhes explicares a situao. Tambm lhes vais dizer, claro, que ele vai devolver os emprstimos, embora no exista nenhum 
recurso legal, nenhuma real obrigao de os devolver. Acredito que ficars surpreendido por os senhores do banco e os contabilistas respirarem de alvio. Como David... 
Bom,  evidente que ele no poder trabalhar novamente, nem aqui nem em qualquer outro escritrio. Eu acredito que ser melhor que ele decida reformar-se j, devido 
ao ataque de corao.
Jon olhou para ela com um semblante triste.
- Ruth, no sei o que dizer.
- Ento, no digas nada. Normalmente  a reaco mais sensata - disse Ruth com um sorriso.
Olivia fechou os olhos e agarrou no telefone com fora. Tinha acabado de ligar para o nmero que tinha de Caspar e pedira para falar com ele. O que diria quando 
ouvisse a sua voz? O que fariam? Ser que ele falaria com ela ou desligaria? J teria banido totalmente o passado, quereria esquecer a relao deles?
Ouviu uma voz do outro lado da linha, mas no a de Caspar.
- Lamento - disseram-lhe. - Mas agora ele no est.
304
O corao de Olivia caiu aos seus ps.
- Poderia... Quando  que eu poderia falar com ele? - perguntou com desespero.
- No sei dizer-lhe. Saiu para resolver um assunto pessoal e no sei quando voltar.
- Entendo... Por acaso no tem nenhum nmero no qual o possa localizar? - perguntou Olivia.
- No, temo que no.
Olivia desligou sem fazer barulho. Bom, pelo menos tinha tentado isto. Caspar, onde ests?" A dor cresceu no seu interior como uma agonia lenta. Quem disse que o 
tempo e a distncia curavam todas as feridas estava enganado. No era verdade. S as aumentavam.
- Max... No pensava encontr-lo aqui. O assistente disse-me que esta manh voc ia para o tribunal.

- Sim, mas anularam o caso - contou Max ao scio mais velho do escritrio, que estava parado, no limiar da pequena sala dele, nervoso e irritado. Havia algum atrs 
dele e, quando ele se mexeu, Max viu quem era. Franziu a testa. Que diabos estava a fazer ali a amiga de Madeleine?
- Bom, j que est aqui - comeou o scio por dizer. - Ser melhor que os apresente. Claudine, este  Max Crighton. Max  estagirio e est  espera de ocupar uma 
vaga no escritrio.
- Sim... Isso j sabia.
Estava a sorrir quando lhe apertou a mo. Max cumprimentou-a, contrariado. No tinha gostado dela na primeira vez que a vira e continuava sem conseguir
305
gostar. Ele suspeitava que ela tinha tentado pr Madeleine contra ele, o que lhe agradava ainda menos.
- Max... - a voz do scio mais velho tinha um som muito vivo e o seu sorriso era sempre muito forado. - Claudine Chatterton ser a nova scia do escritrio. Ocupar 
o lugar que Clive Benson deixar quando passar  judicatura - voltou a sorrir a Claudine, mas ela no olhou para ele; estava a observar Max com um sorriso sagaz.
Por uma vez em toda a sua vida, Max soube que estava numa situao em que no tinha nem controlo nem poder. No era Madeleine a sua rival, percebeu furioso, mas 
sim aquela mulher... aquela mulher que sorriu para ele de um modo brincalho... provocante. penetrante.
E Madeleine devia saber disso. Aquela raposa estpida... por que diabos no lhe tinha contado qualquer coisa? Levantou-se, fingiu que no percebia o olhar de antipatia 
que o scio mais velho Lhe estava a dirigir, e saiu porta fora.
- Cus! - ouviu Claudine dizer com alegria enquanto ele deixava o escritrio. - Fizemos algo para o aborrecer assim tanto?
Algo para o aborrecer assim tanto? A outra raposa sabia disso perfeitamente. Charlotte enganara-se ao descobrir a informao e algum teria de pagar porque ele tinha 
sido exposto ao ridculo, porque tinha tirado aquilo que legalmente lhe pertencia. E sabia quem ia pagar por isso.
Madeleine ficou surpreendida ao v-lo e a sua surpresa tornou-se em desolao ao perceber a sua expresso.
306
- Max, que aconteceu? Que aconteceu?
- Sabes muito bem o que aconteceu! - gritou, enquanto lhe lanava cada palavra como se fosse um estalo. - Por que diabos no me disseste que a Claudine tinha sido 
escolhida para a vaga?
- Pensei... Pensei que sabias... - respondeu Madeleine com nervosismo. - Max, por favor, no fiques chateado - implorou. - Sei que te sentes desapontado, sei o quanto 
querias mostrar o que vales, mas at mesmo o meu pai reconhece que para chegar aos escritrios mais conhecidos no basta talento... Bom,  necessrio ter os contactos 
apropriados, e por isso...
- Os contactos apropriados! E quais so os contactos apropriados de Claudine? Deixa-me adivinhar. O teu pai intercedeu a seu favor? Porqu?  ele que a est a patrocinar, 
no  verdade?
- Max... - Madeleine estava branca com o choque. - Por favor, eu sei como te sentes.

- Sabes? Ser que sabes mesmo?
Max agarrou-a pela cabea e comeou a aban-la como se fosse uma boneca de pano, sem prestar ateno s suas splicas frenticas para que a soltasse. Meu Deus, quando 
ele pensava no tempo que tinha perdido para nada.
- Para vocs foi muito divertido, certo? - perguntou enquanto soltou Madeleine com tanta fora que ela quase bateu contra a parede.
Enquanto Madeleine tentava manter o equilbrio, esfregou a cabea dolorida.
- Max, no foi assim... Sei que ests chateado, mas escuta-me, por favor...
- Queres que te escute? Queres que te escute?
- Falei com o meu pai - disse Madeleine com 
307
desespero, enquanto tentava no pensar no intenso desprezo que descobriu na voz dele. Ele no a olhava nos olhos e ela queria acreditar que aquele no era o seu 
Max... Talvez, assim que se tranquilizasse, tudo mudaria e ela esqueceria o quanto ele a tinha assustado. - Ele quer... Quer que ns jantemos com ele e com a me 
esta noite. Disse que em breve pode surgir uma vaga noutro escritrio.
Quando ela lhe disse o nome, Max ficou incrdulo. Era um dos escritrios mais exclusivos de Londres e ele tinha tantas hipteses de obter uma vaga l como de voar 
at  lua.
- O pai conhece o scio mais velho... ele falou com ele e, bem... O pai diz que, j que no tem um filho, seria agradvel ter um genro que seguisse os seus passos... 
- Madeleine engoliu saliva. - Lamento por no te ter contado sobre Claudine, mas... para dizer a verdade, ela implorou-me para no o fazer. Max... - os olhos dela 
encheram-se de lgrimas. Foi horrvel ouvir-te falar da tua promoo, saber o quanto significava para ti e no poder dizer nada, mas eu prometi isto a ela e... por 
favor, no te zangues comigo. Eu sei que no querias que eu falasse com o meu pai, mas...
Max sentiu a sua cabea a dar voltas. Uma posio num dos escritrios mais notveis de Londres... A proteco de um dos juzes mais importantes do pas... olhou 
para Madeleine, com a cabea feita em gua. Tinha tudo ao seu alcance... com uma condio.
Genro... Isso significava que teria de se casar com Madeleine. A noite anterior tinha estado a imaginar o momento em que lhe contaria exactamente o que pensava dela, 
o momento em que iria partir e, de repente...
308
- Pra de chorar, Maddy, meu amor, minha maravilhosa e travessa Maddy - tranquilizou-a enquanto a abraava. - Claro que no estou furioso contigo: Bom, no estou 
muito - corrigiu com naturalidade. Foste muito ruim por teres falado com o teu pai.
- Eu fiz isso para ti... para ns - sussurrou Madeleine, com os lbios trmulos. - De forma a que ns pudssemos estar juntos.
- Sim, eu sei - confirmou Max, amolecendo o tom de voz. - Mas queria ganhar por mim mesmo o direito de contar ao teu pai que me quero casar, e no sentir que.
- Max, no - implorou Madeleine. - Ele s est a tentar ajudar. Ele s quer...

- Eu sei o que quiseste fazer - murmurou Max com voz sedosa e sugestiva. - E eu sei o que eu quero fazer.
- Max, ns no podemos - Madeleine quase sussurrou. - Agora no. Nem sequer  hora de almoo e... Max...
- A que horas vamos jantar com os teus pais?perguntou enquanto deslizava as mos por debaixo do top dela, para lhe acariciar os seios.
Mil pensamentos ferviam na cabea dele. Conseguiria ser membro de um escritrio e herdaria a fortuna do av, porm o preo que tinha de pagar eram uns quantos anos 
de casamento com Madeleine. Mas que mais podia fazer? Dentro de trs ou quatro anos ainda nem sequer tinha completado trinta anos. Tinha de assegurar a situao 
econmica dele, claro, para no sair a perder quando se divorciassem. Tambm teria a certeza de que no teria filhos. No estava disposto a manter filhos que, no 
fundo, no queria ter.
309
- Tenho de levar-te a casa para que conheas a minha familia - prometeu a Madeleine enquanto o conduzia para o andar de cima. - Eles vo adorar-te - mas enquanto 
a levava nos braos e comeava a beij-la, no era a face pequena e redonda de Madeleine que via, mas a expresso de gozo e alegria de Claudine minutos antes de 
sair do escritrio.
No, aquilo no ficaria assim... de modo nenhum.
Caspar fez uma pausa antes de tomar o caminho que o conduzia at  casa dos pais de Olivia.
No sabia como Olivia reagiria  chegada dele. No princpio, quando a deixou, com o esprito nublado, o orgulho ferido e sentindo-se injustiado, pensou que ao acabar 
com a relao e afastar-se dela o sofrimento acabaria por desaparecer, mas afinal aconteceu o oposto.
Tinha sido preciso uma semana, em que estivera  espera de uma chamada de Olivia, para compreender o que tinha feito e, mais difcil ainda, aceitar o que fizera.
Nunca tinha conseguido despertar o efeito de menino, quando tentava capturar a ateno dos seus pais nem despertar o amor deles, por isso porque  que acreditara 
que o podia fazer com algum adulto como Olivia, sobretudo, com algum com a personalidade de Olivia?
Finalmente entendera como ela se devia ter sentido... desapontada porque ele no a tinha entendido, porque no percebera a necessidade dela de substituir o pai no 
escritrio.
A verdade  que tinha sido ciumento, ciumento de que algum fosse mais importante para Olivia do que
310
ele. Tinha visitado alguns velhos amigos h alguns dias atrs e escutara a mulher de um deles, que se queixava pacientemente dos cimes que o seu marido tinha dos 
dois filhos deles.
-  absurdo - tinha contado a Caspar com um suspiro. - Ricky  filho dele, e por isso em parte gosta dele. No entanto, tambm pensa que Ricky  outro homem que monopoliza 
a minha ateno. Eu no consigo faz-lo entender a razo pela qual Ricky precisa mais de mim. Ricky precisa do afecto do pai e da me dele.

No princpio, Caspar pensou que ela estava a exagerar, mas s depois, ao reproduzir a conversa na sua cabea, comeou a desejar saber se tambm no seria o tipo 
de pai que sente cimes do seu filho, o tipo de homem que tenta castigar uma me por amar o filho, o tipo de homem que tinha sido o seu pai...
Estava escurecendo, quando estacionou  frente da casa. Saiu do carro e parou, absorvido nos seus pensamentos, antes de ir para a entrada. Tinha sido excessivamente 
duro com Olivia, principalmente em relao ao problema da me dela. Continuava a pensar que no servia de nada recusar que Tiggy tinha um problema e que requeria 
ajuda profissional, mas poderia ter explicado melhor a situao; com mais precauo, com mais tacto, como em relao aos seus comentrios. Moveu a cabea, tocou 
 campainha e esperou.
Olivia estava no andar de cima quando tocaram  campainha. Esteve quase para no abrir; no sentia vontade de ver ningum. Jon j tinha telefonado antes para lhe 
contar sobre a visita de Ruth e do resultado feliz da
311
sua reunio com os contabilistas, que se tinham limitado a aceitar o dinheiro que fora pedido emprestado. Sabia que quem tocava no podia ser ele nem Jenny, porque 
o seu tio tinha-lhe dito que iam jantar fora.
- Sozinhos - acrescentou. - Ruth far de ama. Por outro lado, Olivia no estava com um esprito festivo, mas exausto. Trabalhou avidamente no escritrio, ajudou 
o seu tio e, como ele tinha comentado naquela tarde, j quase tinha conseguido pr em dia os assuntos pendentes deixados pelo pai dela. Era sempre bom ter a mesa 
vazia, pensou Olivia, e o que mais a surpreendeu foi no ter perdido o ritmo de trabalho ao qual estava habituada.
Mas tinha perdido Caspar.
Cansada, desceu as escadas e abriu a porta.
- Caspar! - exclamou com incredulidade, en quanto olhava para ele como se no acreditasse no que estava a ver.
-  muito tarde para reconhecer que fui um idiota e que mudei de ideias? - perguntou Caspar sem rodeios. - Pensava que era um homem maduro, j feito e completo, 
mas nestas ltimas semanas desiludi-me comigo mesmo. Eu no posso ser um homem se ainda me comporto como um menino. E quanto a estar completo... Nunca me voltei 
a sentir completo sem ti.
- Eu tentei ligar-te hoje - foi a nica coisa que se lembrou de dizer, enquanto entravam em casa. - Mas no estavas...
- No, claro, estava a vir para c - afirmou Caspar.
- Rezando a cada quilmetro para que no me tratasses como eu na realidade merecia e que no me mandasses embora.  demasiado tarde, Livvy? - perguntou.
312
Olivia negou com a cabea e disse-lhe:
- Sim,  muito tarde para deixar de te amar. Caspar... - gemeu enquanto caa nos braos dele. - Senti tanto a tua falta... Desejei-te tanto. Pensei que no ia deixar 
que me manipulasses emocionalmente, exigindo-me que fosses a pessoa mais importante na minha vida, mas  o que na realidade s.
- Ento pra de falar e beija-me - ordenou Caspar com carinho enquanto a abraava com mais fora. Comeou a baixar a cabea ao mesmo tempo que ela elevava a face 
at ele, mas parou e olhou para o corredor.
- Onde esto os teus pais? - perguntou num sussurro.

- No quero ter testemunhas em relao ao tipo de comportamento que eu quero ter neste momento.
- O pai est numa clnica - explicou Olivia. - E Tiggy.
Quando Caspar viu a tristeza que escureceu o seu olhar, abraou-a ainda com mais fora.
- Tinhas razo, Caspar. Ela... Precisava de ajuda. Agora, com sorte, receber a ajuda de que necessita - contou calmamente. - O tio Jon e eu fomos  clnica esta 
tarde falar com o especialista responsvel. Ele foi muito sincero. Diz que no h estatsticas em relao  percentagem de doentes com bulimia que recuperam porque 
ainda no h nenhum que tenha superado o hbito tempo suficiente para se considerar que esteja curado. No caso de Tiggy... Enfim, suspeita-se que a sua dependncia 
j tenha muitos anos, por isso assim ser muito mais difcil de ajud-la a reconhecer o problema e super-lo. Esperava poder falar com o meu pai, mas...
- David sabe o que se passou com a tua me?perguntou Caspar, preocupado com a dor que via nos seus olhos.
313
- Sim, ele sabe - respondeu Olivia em voz baixa.
- O doutor Hayes contou-lhe esta tarde, mas segundo
parece, para o pai no... no...
- No o qu? - Caspar esperou porque no queria
pression-la. - Ele no est preocupado com Tiggy?
Apesar do quanto doa a Olivia reconhecer isso,
Caspar no estava muito surpreso.
Tinha percebido uma atitude forada no casal,
algo que indicava que, apesar da compreenso aparente, eles no eram mais do que duas pessoas que
vivem debaixo do mesmo tecto.
- Ele ainda est a recuperar do ataque de corao,
claro, mas o mdico disse-nos que o cho que de ter
um enfarte faz com que as pessoas se comportem de
um modo irracional e... e egosta.
Por outras palavras, David Crighton estava encantado por deixar o seu irmo e a sua filha assumirem a
 responsabilidade de tomarem conta da sua mulher e
livrar-se desse peso.
 - Isso  tudo, no ? - perguntou Caspar suavemente. - H mais alguma coisa que te preocupa?
Olivia olhou nos olhos dele.
 - Eu fui ter contigo ao aeroporto e... e vi-te a beijar...
Caspar sorriu. Ainda assim ela tentara apanh-lo.
- Na realidade - explicou. - Era ela quem me estava a beijar e, certamente, no eram os carinhos de
Hillary que eu queria. Tambm, s consenti que ela
me beijasse uma vez. S sei que no vou consentir
que durmas sozinha esta noite, e no planeio partilhar aquela cama ridcula contigo, por muito mal que
o teu av se sinta.
Olivia riu-se.
314
- O av no descobrir - brincou. - Est de cama. Tem muitas dores nas ancas.
- Na cama... Que excelente ideia - comentou Caspar enquanto a dirigia lentamente para as escadas: A propsito, quase me esquecia. Eu perguntei na universidade de 
Manchester e h uma turma  qual eu posso dar aulas. S teramos de procurar uma casa a meio do caminho, parece-me, mas...

Olivia olhou-o de cima a baixo.
- Quer dizer que ests disposto... A viveres e trabalhares aqui?
- Por que no? Tu ests aqui, no ? - respondeu Caspar com afecto.
- Caspar... - suspirou. - Eu amo-te, eu amo-te, eu amo-te.
- Obrigado - limitou-se a responder. - Mas eu no quero ouvir apenas Caspar, mas sim Aaah... aaah... aaah... Caspar. "
Olivia riu-se novamente.
- A srio? E eu que esperava que no me deixasses com fora nem sequer para isso - conseguiu dizer entre beijos. Riu novamente quando ele a soltou e comearam a 
correr pela escada acima, embora ela soubesse que Caspar a alcanaria muito antes de chegar ao quarto de hspedes, com a sua cama de casal confortvel.
David sorriu  recepcionista.
- Vai deixar-nos? - perguntou a rapariga, franzindo a testa. - Mas...
- Eu tenho de ir - assegurou-lhe David. - A minha
315
esposa no est muito bem e eles precisam de mim em casa.
- Ah, bom. Nesse caso, suponho que...
David dirigiu-lhe um segundo sorriso. Passara o dia inteiro a planear aquilo. Ele j no precisava de preocupar-se com Tiggy, graas a Deus. Outras pessoas tinham 
assumido essa pesada responsabilidade. Jack estava seguro com Jon e Jenny. Ainda estava pendente o outro assunto, claro, mas sabia que Jon encontraria uma soluo. 
O bom Jon.
J estava na hora que ele pudesse escolher o que queria fazer com a sua vida. E j era mesmo hora. Ben teria um desgosto, mas entenderia; ele sempre acabara por 
entendr. Ainda a sorrir, David entrou pela noite.
- Foi-se embora? Mas como... para onde? - perguntou Jon  recepcionista com exasperao. Ele tinha ido falar com o especialista quando descobriu que David abandonara 
a clnica.
- Eu no sei - respondeu. - Ele no disse. S mencionou que a esposa precisava dele.
Jon olhou para o especialista, que moveu a cabea.
- Eu j conferi a situao. Temo que ningum o tenha visto nem ningum saiba nada sobre ele.
- Mas para onde foi ele? - voltou a perguntar Jon.
- E porqu?
O doutor Hayes franziu a testa enquanto olhava para ele.
- Eu no sei - reconheceu. - O que sei  que diariamente, todos os anos, h pessoas que desaparecem por sua prpria vontade. Alguns, porque acham que 
316
o nico modo para deixarem uma situao impossvel, e outros porque... Bem, quem sabe?
- Pensa que David fez isso? Desaparecer?
- Eu acredito que ele optou por desaparecer - corrigiu o especialista.
Jon fechou os olhos.
- Tente no se preocupar - aconselhou o mdico.
- Claro que pode ter ido apenas visitar alguns amigos ou... - ao ver o olhar que Jon lhe dirigia, suspendeu a frase. - s vezes acontece - disse, encolhendo os ombros. 
- s vezes acontece.

David estava a assobiar enquanto entrava no barco com o seu carro. Meu Deus, como se sentia bem. Era assim que se devia viver, como a vida deveria ser vivida. Livremente, 
sem planos, sem presses e sem preocupaes para com as outras pessoas. Era finalmente livre!
- O que contaremos ns a Ben? - perguntou Jon a Jenny depois de lhe contar o que aconteceu.
- Qualquer coisa - respondeu em tom enrgico. Deixa que seja o mdico a contar-lhe. David no  da tua responsabilidade, Jon - lembrou. -  teu irmo, s o gmeo 
dele, sim, mas no  da tua responsabilidade. Alm disso, temos um casamento para planear - recordou.
- E outro para assistir - disse Jon.
Max tinha-lhes telefonado a anunciar o compromisso dele, e em seguida receberam a visita de Olivia e Caspar. Olivia tinha perguntado timidamente a Jenny se ela podia 
ajud-la a preparar o casamento.
317
- Eu no quero nada rebuscado, apenas uma celebrao simples e tradicional.
- No lhe preste ateno - Caspar advertira Jenny. Eu quero um casamento com tudo o que tenho direito.
Para poder contar aos meus netos quando for velho.
- David j decidiu como quer viver a sua vida - contou Jenny a Jon enquanto se apoiava para o beijar.
-  um direito dele... da mesma forma que ns temos o direito de decidir como queremos viver a nossa vida.
Jon sorriu com afecto e murmurou:
- Acreditas que, os casais velhos como ns, ainda podem dizer que esto muito cansados e querem ir cedo para a cama?
- Joss no vai deixar - respondeu Jenny, rindo. Prometeste a ele e ao Jack que ias pescar com eles, lembras-te?
Jon gemeu e reclamou:
- O que tem de fazer um homem para ficar em casa sozinho com a mulher?
- Pr comprimidos no copo de leite das crianas?
- sugeriu Jenny, com bom humor.
- Oxal pudesse fazer isso - foi a resposta sentida de Jon quando Joss entrou a correr para saber se o seu pai j estava pronto para ir pescar. - Oxal pudesse!
318

Fim
